[Design] Crítico para quem?

Artigo completo submetido a 13 de maio de 2019

Resumo:

Através de uma abordagem imaginativa, que se utiliza do design como um meio para conceber possíveis futuros, o Design Crítico e Especulativo surgiu como um movimento de vanguarda que desafiou os paradigmas modernos. Atualmente, no entanto, questiona-se o potencial da prática dominante em proporcionar alternativas úteis e realmente críticas às questões contemporâneas, para além dos centros desenvolvidos do mundo ocidental. Neste ensaio, serão apresentadas abordagens que tensionam essa suposta incoerência do campo, explorando posições que, ao tratar de questões sociais, políticas, de classe e de gênero, incluam outras diversidades e  cumpram legitimamente com os objetivos da disciplina e seus futuros imaginados. Entende-se que um Design Crítico só é possível fora de uma zona de conforto, definindo posições e organizando atividades conectadas com o chamado “mundo real”.

Palavras chave: design crítico; design especulativo; ativismo.


Artigo completo

[Design] Crítico para quem?

Abstract

Através de uma abordagem imaginativa, que utiliza-se do design como um meio para conceber possíveis futuros, o Design Crítico e Especulativo surgiu como um movimento de vanguarda que desafiou os paradigmas modernos. Atualmente, no entanto, questiona-se o potencial da prática dominante em proporcionar alternativas úteis e realmente críticas às questões contemporâneas, para além dos centros desenvolvidos do mundo ocidental. Neste ensaio, serão buscadas abordagens que tensionam essa suposta incoerência do campo, explorando posições que, ao tratar de questões sociais, políticas, de classe e de gênero, incluam outras diversidades e  cumpram legitimamente com os objetivos da disciplina e seus futuros imaginados. Entende-se que um Design Crítico só é possível fora de uma zona de conforto, definindo posições e organizando atividades conectadas ao chamado “mundo real”.

 

Referências iniciais para o paper

Dunne, Anthony; Fiona Raby (2013). Speculative Everything. Design Fiction and Social Dreaming. Cambridge: The MIT Press

Interakcije (2018). “Western Melancholy” / How to Imagine Different Futures in the ”Real World“? Disponível em: http://interakcije.net/en/2018/08/27/western-melancholy-how-to-imagine-different-futures-in-the-real-world/.

Laranjo, Francisco (2014). Critical Graphic Design: Critical of What? Disponível em: https://designobserver.com/feature/critical-graphic-design-critical-of-what/38416.

Laranjo, Francisco (2015). Critical Everything. Disponível em: http://modesofcriticism.org/critical-everything/.

Olveira, Pedro; Prado, Luiza (2014). Questioning the “critical” in Speculative & Critical Design. Disponível em:  https://medium.com/a-parede/questioning-the-critical-in-speculative-critical-design-5a355cac2ca4.

Speculative Now (2018). Speculative Design in the “Real World”. Disponível em: http://dvk.com.hr/interactions/interakcije2016/publicdiscussion.html.

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Por um design (auto) crítico e especulativo

A compreensão do design sob uma perspectiva crítica articula uma série de complexos desafios teóricos e práticos. Embora seja uma disciplina que por décadas foi trabalhada a partir de um viés majotariamente técnico [1], trata-se de um campo do conhecimento que, cada vez mais, abre-se para suas implicações sociais, políticas e culturais, orientando seu desenvolvimento nessas direções. Essa vertente crítica do design, em oposição a um design afirmativo, empenha-se em problematizar, propor alternativas e imaginar futuros mais harmônicos através do design. É o pensamento crítico traduzido em materialidade [2].

Esses novos vetores de expansão, naturalmente, não surgiram no vácuo. Trata-se de um movimento que vem ganhando força desde a década de 90 e que tem como principais expoentes, Anthony Dunne e Fiona Raby, da Royal College of Arts, em Londres. A dupla inglesa cunhou o termo Speculative Critical Design (SCD), conceito que atualmente centraliza as discussões de acadêmicos e profissionais da área. No panorama do SCD, entende-se o design como meio, não como processo. O objetivo é provocar nossa compreensão sobre como será o futuro, explorando livremente nossa imaginação e de certa forma nos ajudando a efetivamente a moldar esse futuro.

Uma parte considerável dos projetos desenvolvidos no terreno do SCD trabalham articulando visões distópicas de futuros – sim, no plural. Para Stuart Candy, futurologista importante no trabalho de Dunne & Raby, não há futuro, mas futuros possíveis, futuros prováveis e futuros preferíveis. E é justamente sobre este espaço existente entre a realidade do hoje e as possibilidades do amanhã é que se pode especular através do design, construindo cenários em uma espécie de ficção social conceitual e pedagógica.

Há, todavia, um grande porém acerca das formulações dessa escola crítica especulativa. Responsáveis pelo projeto A Parede, a dupla de designers brasileiros Luiza Prado e Pedro Oliveira levantaram recentemente questionamentos acerca dos privilégios presentes no ambiente do SCD, algo que inevitavelmente acaba por se refletir em muitos projetos. Por vezes, o futuro distópico pensado pelo designer médio (homem, europeu e branco) é na verdade a crua realidade de alguém em outra parte do mundo. Um caso notável envolve o projeto Repubic of Salivation, em que o duo Burton Nitta esboça um futuro definido pelo racionamento de alimentos e a fome – algo que, como é sabido, não aflige milhares de pessoas no mundo atualmente. Algumas distopias soam familiares demais…

Desconsiderar as configurações históricas que nos trouxeram até aqui, seja por pura ignorância ou por conforto, põe verdadeiramente em cheque o caráter crítico do design. Vislumbrar mudança social é louvável, não há dúvidas. Mas será mesmo possível fazê-lo sem pautar essa desejada transformação com perspectivas feministas, antirracistas e anticolonialistas, por exemplo? Eu acredito que não.

O potencial criativo do design crítico especulativo é colossal. Já a forma como esse conceito será empregado nas próximas décadas é que deve definir sua importância prática na construção de um futuro menos distópico. Em uma aplicação diga-se, preferível, o SCD faz uma autocrítica, sai de sua zona de conforto desenvolvida e abre-se totalmente para o implacável domínio dos não privilegiados, situando-se não somente como um campo de conhecimento, mas como importante linha de força para a transformação do mundo.

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Referências:
[1] Mitrović, Ivica (2015). Introduction to Speculative Design Practice. Disponível em: http://speculative.hr/en/introduction-to-speculative-design-practice/

[2] Dunne, Anthony and Fiona Raby (2013). Speculative Everything. Design, Fiction and Social Dreaming. Cambridge: The MIT Press.



Imagem destacada: Dunne & Raby (2009). DESIGNS FOR AN OVERPOPULATED PLANET: FORAGERS. Disponível em: http://www.dunneandraby.co.uk/content/projects/510/0.

O design ativista como vetor de mudança social

A necessidade por inovação, advinda da revolução tecnológica e da globalização, provocou uma ruptura no modo de produção, consumo e organização social. Quem consome necessita agora de produtos e serviços que atendam às necessidades, cada vez mais específicas e personalizadas, do século XXI. Em muitos casos, para atendê-las, transforma-se em maker e cria seu próprio ecossistema. Esta “inovação disruptiva”, termo trazido por Justin McGuirk [1], também afeta o lado de quem produz. Especificamente, no campo do design, há uma crescente necessidade pela reinvenção da disciplina, atribuindo novas funções além da criação de novos bens de consumo. A este novo cenário, tem-se a ascensão do design social, ou “design para os outros 90%”.

Através de uma mudança de paradigma, o designer assume um papel ativo na construção da realidade. O design social tornou-se um meio para expressar ideias, levantar questões provocativas e abordar as ansiedades sociais e individuais [2]. Entende-se que a ideia de romper com o passado para inaugurar uma nova era não é novidade para o design. Contudo, a diferença hoje é que o design transformou-se em uma área em que há possibilidade de desenvolvimento em distintos campos da sociedade. Aparentemente, não existe mais nada que não se encaixe no âmbito do design [1]. Além disso, através da configuração da sociedade em redes digitais, é possível armar forças-tarefa interconectadas que questionam estruturas políticas e sociais dominantes [3]. Problematiza-se, dessa forma, que contributos o design, enquanto disciplina cultural, pode oferecer frente aos desafios sociais contemporâneos?

Num período em que vimos alguns países terem sua democracia ameaçada, políticos de extrema-direita serem eleitos e uma tensão política agravar-se globalmente, muitos designers viram-se na obrigação de utilizar suas ferramentas como forma de expressão e ativismo. Como expoente, pode-se citar o projeto Me & EU, dos britânicos Nathan Smith e Sam T. Smith, que após o resultado da votação do Brexit, desenvolveram um projeto de cartões postais, com intuito de evocar um senso de união e de manter os europeus conectados. Em um contexto de gênero e tecnologia, temos o coletivo Feminist Internet, idealizado por estudantes e docentes da University of the Arts London, que pretende desenhar as bases de como pode ser uma internet feminista e, a partir disso, desenvolver iniciativas que contemplem estas diretrizes.

Um expoente brasileiro da prática do design social é o Design Ativista, idealizado pela Ideia Fixa e pela Mídia Ninja, que atualmente conta com uma rede de 4 mil designers atuantes. O projeto surgiu durante a eleição presidencial de 2018, que resultou na vitória do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. De acordo com os idealizadores, a intenção é usar o design como ferramenta de ativismo social, traduzindo para uma linguagem visual acessível diversas demandas políticas do país. Ademais, a troca de experiências e capacitação são incentivadas através de encontros, palestras e debates com estudantes e profissionais da área. A inciativa ainda contempla a mediação de um grupo fechado de designers no Facebook, que desenvolve e divulga posters digitais – de acordo com a agenda da semana – para serem compartilhados online, e a alimentação de um perfil na rede social Instagram com esses objetos de comunicação. 

Imagens compartilhadas no perfil do Instagram @designativista

Essas iniciativas são apenas algumas amostras do potencial que o design, como ferramenta social, pode assumir. Acredita-se que o contributo do designer, como ator social, não deve ser somente ferramental, através de técnicas, como também intelectual e crítico. De modo mais amplo, entende-se que a disciplina não precisa ser ou uma construtora de negócios e produtos ou uma disseminadora de ideias. Muitas vezes, é preciso assumir múltiplas funções e compreender que é papel do designer contemporâneo, também, atender a demandas sociais urgentes.

[1] McGuirk, Justin. (2014). Dreaming of Year Zero. In Sacchetti, Vera e Jan Boelen. (eds.) Designing Everyday Life. Ljubljana: Park Books. Disponível em: http://www.justinmcguirk.com/dreaming-year-zero

[2] Walker, Rob. (2014). “A Golden Age for Design”. New York Time. Em anexo neste documento. Disponível em: http://www.tmagazine.blogs.nytimes.com/2014/09/22/design-golden-age/

[3] Grima, Joseph (2012). Adhocracy. In M+ Matters. Disponível em: http://www.mplusmatters.hk/asian-design/paper_topic3.php.

Vigilância e resistência

A criação de um amplo sistema de vigilância formado pela cooperação entre as gigantes de big data e o Estado não pertence mais ao terreno da ficção científica. Passamos do ponto de especular se isso vai acontecer e chegamos ao momento de tentar entender quando um sistema com esse fim irá se estabelecer abertamente de vez.

Refletir sobre a inevitabilidade desse cenário, como sociedade civil, pode nos ajudar a estruturar possíveis formas de resistência (se é que elas existem). Até porque o momento de instabilidade democrática vivido em alguns países do ocidente (Estados Unidos, Brasil, França, UK…) mostra que o perigo autoritário pode não se limitar à distante China.

Comentário acerca do texto “Todos somos dados” do Semanário #2415 da Revista Expresso.

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