Ausências e Trajetórias

“Durante o café da manhã, as ausências são frequentes, e a taça virada sobre a mesa é uma consequência bem conhecida. A ausência dura alguns segundos, começa e termina inesperadamente (…) Como o retorno é tão imediato como a partida, a fala e os gestos parados são retomados onde foram interrompidos, o tempo consciente é automaticamente soldado em uma continuidade sem cortes aparentes, o tempo ausente nunca existiu.[1]”

Paul Virilio. The Aesthetics of Disappearance

Entre cada saída de um lugar e a entrada para outro, o objeto se torna uma mera trajetória; um vetor de movimento que é transportado do ponto A para o ponto B. O que acontece nesse processo, longe de ser um deslocamento linear, torna-se uma oscilação imprevisível sobre a qual intervêm inúmeras variáveis.

Entre cada entrada para um lugar e a saída dele, a ausência aparece. Diante do caráter estático do que nos rodeia, o movimento é transferido para o interior do objeto. É agora que tentamos soldar o tempo consciente retomando a palavra e o gesto onde eles foram parados. Assim começa um processo de adaptação interna através da análise e decodificação do novo ambiente.

Entrar e sair é um estado de movimento constante; uma transição contínua.[2] Uma sucessão de ausências e trajetórias que definem nossa identidade, constituem uma grande parte de nosso processo de aprendizagem e reafirmam nossa existência dentro de um estado de mudança permanente.

Nas palavras de Virilio, o tempo consciente é conformado a uma continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu.

A ideia de entrar e sair não deixa de ser uma alegoria recorrente. O texto de Garcés poderia ser interpretado como uma nova adaptação pós-moderna [3] do mito da caverna [4].

No nosso caso, não falamos de uma única caverna, se não de muitas. Se tentarmos aplicar este princípio em menor escala e recorrentemente, descobrimos que não existe uma única realidade, mas uma infinidade de pequenos fragmentos dela, nos quais flutuamos constantemente. Nas palavras de Camus; “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.”[5] Nesse processo de negação ou rebelião, surge o movimento; e com ele a libertação.

O que motiva cada uma das nossas ausências e trajetórias? É a incerteza, a rotina, o desconforto, a ignorância, o tédio …?
O que acontece quando estes não são apoiados por nenhum propósito aparente?
Onde, então, reside o propósito desse movimento?

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Referências bibliográficas:

[1] VIRILIO, Paul. (1988) Estética de la desaparición. Barcelona. Editorial Anagrama. 1988. ISBN: 84-334-0092-7

[2] GARCES, Mariana. Tomar la palabra. Entrar y salir.

[3] LYOTARD, Jean-François (1991) La condición posmoderna. Argentina: Cátedra

[4] Platón, República Vll; 514a-517c y 518b-d. (R. Verneaux, Textos de los grandes filósofos. Edad antigua, Herder, Barcelona 1982, p. 26-30).

[5] CAMUS; Albert. (2013) El hombre rebelde. Madrid. Alianza editorial. ISBN: 9788420676562

Um pensamento em “Ausências e Trajetórias”

  1. O abstract não aponta claramente para uma questão que desencadeie uma reflexão. Há várias pistas mas terá de aproximar uma delas de uma proposição que possa provocar um texto pertinente no âmbito de ECD.

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