O poder político dos memes : De unidades de cultura e comportamento aos novos cartazes políticos

Resumo:

Atualmente o mundo é mediatizado e mediado através das redes digitais e sociais. Estas redes estão cheias de estímulos, informação e memes. O objetivo deste artigo é analisar o relacionamento entre a economia de atenção e o uso dos memes enquanto objeto de comunicação de mensagens políticas e objeto central na ligação entre o individual e o político, condensadas numa imagem e facilmente disseminadas nas redes sociais.

Palavras-chave: economia de atenção, memes, participação política, design gráfico político

Artigo completo

 

Meme – o novo cartaz político na era das redes sociais

Abstract

Que a Internet alterou a forma como recebemos informação não é, de todo, um dado novo. No entanto, não foi apenas a forma, mas também a quantidade que foi alterada. As redes sociais não são apenas um espaço virtual onde podemos estar em contacto com outras pessoas, mas também o local onde, especialmente os media e as marcas, lutam pela nossa atenção dispersada em inúmeros estímulos e excesso de informação.

Devido a esse excesso de informação, aqueles que querem comunicar e fazer passar algum tipo de mensagem tiveram de criar estratégias para conseguir chamar, e prender, a atenção.

Posto isto, o objetivo deste artigo é analisar o relacionamento entre a economia de atenção e o uso dos memes enquanto objeto de comunicação de mensagens políticas, condensadas numa imagem e facilmente disseminadas nas redes socias.

O futuro é mainstream

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“The Growroom”  – Space 10

Especular sobre futuros, mais ou menos possíveis, tem sido uma tarefa normalmente associada a filmes e séries de ficção científica. No entanto, não o fazem da forma mais credível, sendo geralmente conduzidos mais pela imaginação do que propriamente por implicações de ações ou acontecimentos atuais. Mesmo quando tal é o caso, este tende a ser fortemente exagerado, e a crítica que se propunham a fazer fica perdida em todo um espetáculo hollywoodesco criado à volta.
Ainda assim, Black Mirror talvez seja o melhor exemplo de uma série que consegue deixar a sua crítica bem clara. Vários episódios desta série focam-se nas implicações e consequências que a rápida evolução da tecnologia poderá ter num futuro não assim tão distante, criando cenários credíveis (como o caso do episódio Nosedive(2016) em que as pessoas são avaliadas por pontos através de redes sociais, algo que já acontece de forma mais ou menos semelhante na China) que levam a debates entre os seus espectadores.

Também o design se tem interessado pela conceção de possíveis futuros. Nas últimas décadas, têm surgido várias práticas dentro do design que procuram ter um papel crítico, “consciencializar o público sobre questões importantes e possibilitar ações políticas”[1](Resnick, 2011).  Essa crítica não se prende necessariamente com a forma como as coisas são, mas também com a forma de como as coisas poderão ser. Ou seja, não criticam apenas problemáticas do presente, mas também problemáticas do futuro. Jonathan Resnick afirma no seu texto Materialization of the speculative in foresight and design, que “que a materialização do especulativo oferece novas possibilidades para investigar, explorar, compreender e projetar possíveis futuros”.

Mas o que se crítica quando se especula um futuro?

O mundo atual está longe de ser perfeito e existem diversas problemáticas para as quais devemos chamar à atenção e abrir espaço para debate. Desde questões raciais, sociais, estruturas políticas e económicas, aquecimento global, escassez de recursos, entre outros. Em Futuristic Gizmos, Conservative Ideals: On (Speculative) Anachronistic Design, Luiza Prado e Pedro Oliveira enumeram alguns problemas com a atual prática do design crítico especulativo, dando enfase ao facto, de que embora o design especulativo ambicione refletir sobre as implicações da tecnologia nas mudanças sociais, este mantém uma posição superficial, não aprofundando temas como moral, cultura e religião, e que devem “aproximar-se da pesquisa na crítica da ciência, teorias feministas e queer, estudos sonoros e outros estudos que ousam questionar as hierarquias de privilégio que constituem o mundo tal como o conhecemos hoje”[2] de forma a combater essa tendência.

Embora seja uma crítica completamente válida, e que os temas apresentados por Prado e Oliveira sejam realmente urgentes de debater, existem muitos outros que também são. Criticar a escolha da problemática não parece ser realmente benéfico quando o prepósito é debater e levar a discussão para a esfera pública. Mais importante será perceber como poderá o design especulativo levar este debate para fora da comunidade dos designers, da academia e dos museus, e faze-lo chegar ao público geral. Pois, tal como Dunne & Raby escrevem no seu manifesto a/b, é isso que o design especulativo se propõe a fazer, um design para o cidadão e não para o consumidor.

Um projeto de design que ambiciona ter na sua narrativa uma abordem crítica, conceptual e até persuasiva, continua a precisar de uma forma material para ser introduzido no mundo.
Talvez os projetos de design especulativo que serão mais eficazes em criar um debate serão aqueles se materializam em objetos com “utilidade cotidiana e interação continua”[3], aqueles que chegam ao mainstream e permitem que “as ideias, os valores e o uso propostos tornam-se abertos à deliberação e interpretação, afirmação ou crítica adicional”[4] (Mazé e Redström, 2009).

O estúdio Space 10 não se considera, de forma directa pelo menos, um estúdio de design especulativo, mas sim um estúdio – apoiado pelo IKEA – que “pesquisa e projeta soluções inovadoras para algumas das principais mudanças sociais que deverão afetar as pessoas e o nosso planeta nos próximos anos.”[5] Alguns dos projetos mais interessantes são o protótipo da Fab City, um projeto que visa a repensar os sistemas de produção dentro de uma cidade; The Growroom, uma horta open-source, em forma de esfera que tem o objetivo de criar conversas em torno do aumento da procura de comida; e o Building Blocks, outro projeto open-source que tem como objetivo criar habitações fáceis de construir e baratas para todos.

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Building Block – Space 10

Em suma, um design especulativo que ambiciona criar debates sobre as mudanças do futuro só será bem-sucedido nessa missão quando conseguir provocar esses debates para além da esfera dos designers, «isso precisa ser feito sem se temer um diálogo com a chamada “cultura de massa” ou “mainstream” tantas vezes negligenciada e evitada através do uso de uma linguagem propositadamente críptica».[6]

 

Palavras-chave: design especulativo, futuro, debate, mainstream

Notas

[1] “raising public awareness of important issues and enabling political action”

[2] “to get closer to research in the critique of science, feminist and queer theories, sound studies and other scholarship that dare to question the hierarchies of privilege that constitute the world as we know it today”

[3] «everyday utility, and ongoing interaction»

[4] «proposed ideas, values and use become open to deliberation and interpretation, affirmation or further critique.»

[5] « research and design innovative solutions to some of the major societal changes expected to affect people and our planet in the years to come.»

[6] «This needs to be done without fearing a dialogue with the so-called “mass culture” or “mainstream” so often neglected and avoided through the use of purposefully cryptic language.»

 

Bibliografia

Resnick, Jonathan. (2011) Materialization of the speculative in foresight and design. Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/54849539.pdf

Prado, L. Oliveira, P. (2015). Futuristic Gizmos, Conservative Ideals: On (Speculative) Anachronistic Design. Em Modes of Criticism.

Redström, Johan. Mazé, Ramia. Difficult forms: Critical practices of design and research. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/236669842_Difficult_Forms_Critical_practices_of_design_and_research

Manifesto c/d – Change

[plausível]

change our work to fit patterns

[padrão, estabilidade, prioridade à produção]

O trabalho do designer é constantemente condicionado, desde o seu começo, por padrões que dão preferência às lógicas de produção e consumo, assim como por metodologias e linguagens vigentes.

x

[provável]

change patterns to fit our work

[subversão, desconstrução, prioridade à crítica]

Prioriza a crítica em torno de uma problemática, essas mesmas lógicas devem ser subvertidas para atingir uma maior eficácia no trabalho crítico desenvolvido pelo designer.

 

– Katherine Lahude e Rita Barroso

Ventos de mudança

Com a Revolução Industrial, os processos de produção foram automatizados. A produção dos objetos a serem consumidos por massas passou a ser feita por máquinas que asseguravam um modelo padrão – um standard – produzindo várias cópias perfeitas do mesmo objeto tornando-se a produção também massificada.

De uma forma geral, a máquina veio ocupar o papel do artesão. Numa sociedade extremamente tecnológica com uma grande cultura de consumo, onde os processos de produção visam a produzir o maior número de objetos com a intensão de os vender o mais barato possível, motivando uma necessidade de consumo, começam a surgir várias questões sociais e éticas sobre os impactos desta lógica de produção.

Neste sentido, Joseph Grima explora no seu artigo Adhocracy (2012), uma visão do artesão, ou criador, como um agente político face a estas lógicas de consumo e produção. Contudo, esta visão não é recente. Nas últimas décadas os designers têm-se questionado sobre, não só o seu papel, mas como a sua atividade pode estar ao serviço da sociedade. Os designers têm olhado para a sua prática não apenas como a criação de objetos, mas como sendo crítica perante questões sociais, económicas e políticas.

As rápidas evoluções tecnológicas têm alterado bastante a forma como qualquer profissional trabalha na sua área, sendo atualmente praticamente tudo digital e maquinizado. No entanto, os designers tendem a ver a máquina apenas como uma ferramenta, aliando um sentido crítico e um pensamento teórico que lhes permite através da sua prática colocar questões fulcrais como “a definição de trabalho, o valor da propriedade intelectual, a ética do consumo, e, com certeza, sobre as possibilidades inerentes aos novos processos de produção.”[1]

Este sentido crítico crescente na prática do design apenas reflete o sentido crítico que se tem amplificado em toda a sociedade face às estruturas de poder social e económico. Estas estruturas que se gerem através de estratégias burocráticas, que por sua vez são “indiferentes ao destino do indivíduo”[2].  Grima introduz o termo adhocracia, primeiramente definido pelo escritor futurista Alvin Toffler, como um sistema de oposição à burocracia. A adhocracia é um sistema organizacional flexível e intuitivo que procura resolver problemas e chegar a resultados. No quadro a baixo compreende-se a diferença burocracia e adhocracia.

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Quadro retirado do artigo “Adhocracy for an agile age” de Julian Birkinshaw and Jonas Ridderstråle (2015)

A burocracia privilegia a autoridade, a hierarquia e as regras, algo que se demonstra ser prejudicial quando, perante esta rápida evolução tecnológica e social, as instituições deveriam adaptar-se de modo a sobreviver. Em contrapartida, a adhocracia privilegia o tempo e a oportunidade, o imprevisível, debruçando-se sobre uma temática ou um problema e procurando formas rápidas de o resolver através da experimentação e de tentativa e erro.

Aqui encontramos parecenças entre a adhocracia e o método do processo do Design, onde o designer procura responder a um problema ao defini-lo, apresentando alternativas e validando-as, ou experimentando-as.

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Método do processo do Design, por Bernard E. Bürdek (2010)

Não parece então despropositado que se olhe para a metodologia do design e se a tente incorporar na resolução de problemáticas de uma ordem mais social. Como menciona Justin McGuirck no seu artigo “Dreaming of year zero”(2014), “o design transformou-se numa meta-disciplina que vê aberturas em todos os lugares, vastos campos de influência a seus pés.”[3]. Desta forma parece que tudo pode ser reduzido a um problema de design, quer sejam as estruturas dos governos, das instituições, problemas sociais etc.

Existe cada vez mais um espírito crítico, uma vontade de mudança e de romper com a atual situação, criar uma “anatomia social inteiramente nova”[4]. No entanto, e enquanto que a adhocracia “é uma tentativa de tecer um fio crítico através dessa multidão rizomática de ideias, objetos e fenómenos; procura interrogá-los, problematizá-los e interpretá-los”[5], a mudança não deve surgir simplesmente pela mudança. Como McGuirck alerta no seu artigo, essa vontade pela mudança pode ir demasiado ao encontro dos interesses de empresas tecnológicas que por um lado têm bastante interesse no desaparecimento do governos e das suas regulamentações, e, por outro, têm todo o interesse em trocar as instituições por aplicações tecnológicas que nos libertam dos governos mas nos tornam dependentes dos seus produtos.

 

Palavras-chave: mudança, tecnologia, burocracia, adhocracia, designer

 

Notas

[1] “the definition of labour, the value of intellectual property, the ethics of consumption, and, for sure, the possibilities inherent in new productive processes” (Grima, 2012)

[2] “indifferent to the fate of the individual” (Grima, 2012)

[3] “design has morphed into a meta-discipline that sees openings everywhere, vast fields of influence at its feet.” (McGuirck, 2014)

[4] “an entirely new social anatomy” (Grima, 2012)

[5] “Adhocracy is an attempt to weave a critical thread through this rhizomatic multitude of ideas, objects and phenomena; it seeks to interrogate them, problematise them and interpret them.” (Grima, 2012)

 

Bibliografia

Grima, Joseph (2012). Adhocracy. In M+ Matters www.mplusmatters.hk/asiandesign/
paper_topic3.php.

McGuirk, Justin. (2014). Dreaming of Year Zero. In Sacchetti, Vera e Jan Boelen.
(eds.) Designing Everyday Life. Ljubljana: Park Books. Disponível em: //justinmcguirk.
com/dreaming-year-zero

Estado de vigilância

Numa era em que é tecnicamente possível criar e implementar um sistema de vigilância na sociedade será a democracia suficiente para não o por em prática ou será a República Popular da China a primeira a chegar a um futuro inevitável?

Numa entrevista a Tim O’Brien (director geral e programas de Inteligencia Artifical da Microsoft) o Jornal Económico questionou que regras deveriam ser criadas para garantir a segurança dos cidadãos num mundo em que é tecnicamente possível o Governo seguir todos os passos de um invidio. O’Brien responde que acredita que a privacidade é um direito humano elementar, mas que a utilização das tecnologias varia de fronteira para fronteira, dependendo da Constituição e do que é legal em cada país.

À partida países democráticos estariam livres desse sistema de vigilância. Mas, se pensarmos em países como os EUA em que as empresas de big data já se começam a fundir com agências de segurança em negócios bastante favoráveis para os dois lados questionamos se esse não é começo de um sistema de vigilância à semelhança do ficcional Big Brother.

Rita Franco Barroso

Comentário ao artigo “Todos somos dados”, da autoria de David Samuel no Seminário Expresso.
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