Sobre incerteza e movimento como paradigmas da contemporaneidade.
Resumo:
Vivemos num estado de transição contínua; a nossa existência é construída com base numa sucessão de entradas e saídas; ausências e trajetórias. Num ambiente em constante movimento, o excesso de velocidade e a deslocalização permanente transformam os objetos que la habitam em meras trajetórias. O tempo consciente é conformado a uma continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu.
Palavras chave: movimento, incerteza, conhecimento, identidade.
Introdução
“Durante o café da manhã, as ausências são frequentes, e a xícara virada na mesa é uma consequência bem conhecida. A ausência dura alguns segundos, começa e termina inesperadamente (…) Como o retorno é tão imediato quanto a partida, a palavra e o gesto presos são retomados onde foram interrompidos. O tempo consciente é automaticamente soldado formando uma continuidade sem cortes aparentes. O tempo de ausência não existiu. ”
(Virilio, 1988: 4)
Entre cada saída e cada entrada há uma ausência. O objeto, ou neste caso o indivíduo, torna-se uma mera trajetória; um vetor de movimento que se move do ponto A para o B. O que acontece neste processo, longe de ser um deslocamento linear, torna-se um movimento imprevisível no qual intervêm inúmeras variáveis que escapam de qualquer capacidade de revisão ou antecipação.
Entre uma entrada e uma saída aparecem o silêncio e a assimilação. Iniciamos aqui um processo de adaptação interna no qual é realizada a análise e descodificação do novo ambiente. Ao contrário do que acontece durante a ausência, diante da estática do que nos rodeia, o movimento muda-se para o interior do objeto, para o nosso interior.
Entre a saída e a entrada, a mudança é externa. Entre a entrada e a saída, o movimento é interno. Como Gracés descreve no seu texto, entrar e sair é um estado de constante movimento; uma transição contínua (Gracés, 2017: 127), uma existência que é reafirmada no estado de mudança permanente.
Entrar e sair é uma sucessão de ausências e trajetórias. Estes deslocamentos conformam a nossa existência, definem a nossa identidade e constituem uma grande parte do nosso processo de aprendizagem.
Nas palavras de Virilio, para quem sai e para o que resta, o tempo consciente é baseado numa continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu. (Virilio, 1988: 6)
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1. Sair e voltar para a caverna
“O entrar e sair da cidade continua a definir o padrão de uma respiração sincopada e interrompida, que tem como consequência que as relações de pertencimento se manifestaram para mim em toda a estranheza das suas convenções e direções”
(Gracés, 2017: 131)
Para construir o argumento deste ensaio tomamos como ponto de partida o texto “Entrar y salir”incluído no livro “Nueva Ilustración Radical” de Mariana Gracés. A ideia de entrar e sair que a autora levanta no seu texto não deixa de ser uma alegoria recorrente; o texto de Garcés poderia ser interpretado como uma adaptação pós-moderna do mito da caverna. Neste, Platão explica alegoricamente como podemos apreender a essência da realidade, constituída pelo mundo sensível e inteligível (Platão, 1982). Isto demonstra o modo de compreender a situação em que o ser humano se encontra em relação ao conhecimento.
No nosso contexto atual, não falamos de uma única caverna, se não de muitas. Se formos um pouco mais longe e tentarmos aplicar este princípio em menor escala e com recorrência, descobriremos que não existe uma realidade única, se não uma infinidade de micro-cosmos, bolhas e pequenos fragmentos em que flutuamos constantemente . A ideia de entrar e sair é apresentada aqui como um processo de adaptação e assimilação permanentes.
Nas palavras de Camus; “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é” (Camus, 2017: 23). Neste processo de negação ou rebelião, surgem também a libertação e o movimento. É nesse momento que decidimos parar de olhar para a mesma parede da caverna para entrar em contato com diferentes realidades. Juntamente com esse movimento inicia-se um processo de aprendizagem no qual teremos que entrar e sair de muitas cavernas, e de adaptar a visão a todos os tipos de espectros luminosos (Platão, 1982: 26-30).
O que se defende aqui é a ideia de reivindicar o movimento como a única forma de conhecimento no nosso atual contexto sociocultural.
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2. A Viagem Para Ítaca
“Quando você começar sua viagem a Ithaca, peça que o caminho seja longo”
(Cavafis, 1999: 112)
O que é que motiva cada uma das nossas ausências e trajetórias? É a incerteza, a rotina, o desconforto, o tédio, …? Muitas vezes nos perguntamos o que nos leva a passar para o ponto B quando deveríamos nos questionar por que deixamos o ponto A.
Em cada entrada encontramos família, amigos, amor. Em cada saída, novidades e incertezas. Para muitos, é precisamente dessa oscilação que surge o verdadeiro equilíbrio; a existência é enriquecida com cada ausência.
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3. Trajetórias sem direção.
“No passado, o neurastênico foi aconselhado a viajar para esquecer. Viajar aliviou a tentação do suicídio, opondo-se a um substituto: a pequena morte das partidas ”
(Virilio, 1988:74)
O que acontece quando todas essas ausências e trajetórias não são apoiadas por nenhum objetivo aparente? Muitas vezes estamos imersos num movimento constante, sem saber realmente para onde estamos a ir.
Nesse caso, o movimento, mais do que um deslocamento intencional, torna-se uma corrente que nos arrasta a lugares recônditos e inesperados, quase sem tempo nem ferramentas para entender o que nos levou até lá.
3.1 Movimento como lazer:
No seu livro, A Sociedade do Espetáculo (Debord, 2010), Debord constróir a sua reflexão sobre o conceito da mercantilização da experiência humana. Hoje em dia qualquer experiência é suscetível de ser monetarizada e, consequentemente, de produzir um benefício económico. O movimento é mais um dentro de todas essas experiências.
Para contextualizar essa ideia, recorro às palavras de José Luis Pardo no seu prólogo da edição espanhola deste livro: “As cidades começam a tornar-se desertos inabitáveis e habitadas por fantasmas. Dentro dessas urbanizações, vizinhanças e, às vezes, habitações simplesmente privadas, o neocamponês pós-industrial é mantido em segurança conectando-se a um espaço global intangível e – no sentido Debordiano do termo – ‘espetacular'” (Debord, 2010: 29)
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que as vidas dos chamados neo-camponeses pós-industriais tendem a ser cada vez mais estáticas e sedentárias, a ideia de deslocamento é usada com cada vez mais frequência. Viajar torna-se uma espécie de obrigação e até um direito adquirido. Essas trajetórias impulsionadas por interesses externos a si mesmas correm o risco de se tornarem movimentos vazios e sem propósito.
3.2 Movimento como negócio:
No mundo do management e da gestão emocional, a ideia de viver surfando as ondas é muito bem sucedida (Gracés, 2017: 127-132)infelizmente, essa visão idealizada frequentemente se afasta da realidade. Talvez a imagem que mais se assemelha à ideia de movimento no contexto laboral seja a de um barquinho de papel em constante deriva.
A imagem do empreendedor funciona como um arquétipo recorrente quando se fala em adaptabilidade e dinamismo do trabalho. A falsa cultura do empreendedorismo e a ideia do homem que se fez sozinho são apenas mais uma face visível do conceito popularizado pelo economista austríaco Schumpeter: a destruição criativa. (De la Corte, 2015).
Esta teoria defende a ideia de que, para criar, é necessário primeiro destruir. O seja, para gerar valor dentro de uma economia de mercado, novos produtos devem destruir os antigos, e a dinâmica dos novos modelos económicos deve terminar com os já estabelecidos. Descobrimos que essa ideia de surfar as ondas é um movimento voraz e agressivo, alimentado pela incerteza e pela instabilidade(Gracés, 2017: 127-132).. Diante disso, a única coisa que podemos fazer é nos adaptar e tentar evitá-lo da melhor maneira possível.
Como diz Gracés, devemos percorrer o espaço neutro do mercado de oportunidades, sempre tendo em mente uma possibilidade de resistência nómada, mas não arbitrária (Idem, 2017: 127-132).
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4. Princípio da Incerteza
“Quanto mais conhecemos a posição, mais ela parece agir como uma partícula. Alternativamente, se soubermos muito bem o movimento ou a velocidade … sua posição se torna difusa como uma onda. Um ponto de vista diferente sobre a dualidade, mas ainda assim, um fato paradoxal da vida.”[1]
(Jones, 1992:160-161)
Num contexto de movimento constante, os objetos são substituídos pelas suas trajetórias (Virilio, 1975:43); nós mesmos nos tornamos numa delas. Surge assim a ideia de construir uma existência baseada em não sere não estar, e formar uma identidade apenas definida por uma sucessão de deslocamentos.
O princípio da incerteza enunciado por Heisenberg, em 1927 afirma o seguinte: “é impossível determinar simultaneamente e com precisão absoluta o valor da posição e a quantidade de movimento de uma partícula.”
Isto é, existem pares de magnitudes físicas que não podem ser determinadas com precisão total dentro da mesma medida ja que qualquer elemento se comporta ao mesmo tempo que uma partícula e uma onda. A dualidade do objeto e sua trajetóriauma dualidade apresenta uma abordagem paradoxal quando tentamos definir a natureza de um elemento e até mesmo nossa própria identidade.
Tal como acontece com a incerteza das partículas de Heisenberg, uma das consequências da deslocalização constante e das flutuações permanentes de um objeto é a sua perda de identidade.
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5. O paradoxo do objeto vs. trajetória
“A inteligência é uma coisa terrível, tende a morte como estabilidade à memória. O vivo, o que é absolutamente instável é individual, é ininteligível. (…) A mente procura o que está morto, pois o que está vivo Ihe escapa. Para analisar um corpo, ele deve ser reduzido ou destruído. Para entender alguma coisa, você tem que matá-la.”[2]
(Unamuno, 1912:94)
Paradoxalmente, quanto mais sabemos sobre a natureza de um objeto, maior é a distância da sua posição atual no tempo. Quanto melhor sabemos sua trajetória ou quantidade de movimento, maior é a ignorância sobre sua natureza ou posição original.
Temos uma dicotomia principal sobre a qual construímos esse argumento; a dualidade objeto-trajetória como elemento principal para a construção de uma identidade e como o principal motor do nosso processo de aprendizagem.
De acordo com Donna Haraway (Haraway, 1984), há infinidade de dualismos em constante competição. Essa dialética estabelece relações paradoxais de dominação que funcionam como a base sobre a qual construímos as nossas visões da realidade e do nosso conhecimento. As nossas vidas são sempre ameaçadas por um binarismo agudo (Kittler, 1999: 1-19). Para enunciar alguns dos mais importantes: eu / outro, mente / corpo, realidade / aparência, ativo / inativo, conectado / desconectado, bom / ruim , verdade / ilusão, total / parcial o Deus / homem.
Para a autora do Cyborg Manifesto (Idem, 1984), a cultura da alta tecnologia rejeita esses postulados e ajuda a desafiar esses dualismos que, articulados de maneira coerente, nos podem ajudar a adquirir uma compreensão mais global e menos tendenciosa de tudo ao nosso redor.
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Conclusão
Para muitas pessoas da minha geração, a mobilidade foi reforçada pela incerteza. Num ambiente em constante mudança, onde os ciclos economicos e sociais se estão a tornar cada vez mais frenéticos, a ideia de encontrar estabilidade ou tentar visualizar o que pode acontecer nos próximos anos é difícil ou até mesmo ingenua. Ontem a incerteza foi causada pela crise económica, mas amanhã pode surgir como resultado de uma crise humanitária, tecnológica ou ambiental.
Podemos dizer que, num ambiente em constante movimento, onde as mudanças de paradigma ocorrem de forma frenética, a única maneira de adquirir aprendizagem e entendimento verdadeiros sobre o que define o aquilo que somos, é tornarmo-nos também uma trajetória. Ou sejae, é ão observar o sistema a partir do exterior se não nos integrarmos nele, mas antes tornarmo-nos parte dessa dinâmica e adaptarmo-nos ao seu constante movimento.
A aprendizagem é sempre um deslocamento que nos permite converter esse movimento numa trajetória sinótica. Modificar o nosso ponto de vista e descobrir o que, de certo modo não estava à vista antes (Virilio, 1988: 125). Ou seja, contemplar a nossa própria realidade, não apenas de uma perspectiva única, mas de uma infinidade delas.
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[1]Traduçao livre de: “The better you know the position… the more it seems to act like a particle. Alternatively, if you know the motion or speed very well… its position becomes diffuse like a wave. A different point of view on duality but still …a paradoxical fact of life.”
[2]Traduçao livre de: “Es una cosa terrible la inteligencia. Tiende a la muerte como la estabilidad a la memoria. Lo vivo, lo que es absolutamente inestable, lo absolutamente individual, es en rigor, ininteligible. (…) La mente busca lo muerto, pues lo vivo se le escapa. Para analizar un cuerpo hay que menguarlo o destruirlo. Para comprender algo hay que matarlo.”
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Referências:
Cavafis, Constantino. (1999).“Antología poética: Itaca”. Madrid: Alianza. ISBN: 978-84-9181-060-5
Camus, Albert. (2017). “El hombre rebelde”.Madrid: Alianza. ISBN: 978-84-206-7646-2. (p.23)
Debord, Guy. 2010). “La Sociedad del Espectáculo”.(Madrid: Pre-Textos. (p. 29)
De la Corte, Jacobo. (2015) “Schumpeter y la destrucción de instituciones por los innovadores”. Madrid: Universidad Pontificia ICAI-ICADE. Consultado em URL:https://repositorio.comillas.edu/rest/bitstreams/7354/retrieve
Diccionario filosófico abreviado. (1959). 126-128. Consultado em URL: http://www.filosofia.org/enc/ros/dia.htm
Encyclopedia Britannica. (2019). Uncertainty Principle. Consultado em URL:
https://www.britannica.com/science/uncertainty-principle
Garcés, Marina (2018). Ciutat Princesa. Barcelona: Galaxia Gutenberg. ISBN: 9788417088880
Haraway, Donna. (1984) “Manifesto Ciborg” Consultado em URL: https://xenero.webs.uvigo.es/profesorado/beatriz_suarez/ciborg.pdf
Jones, Roger S. (1992).“Physics for the Rest of Us“. Mc-Graw-Hill. ISBN: 978-0809237166
(160-161).
Kittler, Friedrich. (1999). “Gramophone, Film, Typewriter”. Stanford
Stanford University Press. (p. 1-19)
Lyotard, Jean-François. (2006). “La Condición Postmoderna”. Madrid: Cátedra. ISBN: 9788437604664
Platão. (1982). “República Vll”; 514a-517c y 518b-d. R. Verneaux, Textos de los grandes filósofos. Edad antigua. Barcelona: Herder. (p. 26-30).
Principio de indeterminación de Heisenberg. Consultado em URL: http://www.eis.uva.es/~qgintro/atom/tutorial-10.html
Virilio, Paul. (1975). ““Véhiculaire”, en Nomades et vagabonds”.10-18, pág. 43: sobre la aparición de la linealidad y las alteraciones de la percepción debidas a la velocidad.
Virilio, Paul. (1988). “Estética de la desaparición”.Barcelona. Anagrama. ISBN: 84-334-0092-7
Unamuno, Miguel de. (1912) “Del Sentimiento trágico del a vida”. Consultado em URL: http://portalentretextos.com.br/download/livros-online/unamuno.pdf