
Especular sobre futuros, mais ou menos possíveis, tem sido uma tarefa normalmente associada a filmes e séries de ficção científica. No entanto, não o fazem da forma mais credível, sendo geralmente conduzidos mais pela imaginação do que propriamente por implicações de ações ou acontecimentos atuais. Mesmo quando tal é o caso, este tende a ser fortemente exagerado, e a crítica que se propunham a fazer fica perdida em todo um espetáculo hollywoodesco criado à volta.
Ainda assim, Black Mirror talvez seja o melhor exemplo de uma série que consegue deixar a sua crítica bem clara. Vários episódios desta série focam-se nas implicações e consequências que a rápida evolução da tecnologia poderá ter num futuro não assim tão distante, criando cenários credíveis (como o caso do episódio Nosedive(2016) em que as pessoas são avaliadas por pontos através de redes sociais, algo que já acontece de forma mais ou menos semelhante na China) que levam a debates entre os seus espectadores.
Também o design se tem interessado pela conceção de possíveis futuros. Nas últimas décadas, têm surgido várias práticas dentro do design que procuram ter um papel crítico, “consciencializar o público sobre questões importantes e possibilitar ações políticas”[1](Resnick, 2011). Essa crítica não se prende necessariamente com a forma como as coisas são, mas também com a forma de como as coisas poderão ser. Ou seja, não criticam apenas problemáticas do presente, mas também problemáticas do futuro. Jonathan Resnick afirma no seu texto Materialization of the speculative in foresight and design, que “que a materialização do especulativo oferece novas possibilidades para investigar, explorar, compreender e projetar possíveis futuros”.
Mas o que se crítica quando se especula um futuro?
O mundo atual está longe de ser perfeito e existem diversas problemáticas para as quais devemos chamar à atenção e abrir espaço para debate. Desde questões raciais, sociais, estruturas políticas e económicas, aquecimento global, escassez de recursos, entre outros. Em Futuristic Gizmos, Conservative Ideals: On (Speculative) Anachronistic Design, Luiza Prado e Pedro Oliveira enumeram alguns problemas com a atual prática do design crítico especulativo, dando enfase ao facto, de que embora o design especulativo ambicione refletir sobre as implicações da tecnologia nas mudanças sociais, este mantém uma posição superficial, não aprofundando temas como moral, cultura e religião, e que devem “aproximar-se da pesquisa na crítica da ciência, teorias feministas e queer, estudos sonoros e outros estudos que ousam questionar as hierarquias de privilégio que constituem o mundo tal como o conhecemos hoje”[2] de forma a combater essa tendência.
Embora seja uma crítica completamente válida, e que os temas apresentados por Prado e Oliveira sejam realmente urgentes de debater, existem muitos outros que também são. Criticar a escolha da problemática não parece ser realmente benéfico quando o prepósito é debater e levar a discussão para a esfera pública. Mais importante será perceber como poderá o design especulativo levar este debate para fora da comunidade dos designers, da academia e dos museus, e faze-lo chegar ao público geral. Pois, tal como Dunne & Raby escrevem no seu manifesto a/b, é isso que o design especulativo se propõe a fazer, um design para o cidadão e não para o consumidor.
Um projeto de design que ambiciona ter na sua narrativa uma abordem crítica, conceptual e até persuasiva, continua a precisar de uma forma material para ser introduzido no mundo.
Talvez os projetos de design especulativo que serão mais eficazes em criar um debate serão aqueles se materializam em objetos com “utilidade cotidiana e interação continua”[3], aqueles que chegam ao mainstream e permitem que “as ideias, os valores e o uso propostos tornam-se abertos à deliberação e interpretação, afirmação ou crítica adicional”[4] (Mazé e Redström, 2009).
O estúdio Space 10 não se considera, de forma directa pelo menos, um estúdio de design especulativo, mas sim um estúdio – apoiado pelo IKEA – que “pesquisa e projeta soluções inovadoras para algumas das principais mudanças sociais que deverão afetar as pessoas e o nosso planeta nos próximos anos.”[5] Alguns dos projetos mais interessantes são o protótipo da Fab City, um projeto que visa a repensar os sistemas de produção dentro de uma cidade; The Growroom, uma horta open-source, em forma de esfera que tem o objetivo de criar conversas em torno do aumento da procura de comida; e o Building Blocks, outro projeto open-source que tem como objetivo criar habitações fáceis de construir e baratas para todos.

Em suma, um design especulativo que ambiciona criar debates sobre as mudanças do futuro só será bem-sucedido nessa missão quando conseguir provocar esses debates para além da esfera dos designers, «isso precisa ser feito sem se temer um diálogo com a chamada “cultura de massa” ou “mainstream” tantas vezes negligenciada e evitada através do uso de uma linguagem propositadamente críptica».[6]
Palavras-chave: design especulativo, futuro, debate, mainstream
Notas
[1] “raising public awareness of important issues and enabling political action”
[2] “to get closer to research in the critique of science, feminist and queer theories, sound studies and other scholarship that dare to question the hierarchies of privilege that constitute the world as we know it today”
[3] «everyday utility, and ongoing interaction»
[4] «proposed ideas, values and use become open to deliberation and interpretation, affirmation or further critique.»
[5] « research and design innovative solutions to some of the major societal changes expected to affect people and our planet in the years to come.»
[6] «This needs to be done without fearing a dialogue with the so-called “mass culture” or “mainstream” so often neglected and avoided through the use of purposefully cryptic language.»
Bibliografia
Resnick, Jonathan. (2011) Materialization of the speculative in foresight and design. Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/54849539.pdf
Prado, L. Oliveira, P. (2015). Futuristic Gizmos, Conservative Ideals: On (Speculative) Anachronistic Design. Em Modes of Criticism.
Redström, Johan. Mazé, Ramia. Difficult forms: Critical practices of design and research. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/236669842_Difficult_Forms_Critical_practices_of_design_and_research