O Modernismo, despoletado pelos avanços tecnológicos do final do século XIX, é uma corrente que afirma o poder do Homem em fazer, melhorar e transformar o ambiente que o rodeia, alicerçada no conhecimento científico e tecnológico. Embarcando numa onda de inovação e mudança, o Modernismo engloba o trabalho de investigadores, artistas, escritores e designers que se viram confrontados com os novos aspectos económicos, sociais e políticos do emergente mundo moderno – que, por sua vez, excediam os limites das tradições historicistas do final do século XIX.
O Modernismo instaurou-se, então, nas práticas académicas, artísticas e corporativas sob a forma de artefactos produzidos industrialmente e em massa, despidos de ornamento – em que a forma segue a função – maximizando o seu carácter funcional.
“Then there has been a consistent urge to treat modernism as a style sheet, where it can be separated from its substance—like a Helvetica-styled ‘identity’ can perfectly essentialize a luxury beauty product, an airline, a mediocre sushi-bar franchise, and countless other examples.” [1]
Vinculado nos preceitos do Modernismo, o leque de oferta que nos é proporcionado pelo mercado capitalista dos dias de hoje corresponde a uma série de características transversais, destacando que se deve apresentar como apelativo ao consumidor e lucrativo às indústrias. Estes objectos têm que ser viáveis, funcionais e úteis. Mas estes requisitos são transmutáveis ao longo do tempo e as lógicas do mercado em que se inserem acompanham a mudança, num estado de constante adaptação – através de nova tecnologia, novas criações tornam-se viáveis. Modelos de negócio colapsam ou emergem da ruptura. [2]
A este ponto, surge a questão: por que é que todos os artefactos consumíveis têm que ser necessaria e estritamente funcionais? O objecto que não se esgota no cumprimento da sua tarefa é menos pertinente face àquele que cumpre uma função puramente utilitária na nossa vida quotidiana?
É precisamente esta a hipótese levantada pela dupla de designers Anthony Dunne e Fiona Raby com o projecto Placebo:
“Do real products need to be mass-produced and sold in a shop? Who decides what’s real and what’s not? And why are conceptual products less real than non-conceptual products? One can argue that even hallucinations are real in one person’s mind.” [3]
Dunne e Raby inserem-se numa vertente do design que se encontra ciente da ausência de questionamento crítico no seio da própria disciplina em relação ao progresso tecnológico e ao papel que os objectos que comummente possuímos exercem no nosso quotidiano. Em vez de se dedicarem a uma prática de design que decorre em torno da solução de problemas (por oposição a definição de problemas) a dupla parte de uma análise crítica e consciente da realidade para tecer cenários especulativos e possibilidade futuras. Na década de 1990 Anthony e Fiona acabaram por cunhar o termo design crítico como título desta corrente de pensamento.
A prática de Dunne e Raby tem raízes que penetram para além do design de produtos que subvertem a norma capitalista: a dupla encara a sua disciplina como um meio para colocar questões sobre design e através de design. Uma vez que o design crítico evoca o pensamento crítico, o questionamento da norma e a tentativa de entender as lógicas que a estabeleceram, o seu objectivo é o de utilizar a disciplina como via de incutir uma atitude céptica à sociedade em geral. [4]
“We purposefully create unnatural, awkward, exaggerated and not-that-friendly objects in order to point out that design is artificial and it always involves decisions. Therefore, I’d say that instead of designing objects that stimulate behaviour, we design objects that stimulate questions. Our objects don’t make sense and fit into the system, but instead they create another parallel world of alternative reality that makes you question the existing system and its values.” [5]
No início do século XX, a influência da máquina (industrial) Moderna forçou os designers a repensarem a sua prática e a adaptarem-na a um novo mercado. Fazem parte deste novo mercado as plataformas digitais, que ademais se tornaram a via pela pela qual o produto do design é grandemente disseminado. Ainda assim, o trabalho crítico encontrado neste meio pode ser ilustrado por projectos como o tumblr Critical Graphic Design. Tratam-se fundamentalmente de trabalhos que dirigem a sua crítica à prática da crítica em si, que em pouco contribuem para avanços no campo disciplinar ou para fomentar debate, deixando o trabalho crítico relevante encerrado num nicho reservado a académicos e intelectuais.
No contexto actual de crise do design enquanto actividade radicada nos preceitos do modernismo a crítica é vista como um luxo. [6] Para que seja possível subverter esta posição, é necessário utilizar as plataformas de comunicação actuais para engajar na discussão o público em geral, de modo a que o design crítico deixe de ser visto com um luxo – supérfluo e dispensável – e assuma a potencialidade de ser ele próprio um medium através do qual é possível (re)pensar questões políticas, económicas e sociais. Ainda que não consigam mudar a realidade, os designers podem mudar a percepção das pessoas perante a mesma [7] e, assim, conseguir que esta vertente especulativa conduza a que, no futuro, a disciplina de design se desenvolva, não em torno da realidade instituída, mas a par e passo com ela.
– Teresa Morais
Palavras-chave: Modernismo, design, crítica, meio digital, medium
Notas:
[1] (“Autoreply: Modernism”, Metahaven 2011)
[2] “Through new technology, new things become buildable. Business models collapse or emerge from disruption.” (Bruce Sterling 2013)
[3] (Dunne & Raby, citado por Puolakka & Sutela 2010)
[4] “Critical design is about critical thinking, about questioning things, and trying to understand what’s behind them. In essence, our objective is to use design as a means for applying skepticism to society at large.” (Dunne & Raby, citado por Puolakka & Sutela 2010)
[5] (Dunne & Raby, citado por Puolakka & Sutela 2010)
[6] “(…) criticality is a luxury in the current conditions under which graphic design is produced.” (Francisco Laranjo 2014)
[7] “Designers cannot always solve problems (…). Although we cannot change reality, we can change people’s perception of it.” (Dunne & Raby 2001)
Referências:
[1] Metahaven (2011). Autoreply: Modernism. In Print. Disponível em: https://www.printmag.com/article/autoreply-modernism/
[2] Sterling, B. (2013). Patently untrue: fleshy defibrillators and synchronised baseball are changing the future. In Wired. Disponível em: https://www.wired.co.uk/article/patently-untrue
[3] Puolakka, A. Sutela, J. (2010). Dreaming Objects. In OK Do (Ed.), Science Poems (pp. 22-27). Helsínquia e Paris
[4] Laranjo, F. (2014). Critical Graphic Design: Critical of What?. In Design Observer. Disponível em: https://designobserver.com/feature/critical-graphic-design-critical-of-what/38416/
[5] Dunne, A. Raby, F. (2001). Design Noir: The Secret Life of Electronic Objects. August Media: London, UK.