Em 2019 já não é novidade que a computação está em praticamente todos os sectores da sociedade e molda a forma como experienciamos as nossa vidas, o mundo e até a nós próprios.
Como designers tecnológicos, é interessante perceber de que forma é que as decisões que tomamos ajudam a moldar as experiências pessoais dos utilizadores. Estes users adaptam-se às oportunidades e limitações das tecnologias e por consequência, os seus comportamentos e práticas transformam-se de formas que são difíceis de antecipar.
Assim, é necessário reavaliar os valores, as atitudes e as formas de olhar para o mundo que estamos a construir inconscientemente através da tecnologia, e entender quais os seus efeitos. A crítica é uma forma de encontrar e abordar “ângulos mortos” durante a tomada de decisões para assim aperfeiçoar e evoluir.
Durante as últimas décadas, o design crítico passou a ser objeto alvo de curiosidade pela comunidade de investigadores ligados à interação humano-computador. É sintoma do interesse nas novas formas de práticas do design e nas possibilidades de engajamento.
O conceito de critical design foi cunhado por Dune & Raby e acabou por ser uma fonte de inspiração para o HCI. No entanto, alguns autores como Pierce e Sengers vão mais longe e defendem que esta ligação ao design crítico é problemática e que existe uma necessidade de criar outras articulações de criticalidade no design interação humano-computador. Assim defende que temos de ter formas adicionais de falar sobre e fazer crítica através do design, sem estar vinculado ao design crítico.
Os autores Bardzell e Bardzell a partir de conceitos como critical theory e metacriticism analisam teoricamente o que significa ser crítico e tentam identificar problemas e potencialidade na articulação de Dune and Raby. Estes autores têm o objetivo de desenvolver uma nova forma de crítica de design para projeto em HCI, e no processo intencionalmente alterar o significado de design crítico.
Bardzell, Bardzell começam por argumentar que as formas de conhecimento disponíveis publicamente sobre o design crítico não são adequadamente detalhadas para praticantes de design aprenderem. Criticam também a falta de coerência e direção:
A principal estratégia dos investigadores é oferecer exemplos de projetos que eles argumentam servir uma função crítica. Estes exemplo são organizados tematicamente em torno de ideias provocativas. Em muitos casos, essas leituras são complementadas com breves alusões a pensadores críticos e intelectuais de design.
Dune & Raby posicionam ainda o design crítico contra o design afirmativo, que eles veem como apoio irracional ao status quo cultural. Em contraste, descrevem o design crítico como a criação de “produtos para a mente “, ou seja, propostas de design que questionam o papel do próprio design na moldagem da nossa realidade quotidiana.

Electro-Draft Excluder, parte do Placebo Project series
Neste projecto, o espectador é encorajado a perguntar-se a si próprio porque é que os valores imbuídos na proposta parecem ficcionais ou irreais, e acaba por questionar os mecanismos sociais e culturais que definem o que é real ou fictício. O objeto cumpre uma função crítica.
Não podemos no entanto ignorar que o reconhecimento de “ângulos mortos” na interação entre humanos e computador abriu novos espaços para o design e levou ao aperfeiçoamento tecnológico. Estas críticas tornaram possível questionar porque é que determinados aspetos da vida humana foram deixados fora da disciplina do design, com a finalidade de discutir se eles deviam ou não fazer parte.
Foi aberto um caminho para a imaginação de novos método que poderiam ser mais adequados para abordar partes da experiência humana. A reflexão crítica acaba por ser um princípio elementar do design tecnológico, por identificar questões e abrir novo espaços de design. A influência da crítica em HCL acaba por ser crucial e a contínua reflexão por ambos os utilizadores e os designers é decisiva para uma tecnologia socialmente responsável na prática do design, sendo que muitos processos sociais podem ser melhorados e beneficiar deste casamento entre design, tecnologia e reflexão.
Mariana Ribeiro
Referências:
Pierce, James & Sengers, Phoebe & Hirsch, Tad & Jenkins, Tom & Gaver, William & Disalvo, Carl. (2015). Expanding and Refining Design and Criticality in HCI, disponível online em: https://www.researchgate.net/publication/300730083_Expanding_and_Refining_Design_and_Criticality_in_HCI
Sengers, Boehner, David, Kaye (2005). Reflective design, disponível online em: http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/summary?doi=10.1.1.84.831
Bardzell J., Bardzell S. What is “Critical” about Critical Design? Disponível online em: https://www.academia.edu/3795919/What_is_Critical_About_Critical_Design