(re)CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA um exercício para (re)lembrar

Artigo completo submetido a [08] de [junho] de [2019] 

Resumo:

A memória histórica, crítica, afetiva, seletiva, coletiva… O que é a memória? Qual é a função da memória pessoal e coletiva, na nossa vida, família, religião, sociedade e história? Quais são as consequências, como pessoa, grupo ou nação, de desprezarmos ou chegarmos ao extremo de perder a memória?

Palavras chave: Memória, Identidade, Resiliência, Experiência.

Introdução

A memória viva, é a possibilidade para que uma pessoa, grupo ou nação tenha identidade. Identidade, ainda sendo uma realidade aberta para o futuro e sempre em construção no presente, é a consciência reflexiva do passado, da experiência vivida, ou seja, do que vivemos, do que nos faz ser o que somos.

É também uma fonte primária de resiliência; em poucas palavras, resiliência é a capacidade de lidar-se com os problemas, adaptar-se às mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão em situações adversas. Quem possui resiliência tem a capacidade de procurar soluções estratégicas ou criativas para enfrentar e superar problemas e desafios.

A memória viva, quando bem cultivada suscita e provoca o desenvolvimento da sabedoria para o bem viver, e a sabedoria resulta do conhecimento acumulado que vai sendo refletido, debatido, discernido, aperfeiçoado e aplicado nas mais diversas situações do passado, do presente e do futuro.

Vivemos num tempo tão acelerado que as coisas que teríamos percebido antes passam agora sem mais delongas. Perdemos o tacto para falar sobre coisas sensíveis e até a capacidade de admiração diante das tragédias. Nada é novo para nós, tudo já foi visto de outra ou desde todas as perspetivas possíveis, alguém já fez (e melhor), alguém já teve essa ou aquela ideia … será então que vivemos no pior momento da história para que com o nosso presente, criar algo no futuro?

 

  1. Qual é o papel do design para a construção de um mundo sem memória?

Aprender é sempre um deslocamento que nos tira da nossa zona de conforto, é a possibilidade de se mudar, sem nunca sair da realidade. Romper com a ideia de que quem fica estático morre inerte: “Entrar e sair também está aprendendo a passar pelas línguas sem neutralizar suas diferenças e sem padronizar seu funcionamento” (GARCÉS, 2018).

Hoje em dia tudo é produzido a partir do trabalho pessoal, cada um ao seu lado, em vez de estar a aprender juntos; sustentar uma vida comprometida é aprender a não se perder: “A chave para tudo são os retornos. Fugir é fácil. O desafio é como voltar sem desistir” (GARCÉS,2018).

A importância da persistência dos arquivos (entendida também como o desenvolvimento de imagens e conteúdo audiovisual para o design) e com isso, a persistência da memória, tem levado aos designers  na procura de soluções por criar soluções com as quais as pessoas possam reconstruir a partir dos seus interesses e necessidades, ativá-los e dar vida as memórias definidas desde 3 conceitos: durabilidade, acessibilidade e adaptabilidade; ao mesmo tempo reconhecendo que qualquer pessoa tem também a possibilidade de contribuir com os conteúdos e então garantir a vida da memória para o futuro. É assim como o proposto pelo projeto HyperReadings (Dockray-Forster, 2018) que implementa “listas de leitura” ou um conjunto estruturado de indicadores, em uma ou mais bibliotecas, ativando os arquivos. Os arquivos e bibliotecas digitais estão sujeitos a vários riscos potenciais: acidentes técnicos, como falhas de disco, exclusões acidentais, dados perdidos e migrações de dados imperfeitas, bem como acidentes político-económicos.

Estamos a viver na era da distribuição, em que tudo objeto antes de ele nascer, já é pensado como algo efémero que se não garante a sua eficácia e a importância que supõe a persistência do arquivo (imagem, produto, projeto…) não garante sua acessibilidade e entendimento em geral; uma realidade comum em bibliotecas digitais, onde o gerenciamento de acesso é onipresente. As instituições oficiais policiam o acesso a seus arquivos de forma vigilante para o propósito ostensivo de preservação, mas acabam por criar uma relação rarefeita entre os arquivos e seus públicos. A persistência enfatiza que o arquivo não é um objeto morto de pesquisa, mas um conjunto de ferramentas possíveis esperando para ser ativado em novas circunstâncias.

O trabalho do designer como articulador de mensagens e até manipulador das memórias, significados e usos condicionados das suas propostas, é ter plena consciência e responsabilidade disto, é saber que lembrar não é reviver experiências, já que a memória que construímos não é a cópia do que foi percecionado. A captação das imagens que formam a nossa memória por si só não corresponde totalmente ao que se passou, quer seja em termos de abrangência total dos pormenores, quer seja pela subjetividade que nelas projetamos por serem resultado de uma seleção baseada na memória que temos de experiências passadas. Por isso, torna-se obvio que várias testemunhas do mesmo acontecimento possam ter memórias diferentes, já que relatam diferentes pontos de vista, ou seja, diferentes seleções da totalidade de informação que havia para ser testemunhada: “O artista deve ter algo para dizer. A sua função não é apenas aperfeiçoar a forma, mas adaptá-la ao seu conteúdo” (KANDINSKY, 2010).

A despreocupação em apresentar um registo realista estabelece um paralelismo com as características das imagens da memória que não são garantidamente realistas. A ligação que existe entre a memória, a perceção e a imaginação constrói uma sequência de imagens complexa e não necessariamente realista.

Não existe um olhar imparcial sobre as coisas, porque o ato percetivo não é algo isolado no tempo, é influenciado pelo que já se viu antes: “Um ato percetual nunca está isolado; é apenas a mais recente fase de uma série de inúmeros atos parecidos, realizados no passado, que sobrevivem na memória” (Arnheim, 1969). As experiências que temos do presente, juntamente com o que aconteceu no passado, precondicionam as perceções que serão feitas no futuro: “Nós vemos as coisas de acordo com aquilo que esperamos que elas pareçam” (Idem, 1969).

Não quer isto dizer que basta apenas percecionar uma única vez determinado objeto, para ser gravada na memória uma forma que permanecerá intacta condicionando as posteriores perceções, como se de um cânone se tratasse. Considerando que cada perceção se torna num ‘vestígio’ na memória, assim como um indício, fornece pistas, mas não se afirma como forma autossuficiente para influenciar esmagadoramente as próximas formas que surgirem. Cada vestígio está sujeito à mudança contínua, já que repetidas experiências com o mesmo objeto físico produzirão novos ‘vestígios’ na memória que irão reforçar e modificar os anteriores. O pré-condicionamento que aqui se menciona traduz-se na maior influência que a memória exerce sobre a perceção, que é o que se chama reconhecimento. O ato de percecionar se faz- sempre acompanhar pelo ato de reconhecer.

Reconhecer tanto a forma, quanto a utilidade de determinado objeto, ocorre já no momento percetivo. Então reconhecer implica dois tempos: o presente e o passado. É a aplicação do conhecimento adquirido no passado que nos permite reconhecer o que se nos apresenta no presente. Se, por exemplo, determinado objeto não for totalmente percetível, a memória do observador encarrega-se de completar a parte que falta, já que as partes escondidas podem ser inferidas pelo que foi percecionado no passado.

Os modelos de comunicação estão em constante mudança e evolução, e hoje estamos diante de um novo método de coexistência. É curioso como, desde o passado, esse modelo se replicou e até evoluiu para escalas tão grandes que, agora, não conseguimos imaginar a coexistência com os que nos rodeiam de uma forma que não é como a que estamos acostumados; somos reduzidos a uma comunicação linear, posicionada a partir de um transmissor frontal que paradoxalmente nos conecta com distâncias e nos distancia do próximo.

1.1 O ser humano na busca de uma identidade viva num mundo morto

0 Bertrand Rusesell descreve no seu texto “A Conquista da Felicidade” a particularidade das sociedades modernas e o facto de estarem divididas em grupos que diferem profundamente entre si; o que nos leva pelo caminho de construir um mundo no qual nada do que acontece à nossa volta importa mais do que nós mesmos, e não visto só como a condição de importarmos no nosso bem-estar, senão também na capacidade que temos como seres humanos de reconhecer e ser empáticos por os outros. “O narcisismo é, de alguma maneira, o contrário do sentimento de culpa: consiste no hábito de se admirar e no desejo de ser admirado” (RUSESELL, 2006: 21).

Podemos resumir a evolução duma pessoa e a sua relação com a sociedade, somente se formos capazes de compreender o seu ambiente. No entanto, a tecnologia transformou-nos em seres insensíveis, incapazes de compartilhar sentimentos para traduzir as experiências que fazem crescer e entender o mundo desde outras perspetivas.

Poucas pessoas podem ser felices se a sua existência e a sua concepção do mundo não forem aprovadas, no conjunto, por aqueles com quem têm relações sociais e mais especialmente por aqueles com quem vivem (Ibidem: 117).

O ser humano tem sido participante e testemunha de grandes eventos que marcam um antes e um depois na vida que reconhece a partir das suas experiências vividas. Movimentos culturais e sociais produziram histórias que são apenas parcialmente representadas em bibliotecas e arquivos do Estado. Muitas vezes eles são considerados pequenos ou insignificantes ou, em alguns casos, perigosos; e não há nada mais perigoso visto pelas insaciáveis autoridades por dar a conhecer apenas as coisas boas sobre o seu governo, para não reconhecer os relatos crus de um evento tão devastador, capaz de derrubar as fundações da cidade e do poder político. Sentimentos e feridas não são compreendidos através de números, mas através de histórias, a escuta de vozes reais, a tristeza de enfrentar a morte, e a alegria de poder dizê-la viva. “É uma particularidade das sociedades modernas o facto de estarem divididas em grupos que diferem profundamente entre si, tanto nos seus princípios morais como nas suas crenças religiosas” (Ibidem: 117).

A arrogância multiplica relações nas sociedades em que o indivíduo é tempo, tanto individualista e superlotado necessário para transformar-se permanentemente e se adaptar forçado, e da solidão, para construir uma identidade sem coração. Sem querer (ou não) estamos cada vez mais próximos das máquinas, até nos identificamos com a sua natureza e, ao mesmo tempo, estamos mais distantes dos próprios seres humanos: “O homem que se interessa unicamente por si próprio não é digno de admiração e ninguém o considera como tal” (Ibidem: 22).

  1. Exercícios para rever a história do passado e assim entender o futuro

Partindo do pressuposto sobre o que na altura percebia-se por ‘futuro’ é que Günther Anders, parece reconhecer a origem de como os indivíduos perderam toda a ideia de resultado útil da sua vida, avaliada apenas de que o mundo dita como bem-sucedido ou aquilo que não o é. Em “La Obsolescencia del Hombre, Vol. I” (ANDERS,1956), baseia-se em várias observações importantes sobre os efeitos provocados na tomada de decisões com base em técnicas predispostas; e com eles, o desenvolvimento de novos tipos de compreensão indiferentes a tudo e a todos, tornando-se seres humanos capazes de cometer todos os tipos de atos violentos por falta de perceção.

Cada um dos nossos sentidos trabalha em total harmonia pela conquista e satisfação de nos redescobrirmos em e com o nosso presente e o nosso passado. Fazemos uso de todos os recursos à nossa disposição para alcançar a concentração ou, ao contrário, evitá-lo. Como estamos rodeados de ‘ruído’ o perigo de cair na nossa ignorância é mínima, porque dificilmente poderiam perceber-se os nossos erros se o ambiente é tão cheio de mais vozes que a nossa. Nós esforçamo-nos mais para dar sentido à vida dos outros do que de nós mesmos; o que nos leva inevitavelmente ao abismo da ignorância, o esquecimento da experiência vivida e a incapacidade de interagir com o ‘o vivo’ para forçar-nos a entender o mundo a partir do ponto de vista do ‘morto’.

Volpi (2005) disse que “o homem contemporâneo já está adiantado e, de qualquer modo, sujeito às restrições da tecnologia”; e tentar proteger-se contra esta situação no humanismo tradicional apenas indica impotência e desejo de fugir da realidade, uma vez que não há ética desta vez e pode exceder a condição do discurso moral.

A humanidade tem a possibilidade de autoaniquilação se não usar os recursos à sua disposição para questionar o significado de sua existência. Corremos o risco de um iminente ‘fim da civilização’ se a humanidade não for preservada, mas seus meios de produção.

Segundo Marx (2005), o valor do resultado deriva de acordo com seu uso, então é questionado para o que é que o homem realmente serve, apenas para produzir e dar vida? De acordo com esse pensamento, a felicidade nasce da satisfação de necessidades efêmeras: ‘Teoria das máquinas’. A constante necessidade de sempre criar alguma coisa. Não seja um entre muitos, mais deles, qualquer número nas listas: “Não importa produzir coisas sem sentido, o absurdo seria não existir em um mundo cheio de coisas e não poderemos oferecer mais nada, seja o que for”.

Com uma quantidade exorbitante de conteúdo, perdemos o sentido para o qual a ideia foi idealizada, a matéria se torna um indivíduo visto a partir do ‘fetichismo’; transformando os aspetos subjetivos em objetivos: “A imagem adquire um valor muito maior que a própria mensagem. Não faz sentido o excesso de conteúdo, mas o valor quantitativo do que se entende” (MARX, 2005).

Günther Anders em “La Obsolescencia del Hombre” declara que o sucesso depende da chegada das comunicações. Poderia haver uma mensagem carregada de conhecimento e verdades, mas sem a capacidade de ser transmitida, nunca se tornaria bem-sucedida e nenhuma pessoa possuiria a informação e, assim, o aprendizado seria perdido.

Marx, por outro lado em “La tecnología del capital”, defende a ideia de que a média determina seu uso. A construção de um novo discurso. O mundo é transformado em uma única narração. Aquilo que é pensado, certamente já aconteceu antes. Todas são referências, tudo existe.

Conscientes de que o pensamento deve ser transformado à medida que o mundo continua a crescer, mas, ao mesmo tempo, a média educou-nos de uma maneira, na qual nossos próprios critérios estão sempre fora do lugar. Nós nos convencemos de que tudo o que sai da média é real e irrefutável; mesmo aqueles discursos carregados de ódio e absurdos não criam dúvidas, muito menos julgamentos críticos, confiamos plenamente na ‘figura do líder’, na imagem onipresente que Orwell já tinha previsto apocalipticamente no seu livro de 1984 (Orwell, 2014).

Não há espaço para vagar, tudo o que o remetente quer alcançar e onde ele quer ir é resumido de sua conceção; deixando de lado as possibilidades de dúvidas e confrontos com o seu público, e curiosamente, facilitando também o trabalho para o destinatário, que não tem que investir muito esforço para entender a mensagem, os passos a seguir são simples, é como seguir o literalmente uma receita, não há chance de algo dar errado e, desse modo, todos ganham. A soma das partes (sendo verdades ou mentiras) faz um todo, não importa a ordem dos fatores, a mensagem é eficaz se atingir seu propósito.

Enganar-nos é o mais alarmante, porque quando sentimos a sensação de frustração, procuramos soluções rápidas, mecânicas e mortas.

Conclusão

Para começar a contar uma história, construir um sistema ou dar vida a uma ideia, devemos compreendê-la a partir da sua origem e conhecer o seu significado, para depois dar um contexto a partir do nosso próprio ser.

Como designers, o nosso papel na sociedade não se baseia só no entendimento do público alvo para satisfazer as suas necessidades, mas sim é de mais importante o reconhecer e ser responsáveis de que temos a capacidade de fazer com as experiências próprias e dos outros, uma construção de elementos de comunicação para que no futuro, as próximas gerações possam ter um pensamento crítico, empático e mais humano.

Embora a tecnologia e as formas de disseminação e distribuição do conhecimento levem-nos para caminhos ainda pouco explorados, formos capazes agora mesmo de construir com o nosso presente, melhores espaços de convívio com a sociedade, qualquer que ela seja.

 

  1. Referências

ANDERS, Günther (2002). “La Obsolescencia del Hombre Vol. I” Sobre el alma en la época de la segunda revolución industrial. Valencia: Pre-Textos.

ARNHEIM, Rudolf (1969). Visual Thinking. London: University of California Press.

BLOM Ina, TROND Lundemo, & EIVIND Røssaak (eds.) (2017). Memory in Motion: Archives, Technology, and the Social. Amsterdam: Amsterdam University Press. (versão actualizada: https://monoskop. org/log/?p=17872)

DOCKRAY, Sean; FORSTER, Benjamin (2018). README.md Distributed, David Blamey & Brad Haylock (eds.), 198-213. London: Open Editions. (versão actualizada: https://samiz-dat.github.io/hyperreadings/

GARCÉS, Marina (2018). Ciudad Princesa “Entrar y Salir”. Barcelona: Galaxia Gutenberg.

KANDINSKY, Wassily (2010). Do Espiritual na Arte. Alfragide: Dom Quixote.

LIBRARY STACK (2011- ). (versão actualizada: https://www. librarystack.org)

MARX. Karl (2005). “La tecnología del capital” Fragmentos sobre las máquinas. Ítaca: México.

ORWELL, George (2014). 1984. Lumen: Barcelona.

RUSESELL, Bertrand (2006). A Conquista da Felicidade. Lisboa: Guimarães Editores.

VOLPI, Franco (2005). El Nihilismo. Argentina: Biblos.

O designer na procura duma identidade viva num mundo morto

Para começar a contar uma história, construir um sistema ou dar vida a uma ideia, devemos compreendê-la a partir da sua origem e conhecer o seu significado, para depois dar um contexto a partir do nosso próprio ser.

Um conhecido ditado no México diz: “quem não conhece o seu passado, está condenado a repeti-lo” …

Vivemos num tempo tão acelerado que as coisas que teríamos percebido antes passam agora sem mais delongas. Perdemos o tato para falar sobre coisas sensíveis e até a capacidade de admiração diante das tragédias. Nada é novo para nós, tudo já foi visto de outra ou desde todas as perspetivas possíveis, alguém já fez (e melhor), alguém já teve essa ou aquela ideia … será então que vivemos no pior momento da história para que com o nosso presente, criar algo no futuro?

Podemos resumir a evolução duma pessoa e a sua relação com a sociedade, somente se formos capazes de compreender o seu ambiente. No entanto, a tecnologia transformou-nos em seres insensíveis, incapazes de compartilhar sentimentos para traduzir as experiências que fazem crescer e entender o mundo desde outras perspetivas.

O ser humano tem sido um participante e testemunha de grandes eventos que marcam um antes e um depois na vida em que acreditamos que não há nada novo na terra. Parece que não aprendemos com os nossos erros, porque, embora os grandes tremores afastem-nos do nosso eixo, não somos capazes de enfrentar as mudanças desde outro lugar; o ritmo da vida obriga-nos a reverter os problemas e apenas esperar pacientes as mudanças ou as promessas delas que vem para nós.

 

Palavras-chave:
Memória, Identidade, Resiliência, Experiência.

 

Referência de Textos:

ANDERS, Günther (2002). “La Obsolescencia del Hombre Vol. I” Sobre el alma en la época de la segunda revolución industrial. Pre-Textos, Valencia.

BLOM, Ina, Trond Lundemo, e Eivind Røssaak (eds.). 2017. Memory in Motion: Archives, Technology, and the Social. Amsterdão: Amsterdam University Press.

ERNST, Wolfgang. 2013. Aura and Temporality: The Insistence of the Archive (Conferência) Barcelona: Quaderns portàtils MACBA. http://www.macba.cat/uploads/20131220/QP_29_Ernst_F.pdf 

GROYS, Boris. 2015. “Art Workers: Between Utopia and the Archive.” Mass Effect: Art and the Internet in the Twenty-First Century, Lauren Cornell e Ed Halter (eds.), 357-368. Cambridge, Massachusetts / London, England: The MIT Press. https://www.e-flux.com/journal/45/60134/art-workers- between-utopia-and-the-archive 

KANDINSKY, Wassily (1911 – 2010) Do Epiritual na Arte, Alfragide, Dom Quixote.

MARX. Karl. 2005. La tecnología del capital. Fragmentos sobre las máquinas. Ítaca, México.

VOLPI, Franco (2005). “El Nihilismo”. Biblos, Argentina.

Referência Multimédia:

COBELO, Luis. O Terremoto de 1985 na Cidade do México: Milhares Morreram, Enquanto eles Nasciam. Disponível em: https://www.vice.com/pt_br/article/bmg3aq/o-terremoto-de-1985-na-cidade-do-mexico-milhares-morreram-enquanto-eles-nasciam
DOCKRAY, Sean & FORSTER, Benjamin, 2018. README.md Distributed, David Blamey & Brad Haylock (eds.), 198-213. London: Open Editions. Versão actualizada: https://samiz-dat.github.io/hyperreadings/

 

 

 

 

 

 

 

Conhecimento crítico para a prática do design

Quem está encarregado de “criar” o conhecimento? A universidade ou a experiência de trabalho? Qual destas duas escolas promove o conhecimento e o desenvolvimento de capacidades para a criação criativa?

Somos realmente capazes de adquirir conhecimento das pessoas encarregadas de um grupo de ensino? Ou será que questionamos o que eles nos dizem de acordo com o que supomos que eles têm para nos oferecer?

Schön no texto The Reflective Practitioner, destaca a importância de diferenciar as estruturas reflexivas em contraste com a importância da análise formal. A reflexão de ter plena consciência de uma prática analítica, de poder experimentar sem seguir regras acadêmicas, mas com bases teóricas que apóiem a tomada de decisão. [1]

O conhecimento vem da prática, ou o conhecimento se desenvolve a partir de estudos práticos?

As críticas que você recebe de professores que nunca antes estiveram no ambiente de trabalho, às vezes são entendidos como um sentimento de frustração, já que quando imersos em um mundo acadêmico, têm pouco a oferecer objetivamente a seus alunos em relação à vida real. Mas o que é real?

Há claro, um mundo de conhecimento que é mais do que necessário em algumas profissões. Seria um perigo obter um diagnóstico de um médico que não tenha passado por uma formação acadêmica. No entanto, na indústria do design criativo, a teoria é bem aprendida?

Nesse sentido, o que “vende” mais? Ter a capacidade de criar discursos espontâneos, mas com base em uma estrutura aprendida na escola, ou a análise crítica de saber como diferenciar as oportunidades nas fraquezas do usuário público?

O reconhecimento de oportunidades adquiridas com experiência fora da escola deve ser a porta de entrada para fazer parte de um mundo de trabalho cada vez mais exigente. As necessidades de mão-de-obra, de máquinas perfeitas em que pretendemos converter para não decepcionar ao sistema.

São sempre dúvidas e questionamentos que nos mantêm aprisionados num ciclo criativo ineficiente, exigindo sempre soluções inovadoras. Mas na realidade sempre repetindo processos aprendidos nas escolas, que têm pouco a oferecer de verdade. Nosso compromisso como designers teria que ser, antes de mais nada, de não perder nossa própria essência, o verdadeiro valor agregado que potencializa um produto; e depois também saber criar um discurso que defenda essa ideia ou conceito como autêntico, porque no final, o que seria de um objeto perfeitamente projetado sem uma conceituação justificada no tempo e na forma?

A pesquisa inicial de Chris Argyris explorou o impacto de estruturas organizacionais formais, sistemas de controle e gerenciamento sobre indivíduos e como eles responderam e se adaptaram a eles.

O que realmente define o nosso conhecimento? E isso realmente parece vulnerável com a passagem do tempo, se não estiver em manutenção constante? Ou será que somos capazes de manter o conhecimento bem guardado, apoiado em um lugar seguro esperando para ser ativado em tempos de crise?

Somos todos críticos? O que nos dá o poder de criticar nosso meio ambiente?

Na verdade, o poder que obtemos vem da experiência e do reconhecimento do nosso ambiente. Especialmente no mundo do design, onde devemos ser imparciais em todos os pontos de vista, tirar proveito das ideias dos outros, daquilo com que nos identificamos e também de tudo aquilo a que nos opomos completamente.

Daí a importância de criar um grupo de trabalho multidisciplinar. Todo conhecimento agrega e enriquece as propostas em design. Diferentes experiências e formas de dar vazão às necessidades do mercado.

Na sua análise do cenário artístico da década de 1980, o crítico Hal Foster descreve pelo menos duas condições que identificam um estado de pluralismo: uma proliferação de estilos aceitos no mercado e uma profusão de programas educacionais que juntos constituem uma nova academia. Eu acredito que o design gráfico opera sob condições semelhantes hoje em dia. O problema com o pluralismo é que os estilos se tornam opções relativas, não escolhas críticas. Embora o pluralismo garanta muitos estilos para escolher, perdemos qualquer senso de alternativas críticas porque, como afirma Foster, “tolerância e aceitação não ameaçam o status quo”. Em vez disso, temos uma mudança incremental “gerenciada” ou, no sentido da economia dos anos noventa.

A importância da alma, para não perder a essência como pessoa e como responsável por realizar as ações precisas em um projeto sem ir contra nossas próprias convicções, desejos e necessidades. Como um projeto pode ter esse senso crítico se não formos capazes de reconhecer nossas próprias fraquezas e forças?

O que acontece quando você vê o design como algo mais do que um relacionamento baseado no serviço entre o cliente e o designer? [2]

Na era das redes socias, de ganhar distintivos e apreciações, quando uma das palavras mais usadas no círculo de comentários do site é “impressionante” e eu gosto e os seguidores são facilmente comprados, o design gráfico tem outra oportunidade de reexaminar sua alergia aparentemente incurável às críticas.

Ao mesmo tempo em que vivemos numa era acelerada de primeiras grandes impressões, de gostos e reações imediatos que rapidamente perdem sua validade nas mentes do público usuário, também temos que lidar com a frustração de ser efêmero e pouco permeável no raciocínio coletivo. Isso pode resultar em resultados mais permanentes na alma do que em satisfazer desejos básicos e temporários.

 

[1] Schön, Donald A. (1983), The Reflective Practitioner. Basic Books.

[2] Ericson, Magnus (2009). Iaspis Forum on Design and Critical Practice  The Reader  Edited by Magnus Ericson, Martin Frostner, Zak Kyes, Sara Teleman and Jonas Williamsso.

O tempo de nós mesmos

Talvez tenhamos sido educados cercados de preconceitos, o egoísmo entre eles, e foi nos repetidamente dito que pensar em nós mesmos é errado; que devemos pensar nos outros, no bem comum e resolver problemas juntos para sermos assim uma sociedade próspera. No entanto, essas ideias românticas são cada vez mais obscurecidas pelas respostas imediatas de nossos atos.

A Revolução Industrial trouxe consigo uma série de acontecimentos afortunados, entre os quais podemos dizer a relação do ser humano com a máquina, para juntos criar mais coisas; a melhora e automação de processos, a tomada de decisão efetiva, entre muitas mais melhorias no dia a dia. Apesar disso, parece que, com o passar do tempo, em vez de enriquecer as nossas vidas, esses processos mecanizados só nos trouxeram insuficiência intelectual. E é que, enquanto as máquinas assumem o controle de processos nos quais não temos nada a fazer, ao mesmo tempo sentimo-nos deixados para trás e humilhados pela falta de conhecimento e inteligência a serem desafiados nos processos diários básicos.

É por isso acho absurdo e incoerente o fato de o ser humano buscar o autocontrole, o poder e a supremacia, quando estamos nitidamente cada vez mais imitados com os processos industriais. Esquecemos o significado das coisas primordiais nos processos criativos e deixamos a nas mãos da tecnologia o desenvolvimento de estratégias em que, ao mesmo tempo, exigimos reconhecimento intelectual.

A característica central da adhocracia (resgatado por Joseph Grima no seu texto ADHOCRACY, 2012) [1] como os grupos e equipes cooperativos que resolvem problemas e desempenham o trabalho, diz que é um conceito cada vez mais popular entre as gerações mais jovens, em sua constante por “reinventar” e não seguir nenhuma regra, viver na ideia de “nômade”, em que eles são capazes de integrar-se em qualquer habitat livre que dei-lhes autonomia para criar e incorporar ideias inovadoras, nas quais seu público-alvo é representado por esses espíritos capazes de fazer o que eles propõem sem limites de tempo e espaço. Entre os projetos mais frequentadas por esta geração são os conhecidos coworking que são “chic” e confortáveis, onde oferecem taxas competitivas e têm direito a trabalhar em quartos com ambiente agradável, longe da ideia conservadora do escritório clássico, onde sem horários definidos dão a frente com os resultados surgirem naturalmente.

No entanto, é com este tipo de estratégias que eu questiono a “inovação e autenticidade” porque, como a história conta, essas novas ideias, novos pensamentos adotados e determinação de novos manifestos anarquistas são nada mais do que uma cópia do o que precedeu. A verdadeira autenticidade, acho eu, seria o fato de não ter que ditar algo tão único, cada pessoa tem uma maneira pessoal de fazer coisas, métodos e técnicas que nos tornam realmente autênticos e capazes de oferecer soluções eficazes que atendam às necessidades de cada projeto criativo.

Muitas vezes a procura constante pelo “fio preto” no design, para chegar ao fundo das coisas e entender os passos tal qual uma receita para o sucesso, estamos longe desse propósito, justamente porque a repetição das coisas consegue tudo o contrário. Perdemos o julgamento racional de ver as necessidades elementais, básicas e simples de alcançar isto ou aquilo sem dar ao assunto tantas voltas. Para mim, a verdadeira mudança vem de ouvir, sentir, experimentar e combinar com as necessidades do outro para desenvolver uma conexão real onde o design seja autêntico e tenha características de nossa própria alma.

 

 

[1] Grima, Joseph (2012). A Brief History of Adhocracy. In Adhocracy. Istanbul: IKSV.

Falhar ao sistema

COMENTÁRIO A PARTIR DO TEXTO DO DAVID SAMUELS/WIRED* [1]

 

Quando pensamos num mundo controlado por grandes associações, onde os nossos pensamentos, ações e decisões são tomadas por uma terceira frente, acreditamos ingenuamente que é remota a nós; mas na realidade o que estamos vivendo agora é um fato ao que poucas pessoas escapam.

 

Essa imagem “manipuladora” da mídia de massa invadiu-nos até o núcleo. Fazemos tentativas regularmente fúteis para passar de incógnito, e sem perceber como estamos a cair nas armadilhas, que os nossos comportamentos são expostas e estão à venda pela melhor oferta.

 

Esta é uma imagem cada vez mais frequente, e esses mitos que vieram-nos falar sobre quedas, agora cercam- nos na vida cotidiana. As primeiras histórias sobre “algo maior” que ele nos observou tinham um toque de misticismo, assim como no livro quase apocalíptico do George Orwells – 19884, no entanto, hoje ele já tem nome e rosto; são marcas, aplicativos e pessoas que permitimos entrar em nossas casas e gerenciar as nossas vidas. Talvez devêssemos ser mais objetivos do que confiar que o que produzem em nós é um tipo de segurança e estabilidade para a sociedade e de nós mesmos, mas a realidade é que nós deparamos com a mesma, produzindo o oposto, ansiedade e insegurança. Porque não podemos pensar e criar histórias em nossas cabeças do que achamos que é a consequência de ter agido e respondido desta ou daquela maneira falhando assim ao sistema, por isso aceitamos a ideia de não merecer as promessas vendidas e estar sempre ao serviço e as demandas dele.

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[1] https://leitor.expresso.pt/semanario/SEMANARIO2415/html/revista-e/-e-1/Todos-somos-dados

 

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