propaganda anónima, dissuasão

É impossível ignorar o impacto da internet na sociedade atual. Para melhor entender o mundo é preciso explorar a cultura online, encontrar as suas particularidades e como estas influenciam a sociedade.

Comportamentos humanos estão a sofrer mudanças, seja nos modos de comunicação ou no processo do pensamento. As particularidades de uma comunicação baseada no imediato e feita à distância, anonimamente, com a possibilidade da rápida disseminação e de grande alcance. A difusão de informação nas redes sociais, a imensa quantidade de informação que cada indivíduo tem acesso, e a velocidade a que esta é criada. A utilização da imagem digital como forma de comunicação engloba todos estes aspetos, sendo das mais universais linguagens, com várias camadas de interpretação e complexidade, com poderes de manipulação emocional e de mobilização de massas. Estes aspetos tornam a comunicação através da internet vulnerável à propagação de desinformação, a propaganda.

A cultura digital tem impacto na sociedade atual. A imagem digital tem influência e poder sobre nós como indivíduos parte de uma sociedade. Como criadores da imagem, qual a responsabilidade do designer e do artista enquanto possível manipulador do público?

Palavras-chave: imagem digital, circulacionismo, empatia, desinformação.

Referências:

Steyerl, Hito (2013). “In Defense of the Poor Image” em The Wretched of the Screen (pp. 31-45). Berlim: Sternberg press.

Turkle, Sherry (2012). Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. USA: Basic Books.

Turkle, Sherry (2015). Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age. USA: Penguin Press.

Laranjo, Francisco (2015). “Critical Everything” em Modes of Criticism 1 – Critical, Uncritical, Post-critical. Disponível em: http://modesofcriticism.org/critical-everything/

Metahaven (2011). “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa. pp. 257-271

Metahaven (2014). Can Jokes Bring Down Governments? Memes, Design and Politics. USA: Strelka Press

Manifesto c/d

c) RESPONSABILIDADE
A motivação para um design afirmativo é uma responsabilidade para com a sociedade, para resolver os problemas que afrontam uma comunidade.
d) CURIOSIDADE
A motivação para um design crítico é questionar tudo o que não é questionado, é ter a
iniciativa de procurar uma motivação para um trabalho desenvolvido através do design, de crítica e de desfasamento da realidade.
Ana Serra & Liliya

Redesigning Design

O design como até agora era definido, está a sofrer uma mudança crítica. Com o emergir das “novas tecnologias” e a automatização, o design associado à produção de um objeto físico, a uma prática de artesão, está a desviar-se para novas definições. O design está a emergir como uma disciplina autónoma, capaz de incitar investigação e gerar conhecimento [1]. Designers têm os meios para ponderar e intelectualizar sobre a sua prática, produzir conhecimento sobre si enquanto criadores e sobre a disciplina. O design pode ser utilizado como ferramenta para construir uma forma excepcional de crítica [2].

Anthony Dunne e Fiona Raby popularizam o termo critical design. O design crítico, consiste na autorreflexão do designer através da crítica da sua própria arte. Mas implica estar igualmente ciente do contexto social, político e cultural da sociedade, criticá-lo, pensá-lo e agir sobre ele. Mazé [2] explica que designers, pessoas ativas, não se preocupam apenas consigo próprios, com os seus pares e colaboradores, mas envolvem-se com questões fora do design. Designers têm uma voz, têm um meio, uma plataforma para começar a conversa sobre conceitos teóricos e para pôr em prática termos ideológicos.

O grupo Metahaven, um estúdio de design fundado por Daniel van der Velden e Vinca Kruk, adere ao conceito de design crítico e opera com base em alguns dos seus princípios. Nas palavras de Velden, entrevistado por William Drenttel, o design serve “como uma ferramenta para questionar, para investigar, para antecipar. Assim como, uma ferramenta para imaginar.” Este estúdio baseia o seu trabalho nestes princípios, procurando colaborar com outros designers e investigadores dependendo do projeto que desenvolvem. O seu trabalho varia entre comissões de clientes, sejam publicações ou identidades; trabalho de investigação, que podem ser experienciados online, em exposição ou em publicações impressas; em ensaios, instalações, estratégias de comunicação, entrevistas, palestras e conferências. Em variados meios que comuniquem o projeto e o seu objetivo.

Menciono Metahaven como exemplo de um grupo que está ativamente a redesenhar o design, a pensar no seu futuro, não subscrevem à ideia de um design que não contesta as ideologias predominantes ou que se conforma com as expectativas culturais, sociais e técnicas [4], pretendem ser disruptivos e vocais sobre assuntos que estão estabelecidos nos sistemas da sociedade.

A partir do design research – que Velden descreve como a investigação através da prática do design, ou investigação que contribua para o design como disciplina [3] – os Metahaven produzem conhecimento que enriquece e autonomiza o design enquanto disciplina académica, desenvolvendo ideais e sistemas de design que se adaptam a um futuro incerto. Desenvolvem o conceito de speculative design e formulam um método de trabalho. Encontram questões que pretendem tratar a partir do que chamam “sinais fracos”, falhas na realidade com potencial para subverter o sistema, a partir do qual trabalho crítico pode ser desenvolvido. Metahaven defendem a necessidade da utilização da imaginação, em considerar um momento fictício ou de fantasia no processo do design, chamam à atenção para a necessidade imperativa de trabalhar com o absurdo, de dar importância à ideia, de imaginar o futuro. Deixando de lado a tendência atual para um design de participação cívica politicamente correta, de agir perante uma emergência. O design especulativo analisa o que poderá ser uma emergência no futuro e age sobre o problema antecipadamente. [1]

The Sprawl, um projeto desenvolvido por Metahaven em 2016, ilustra exatamente o espírito do design crítico. O objetivo é expôr um assunto, investigando-o e criticando-o. Velden acredita que o design é sobre o mundo, sobre outras pessoas, outras coisas, ligadas através do designer, o designer é o filtro. O design é um meio. O design está diretamente ligado com a política. O design está no ato e não na execução, todo o processo do projeto é relevante. Não é apenas reacionário, mas proativo.

Ana Serra

PALAVRAS-CHAVE: Design Crítico, Design Especulativo, Metahaven.

____________________________

[1] Velden, D. v. d. (2006). Research & Destroy: Graphic Design as Investigation. Metropolis M, (2).

[2] Mazé, R. (2009). Critical of What. In M. Ericson, M. Frostner, Z. Kyes, S. Teleman & J. Williamsson (Eds.), Iaspis Forum on Design and Critical Practice – The reader (pp. 389-408). Berlin: Sternberg Press, Iaspis.

[3] Drenttel, W. (2010). A Conversation with Daniel van der Velden of Metahaven. DesignObserver [Em linha]. Disponível em: https://designobserver.com/feature/a-conversation-with-daniel-van-der-velden-of-metahaven/23688 [Consult. 3 de Março 2019]

[4] Bowen, S.J. (2007). Beyond “Uncritical” Design position paper for Sint-Lucas Research Training Sessions 2007. Hogeschool voor Wetenschap & Kunst Sint-Lucas, Brussels 14-16 June 2007.

THINKING MACHINES

O artigo “Todos Somos Dados” publicado no Expresso, originalmente escrito por David Samuels, discute a utilização de dados recolhidos de utilizadores por aqueles no poder.

O mercado à volta do tratamento de dados pessoais recolhidos através das “novas tecnologias” está em grande desenvolvimento. As empresas privadas deste ramo têm cada vez mais poder na sociedade devido ao interesse por parte dos governos. O Estado beneficia do conhecimento de dados privados dos seus cidadãos, ajuda na vigilância e no controlo da sociedade, mas põe em causa a democracia. O artigo menciona a tendência para o aumento da integração da inteligência artificial neste negócio, dando cada vez mais controlo da “máquina” sobre nós.

São questionadas as diferenças entre o controlo de humanos feito por humanos e feito por máquinas. Será o futuro da sociedade o controlo através de máquinas automatizadas? Estarão estas máquinas programadas com ideais humanos e se sim, quais ideais são considerados os certos? Ou estarão as máquinas numa fase de pensamento próprio que poderão fazer decisões sobre os comportamentos aceitáveis na sociedade?

O que se toma como inevitável é a comercialização e controlo da informação privada de utilizadores, da sua utilização por aqueles no poder.

 

Ana Serra

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