O tempo de nós mesmos

Talvez tenhamos sido educados cercados de preconceitos, o egoísmo entre eles, e foi nos repetidamente dito que pensar em nós mesmos é errado; que devemos pensar nos outros, no bem comum e resolver problemas juntos para sermos assim uma sociedade próspera. No entanto, essas ideias românticas são cada vez mais obscurecidas pelas respostas imediatas de nossos atos.

A Revolução Industrial trouxe consigo uma série de acontecimentos afortunados, entre os quais podemos dizer a relação do ser humano com a máquina, para juntos criar mais coisas; a melhora e automação de processos, a tomada de decisão efetiva, entre muitas mais melhorias no dia a dia. Apesar disso, parece que, com o passar do tempo, em vez de enriquecer as nossas vidas, esses processos mecanizados só nos trouxeram insuficiência intelectual. E é que, enquanto as máquinas assumem o controle de processos nos quais não temos nada a fazer, ao mesmo tempo sentimo-nos deixados para trás e humilhados pela falta de conhecimento e inteligência a serem desafiados nos processos diários básicos.

É por isso acho absurdo e incoerente o fato de o ser humano buscar o autocontrole, o poder e a supremacia, quando estamos nitidamente cada vez mais imitados com os processos industriais. Esquecemos o significado das coisas primordiais nos processos criativos e deixamos a nas mãos da tecnologia o desenvolvimento de estratégias em que, ao mesmo tempo, exigimos reconhecimento intelectual.

A característica central da adhocracia (resgatado por Joseph Grima no seu texto ADHOCRACY, 2012) [1] como os grupos e equipes cooperativos que resolvem problemas e desempenham o trabalho, diz que é um conceito cada vez mais popular entre as gerações mais jovens, em sua constante por “reinventar” e não seguir nenhuma regra, viver na ideia de “nômade”, em que eles são capazes de integrar-se em qualquer habitat livre que dei-lhes autonomia para criar e incorporar ideias inovadoras, nas quais seu público-alvo é representado por esses espíritos capazes de fazer o que eles propõem sem limites de tempo e espaço. Entre os projetos mais frequentadas por esta geração são os conhecidos coworking que são “chic” e confortáveis, onde oferecem taxas competitivas e têm direito a trabalhar em quartos com ambiente agradável, longe da ideia conservadora do escritório clássico, onde sem horários definidos dão a frente com os resultados surgirem naturalmente.

No entanto, é com este tipo de estratégias que eu questiono a “inovação e autenticidade” porque, como a história conta, essas novas ideias, novos pensamentos adotados e determinação de novos manifestos anarquistas são nada mais do que uma cópia do o que precedeu. A verdadeira autenticidade, acho eu, seria o fato de não ter que ditar algo tão único, cada pessoa tem uma maneira pessoal de fazer coisas, métodos e técnicas que nos tornam realmente autênticos e capazes de oferecer soluções eficazes que atendam às necessidades de cada projeto criativo.

Muitas vezes a procura constante pelo “fio preto” no design, para chegar ao fundo das coisas e entender os passos tal qual uma receita para o sucesso, estamos longe desse propósito, justamente porque a repetição das coisas consegue tudo o contrário. Perdemos o julgamento racional de ver as necessidades elementais, básicas e simples de alcançar isto ou aquilo sem dar ao assunto tantas voltas. Para mim, a verdadeira mudança vem de ouvir, sentir, experimentar e combinar com as necessidades do outro para desenvolver uma conexão real onde o design seja autêntico e tenha características de nossa própria alma.

 

 

[1] Grima, Joseph (2012). A Brief History of Adhocracy. In Adhocracy. Istanbul: IKSV.
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