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O design ativista como vetor de mudança social
A necessidade por inovação, advinda da revolução tecnológica e da globalização, provocou uma ruptura no modo de produção, consumo e organização social. Quem consome necessita agora de produtos e serviços que atendam às necessidades, cada vez mais específicas e personalizadas, do século XXI. Em muitos casos, para atendê-las, transforma-se em maker e cria seu próprio ecossistema. Esta “inovação disruptiva”, termo trazido por Justin McGuirk [1], também afeta o lado de quem produz. Especificamente, no campo do design, há uma crescente necessidade pela reinvenção da disciplina, atribuindo novas funções além da criação de novos bens de consumo. A este novo cenário, tem-se a ascensão do design social, ou “design para os outros 90%”.
Através de uma mudança de paradigma, o designer assume um papel ativo na construção da realidade. O design social tornou-se um meio para expressar ideias, levantar questões provocativas e abordar as ansiedades sociais e individuais [2]. Entende-se que a ideia de romper com o passado para inaugurar uma nova era não é novidade para o design. Contudo, a diferença hoje é que o design transformou-se em uma área em que há possibilidade de desenvolvimento em distintos campos da sociedade. Aparentemente, não existe mais nada que não se encaixe no âmbito do design [1]. Além disso, através da configuração da sociedade em redes digitais, é possível armar forças-tarefa interconectadas que questionam estruturas políticas e sociais dominantes [3]. Problematiza-se, dessa forma, que contributos o design, enquanto disciplina cultural, pode oferecer frente aos desafios sociais contemporâneos?
Num período em que vimos alguns países terem sua democracia ameaçada, políticos de extrema-direita serem eleitos e uma tensão política agravar-se globalmente, muitos designers viram-se na obrigação de utilizar suas ferramentas como forma de expressão e ativismo. Como expoente, pode-se citar o projeto Me & EU, dos britânicos Nathan Smith e Sam T. Smith, que após o resultado da votação do Brexit, desenvolveram um projeto de cartões postais, com intuito de evocar um senso de união e de manter os europeus conectados. Em um contexto de gênero e tecnologia, temos o coletivo Feminist Internet, idealizado por estudantes e docentes da University of the Arts London, que pretende desenhar as bases de como pode ser uma internet feminista e, a partir disso, desenvolver iniciativas que contemplem estas diretrizes.
Um expoente brasileiro da prática do design social é o Design Ativista, idealizado pela Ideia Fixa e pela Mídia Ninja, que atualmente conta com uma rede de 4 mil designers atuantes. O projeto surgiu durante a eleição presidencial de 2018, que resultou na vitória do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. De acordo com os idealizadores, a intenção é usar o design como ferramenta de ativismo social, traduzindo para uma linguagem visual acessível diversas demandas políticas do país. Ademais, a troca de experiências e capacitação são incentivadas através de encontros, palestras e debates com estudantes e profissionais da área. A inciativa ainda contempla a mediação de um grupo fechado de designers no Facebook, que desenvolve e divulga posters digitais – de acordo com a agenda da semana – para serem compartilhados online, e a alimentação de um perfil na rede social Instagram com esses objetos de comunicação.
Imagens compartilhadas no perfil do Instagram @designativista
Essas iniciativas são apenas algumas amostras do potencial que o design, como ferramenta social, pode assumir. Acredita-se que o contributo do designer, como ator social, não deve ser somente ferramental, através de técnicas, como também intelectual e crítico. De modo mais amplo, entende-se que a disciplina não precisa ser ou uma construtora de negócios e produtos ou uma disseminadora de ideias. Muitas vezes, é preciso assumir múltiplas funções e compreender que é papel do designer contemporâneo, também, atender a demandas sociais urgentes.
[1] McGuirk, Justin. (2014). Dreaming of Year Zero. In Sacchetti, Vera e Jan Boelen. (eds.) Designing Everyday Life. Ljubljana: Park Books. Disponível em: http://www.justinmcguirk.com/dreaming-year-zero
[2] Walker, Rob. (2014). “A Golden Age for Design”. New York Time. Em anexo neste documento. Disponível em: http://www.tmagazine.blogs.nytimes.com/2014/09/22/design-golden-age/
[3] Grima, Joseph (2012). Adhocracy. In M+ Matters. Disponível em: http://www.mplusmatters.hk/asian-design/paper_topic3.php.




