Os data breaches que recentemente expuseram os dados pessoais de milhões de indivíduos – nomeadamente os casos envolvendo a Cambridge Analytica e a rede Marriott – foram suficientes para aumentar nossa preocupação com privacidade, mas não para gerar mudanças efetivas na forma como nos comportamos on-line. Isso acontece, em parte, porque tais vazamentos raramente são acompanhados de consequências diretas, capazes de afetar nossa vida quotidiana.
Mantivemos nossas contas no Facebook em funcionamento mesmo depois de sabermos que a empresa havia sido implicada em investigações acerca da interferência estrangeira nas últimas eleições presidenciais norte-americanas. Nessa mesma direção, acredita-se que companhias como a Cambridge Analytica tenham “minado” informações privadas de milhões de perfis como parte de um projeto amplo, que colaborou com a implementação de agendas conservadoras em governos do mundo todo.
Apesar do fato de muitos, incluindo Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, demonstrarem suas preocupações com a privacidade cobrindo as câmeras embutidas em seus laptops com um pedaço de fita, está cada vez mais claro que nossos dispositivos eletrônicos também estão nos “ouvindo”. Conversar com um amigo sobre a intenção de fazer um mestrado, certamente fará com que nossas mídias sociais sejam inundadas com anúncios universitários.
David Samuels, em seu artigo “Is Big Tech Merging with Big Brother? Kinda Looks Like It”, aponta para o fato de que a recolha de dados por parte das gigantes do Vale do Silício, antes associada a simples estratégias de marketing, parece, agora, ter se transformado em uma potente ferramenta de vigilância e manipulação, capaz de gerar impactos muito reais em nossa sociedade.
Caio Guedes
Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, WIRED. Fevereiro, 2019.