Máquinas de habitar

Uma revolução industrial dá-se quando os avanços da técnica permitem um processo de grande industrialização de um mecanismo de produção, que passa a integrar a estrutura económica e, consequentemente, social de um país. As engrenagens da primeira revolução industrial arrancaram na Grã-Bretanha, no final do século XVIII, com a mecanização da indústria têxtil. Nos anos que se seguiram, as máquinas usadas para a produção proliferam o mundo. A segunda revolução industrial teve lugar na América, no século XX, com a linha de montagem – com a qual se deu os primeiros passos para a entrada numa era de produção em massa. [1]

Ainda que o termo “revolução” comporte a conotação de imediatidade, de uma mudança súbita, o estabelecimento das tecnologias digitais no seio da sociedade moderna coloca-nos desde já perante uma terceira revolução industrial. A revolução que hoje vivemos vem, em certa parte, recuperar uma identidade outrora perdida em detrimento de objectos que, através da padronização, eram produzidos aos milhares de uma só vez.

É de notar que o termo “identidade” não visa remeter para o reconhecimento de autoria de uma obra, neste contexto, mas antes recai sobre o espaço perdido para a expressão pessoal do indivíduo que não se quer ver reduzido à padronização.

Uma das expressões mais primitivas do sentido de identidade é a arquitectura vernacular, que proveio da necessidade e que lidou de maneira excepcional com o ambiente em seu redor, tirando dele o máximo partido.

Mas, à medida que as máquinas tomavam o seu lugar na sociedade do século XX, também o lar se tornou uma «máquina de habitar», ou assim o fez querer Le Corbusier – protagonista da arquitectura Moderna. O movimento Moderno na arquitectura ocorreu durante a primeira metade do século XX despoletado por um contexto de redefinição cultural catalisado pelas novas tecnologias emergentes no seguimento das guerras mundiais e em resposta a uma crise na habitação.

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Fig. 1 – Casa Dom-Ino, arq. Le Corbusier, 1914. Protótipo de sistema estrutural construído de elementos estandardizados, para ser reproduzido em massa

Neste seguimento, foi convocado, em 1928, na Suíça, o primeiro congresso internacional da arquitectura moderna (CIAM) que reuniu os principais arquitectos internacionais com o fim de discutir e estabelecer os aspectos deste (então) novo movimento para que fosse difundido como um estilo internacionalmente homogéneo. Daí surgiu uma arquitectura de contornos puramente funcionais e racionais que encarava a arquitectura como um instrumento com dimensão política, passível de instaurar um planeamento urbano indubitavelmente correcto. [2]

Os CIAM resultaram, em última instância, num manual de estilo para a construção – facilmente aplicável por qualquer arquitecto em qualquer parte do mundo. Este fenómeno deu-se em grande parte devido à Carta de Atenas, redigida em 1933 por Le Corbusier, como resultado do Congresso de 1931. (Já em 1926, Le Corbusier publicara, na sua revista L’Esprit Nouveau, um artigo onde enunciava Os 5 Pontos da Nova Arquitectura, cujos princípios rapidamente se tornaram cânone da arquitectura moderna). Como consequência, teve origem uma arquitectura indiferente e inadequada à escala humana e ao indivíduo que a habita, inapta a questionar a doutrina Moderna.

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Fig, 2 – Brasília. Cidade projectada por Oscar Niemeyer de acordo com a doutrina Moderna

Apropriando o termo de Alvin Toffler, a adhocracia é qualquer forma de organização que vai contra as linhas burocráticas para, assim, capturar oportunidades, resolver problemas e obter resultados. A adhocracia, vista da perspectiva da arquitectura, é disrupção da linha coesa do modernismo – que descaracteriza o indivíduo a uma massa com necessidades, gostos e quereres comuns, correspondidos através de um “condensador socia”.

Planear uma cidade – da escala do banco de jardim à escala da torre de escritórios – deveria desencadear um processo de questionamento quanto às lógicas em torno das quais se organiza uma sociedade, especialmente durante uma era de tumulto social e tecnológico, tal como reitera Robert H. Waterman Jr., para garantira sua capacidade de adaptação e sobrevivência. [3]  A adhocracia é o título dos movimentos de resistência, que apelam a uma atitude colectiva de advertência perante dogmas como o da arquitectura Moderna.

 

Palavras-chave: revolução industrial; identidade; arquitectura; modernismo; adhocracia

 

– Teresa Morais


 

[1] Autor desconhecido (2012). A third industrial revolution. The Economost (p.3, parágrafo 12)

[2] Mumford, E. (2000). The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960

[3] Grima, J. (2012). Adhocracy. Em M+ Matters.

Fig. destaque – https://www.archdaily.com/150629/ad-classics-robin-hood-gardens-alison-and-peter-smithson

Fig. 1 – http://thecityasaproject.org/2014/03/the-dom-ino-effect/

Fig. 2 – https://www.civitatis.com/pt/brasilia/visita-guiada-brasilia/

 

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