Ausências e Trajetórias.

Sobre incerteza e movimento como paradigmas da contemporaneidade.

Resumo:

Vivemos num estado de transição contínua; a nossa existência é construída com base numa sucessão de entradas e saídas; ausências e trajetórias. Num ambiente em constante movimento, o excesso de velocidade e a deslocalização permanente transformam os objetos que la habitam em meras trajetórias. O tempo consciente é conformado a uma continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu.

Palavras chave: movimento, incerteza, conhecimento, identidade.

Introdução

“Durante o café da manhã, as ausências são frequentes, e a xícara virada na mesa é uma consequência bem conhecida. A ausência dura alguns segundos, começa e termina inesperadamente (…) Como o retorno é tão imediato quanto a partida, a palavra e o gesto presos são retomados onde foram interrompidos. O tempo consciente é automaticamente soldado formando uma continuidade sem cortes aparentes. O tempo de ausência não existiu. ” 

 (Virilio, 1988: 4)

Entre cada saída e cada entrada há uma ausência. O objeto, ou neste caso o indivíduo, torna-se uma mera trajetória; um vetor de movimento que se move do ponto A para o B. O que acontece neste processo, longe de ser um deslocamento linear, torna-se um movimento imprevisível no qual intervêm inúmeras variáveis que escapam de qualquer capacidade de revisão ou antecipação. 

Entre uma entrada e uma saída aparecem o silêncio e a assimilação. Iniciamos aqui um processo de adaptação interna no qual é realizada a análise e descodificação do novo ambiente. Ao contrário do que acontece durante a ausência, diante da estática do que nos rodeia, o movimento muda-se para o interior do objeto, para o nosso interior.

Entre a saída e a entrada, a mudança é externa. Entre a entrada e a saída, o movimento é interno. Como Gracés descreve no seu texto, entrar e sair é um estado de constante movimento; uma transição contínua (Gracés, 2017: 127), uma existência que é reafirmada no estado de mudança permanente.

Entrar e sair é uma sucessão de ausências e trajetórias. Estes deslocamentos conformam a nossa existência, definem a nossa identidade e constituem uma grande parte do nosso processo de aprendizagem.

Nas palavras de Virilio, para quem sai e para o que resta, o tempo consciente é baseado numa continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu. (Virilio, 1988: 6)

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1. Sair e voltar para a caverna

“O entrar e sair da cidade continua a definir o padrão de uma respiração sincopada e interrompida, que tem como consequência que as relações de pertencimento se manifestaram para mim em toda a estranheza das suas convenções e direções” 

(Gracés, 2017: 131)

Para construir o argumento deste ensaio tomamos como ponto de partida o texto “Entrar y salir”incluído no livro “Nueva Ilustración Radical” de Mariana Gracés. A ideia de entrar e sair que a autora levanta no seu texto não deixa de ser uma alegoria recorrente; o texto de Garcés poderia ser interpretado como uma adaptação pós-moderna do mito da caverna. Neste, Platão explica alegoricamente como podemos apreender a essência da realidade, constituída pelo mundo sensível e inteligível (Platão, 1982). Isto demonstra o modo de compreender a situação em que o ser humano se encontra em relação ao conhecimento.

No nosso contexto atual, não falamos de uma única caverna, se não de muitas. Se formos um pouco mais longe e tentarmos aplicar este princípio em menor escala e com recorrência, descobriremos que não existe uma realidade única, se não uma infinidade de micro-cosmos, bolhas e pequenos fragmentos em que flutuamos constantemente . A ideia de entrar e sair é apresentada aqui como um processo de adaptação e assimilação permanentes.

Nas palavras de Camus; “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é” (Camus, 2017: 23). Neste processo de negação ou rebelião, surgem também a libertação e o movimento. É nesse momento que decidimos parar de olhar para a mesma parede da caverna para entrar em contato com diferentes realidades. Juntamente com esse movimento inicia-se um processo de aprendizagem no qual teremos que entrar e sair de muitas cavernas, e de adaptar a visão a todos os tipos de espectros luminosos (Platão, 1982: 26-30).

O que se defende aqui é a ideia de reivindicar o movimento como a única forma de conhecimento no nosso atual contexto sociocultural.

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2. A Viagem Para Ítaca

                                                            “Quando você começar sua viagem a Ithaca, peça que o caminho seja longo”

 (Cavafis, 1999: 112)

O que é que motiva cada uma das nossas ausências e trajetórias? É a incerteza, a rotina, o desconforto, o tédio, …? Muitas vezes nos perguntamos o que nos leva a passar para o ponto B quando deveríamos nos questionar por que deixamos o ponto A.

Em cada entrada encontramos família, amigos, amor. Em cada saída, novidades e incertezas. Para muitos, é precisamente dessa oscilação que surge o verdadeiro equilíbrio; a existência é enriquecida com cada ausência.

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3. Trajetórias sem direção.

“No passado, o neurastênico foi aconselhado a viajar para esquecer. Viajar aliviou a tentação do suicídio, opondo-se a um substituto: a pequena morte das partidas ” 

(Virilio, 1988:74)

O que acontece quando todas essas ausências e trajetórias não são apoiadas por nenhum objetivo aparente? Muitas vezes estamos imersos num movimento constante, sem saber realmente para onde estamos a ir.

Nesse caso, o movimento, mais do que um deslocamento intencional, torna-se uma corrente que nos arrasta a lugares recônditos e inesperados, quase sem tempo nem ferramentas para entender o que nos levou até lá.

3.1 Movimento como lazer:

No seu livro, A Sociedade do Espetáculo (Debord, 2010), Debord constróir a sua reflexão sobre o conceito da mercantilização da experiência humana. Hoje em dia qualquer experiência é suscetível de ser monetarizada e, consequentemente, de produzir um benefício económico. O movimento é mais um dentro de todas essas experiências.

Para contextualizar essa ideia, recorro às palavras de José Luis Pardo no seu prólogo da edição espanhola deste livro: “As cidades começam a tornar-se desertos inabitáveis e habitadas por fantasmas. Dentro dessas urbanizações, vizinhanças e, às vezes, habitações simplesmente privadas, o neocamponês pós-industrial é mantido em segurança conectando-se a um espaço global intangível e – no sentido Debordiano do termo – ‘espetacular'” (Debord, 2010: 29)

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que as vidas dos chamados neo-camponeses pós-industriais tendem a ser cada vez mais estáticas e sedentárias, a ideia de deslocamento é usada com cada vez mais frequência. Viajar torna-se uma espécie de obrigação e até um direito adquirido. Essas trajetórias impulsionadas por interesses externos a si mesmas correm o risco de se tornarem movimentos vazios e sem propósito.

3.2 Movimento como negócio:

No mundo do management e da gestão emocional, a ideia de viver surfando as ondas é muito bem sucedida (Gracés, 2017: 127-132)infelizmente, essa visão idealizada frequentemente se afasta da realidade. Talvez a imagem que mais se assemelha à ideia de movimento no contexto laboral seja a de um barquinho de papel em constante deriva.

A imagem do empreendedor funciona como um arquétipo recorrente quando se fala em adaptabilidade e dinamismo do trabalho. A falsa cultura do empreendedorismo e a ideia do homem que se fez sozinho são apenas mais uma face visível do conceito popularizado pelo economista austríaco Schumpeter: a destruição criativa. (De la Corte, 2015).

Esta teoria defende a ideia de que, para criar, é necessário primeiro destruir. O seja, para gerar valor dentro de uma economia de mercado, novos produtos devem destruir os antigos, e a dinâmica dos novos modelos económicos deve terminar com os já estabelecidos. Descobrimos que essa ideia de surfar as ondas é um movimento voraz e agressivo, alimentado pela incerteza e pela instabilidade(Gracés, 2017: 127-132).. Diante disso, a única coisa que podemos fazer é nos adaptar e tentar evitá-lo da melhor maneira possível.

Como diz Gracés, devemos percorrer o espaço neutro do mercado de oportunidades, sempre tendo em mente uma possibilidade de resistência nómada, mas não arbitrária (Idem, 2017: 127-132).

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4. Princípio da Incerteza

“Quanto mais conhecemos a posição, mais ela parece agir como uma partícula. Alternativamente, se soubermos muito bem o movimento ou a velocidade … sua posição se torna difusa como uma onda. Um ponto de vista diferente sobre a dualidade, mas ainda assim, um fato paradoxal da vida.”[1]

(Jones, 1992:160-161)

Num contexto de movimento constante, os objetos são substituídos pelas suas trajetórias (Virilio, 1975:43); nós mesmos nos tornamos numa delas. Surge assim a ideia de construir uma existência baseada em não sernão estar, e formar uma identidade apenas definida por uma sucessão de deslocamentos.

O princípio da incerteza enunciado por Heisenberg, em 1927 afirma o seguinte: “é impossível determinar simultaneamente e com precisão absoluta o valor da posição e a quantidade de movimento de uma partícula.”

Isto é, existem pares de magnitudes físicas que não podem ser determinadas com precisão total dentro da mesma medida ja que qualquer elemento se comporta ao mesmo tempo que uma partícula e uma onda. A dualidade do objeto e sua trajetóriauma dualidade apresenta uma abordagem paradoxal quando tentamos definir a natureza de um elemento e até mesmo nossa própria identidade.

Tal como acontece com a incerteza das partículas de Heisenberg, uma das consequências da deslocalização constante e das flutuações permanentes de um objeto é a sua perda de identidade.

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5. O paradoxo do objeto vs. trajetória

“A inteligência é uma coisa terrível, tende a morte como estabilidade à memória. O vivo, o que é absolutamente instável é individual, é ininteligível. (…) A mente procura o que está morto, pois o que está vivo Ihe escapa. Para analisar um corpo, ele deve ser reduzido ou destruído. Para entender alguma coisa, você tem que matá-la.”[2]

 (Unamuno, 1912:94)

Paradoxalmente, quanto mais sabemos sobre a natureza de um objeto, maior é a distância da sua posição atual no tempo. Quanto melhor sabemos sua trajetória ou quantidade de movimento, maior é a ignorância sobre sua natureza ou posição original.

Temos uma dicotomia principal sobre a qual construímos esse argumento; a dualidade objeto-trajetória como elemento principal para a construção de uma identidade e como o principal motor do nosso processo de aprendizagem.

De acordo com Donna Haraway (Haraway, 1984), há infinidade de dualismos em constante competição. Essa dialética estabelece relações paradoxais de dominação que funcionam como a base sobre a qual construímos as nossas visões da realidade e do nosso conhecimento. As nossas vidas são sempre ameaçadas por um binarismo agudo (Kittler, 1999: 1-19). Para enunciar alguns dos mais importantes: eu / outro, mente / corpo, realidade / aparência, ativo / inativo, conectado / desconectado, bom / ruim , verdade / ilusão, total / parcial o Deus / homem.

Para a autora do Cyborg Manifesto (Idem, 1984), a cultura da alta tecnologia rejeita esses postulados e ajuda a desafiar esses dualismos que, articulados de maneira coerente, nos podem ajudar a adquirir uma compreensão mais global e menos tendenciosa de tudo ao nosso redor.

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Conclusão

Para muitas pessoas da minha geração, a mobilidade foi reforçada pela incerteza. Num ambiente em constante mudança, onde os ciclos economicos e sociais se estão a tornar cada vez mais frenéticos, a ideia de encontrar estabilidade ou tentar visualizar o que pode acontecer nos próximos anos é difícil ou até mesmo ingenua. Ontem a incerteza foi causada pela crise económica, mas amanhã pode surgir como resultado de uma crise humanitária, tecnológica ou ambiental.

Podemos dizer que, num ambiente em constante movimento, onde as mudanças de paradigma ocorrem de forma frenética, a única maneira de adquirir aprendizagem e entendimento verdadeiros sobre o que define o aquilo que somos, é tornarmo-nos também uma trajetória. Ou sejae, é ão observar o sistema a partir do exterior se não nos integrarmos nele, mas antes tornarmo-nos parte dessa dinâmica e adaptarmo-nos ao seu constante movimento.

A aprendizagem é sempre um deslocamento que nos permite converter esse movimento numa trajetória sinótica. Modificar o nosso ponto de vista e descobrir o que, de certo modo não estava à vista antes (Virilio, 1988: 125). Ou seja, contemplar a nossa própria realidade, não apenas de uma perspectiva única, mas de uma infinidade delas. 

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[1]Traduçao livre de: “The better you know the position… the more it seems to act like a particle. Alternatively, if you know the motion or speed very well… its position becomes diffuse like a wave. A different point of view on duality but still …a paradoxical fact of life.”

[2]Traduçao livre de: “Es una cosa terrible la inteligencia. Tiende a la muerte como la estabilidad a la memoria. Lo vivo, lo que es absolutamente inestable, lo absolutamente individual, es en rigor, ininteligible. (…) La mente busca lo muerto, pues lo vivo se le escapa. Para analizar un cuerpo hay que menguarlo o destruirlo. Para comprender algo hay que matarlo.”

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Referências:

Cavafis, Constantino. (1999).“Antología poética: Itaca”. Madrid: Alianza. ISBN: 978-84-9181-060-5

Camus, Albert. (2017). “El hombre rebelde”.Madrid: Alianza. ISBN: 978-84-206-7646-2. (p.23)

Debord, Guy. 2010). “La Sociedad del Espectáculo”.(Madrid: Pre-Textos. (p. 29)


De la Corte, Jacobo. (2015) “Schumpeter y la destrucción de instituciones por los innovadores”. Madrid: Universidad Pontificia ICAI-ICADE. Consultado em URL:https://repositorio.comillas.edu/rest/bitstreams/7354/retrieve

Diccionario filosófico abreviado. (1959). 126-128. Consultado em URL: http://www.filosofia.org/enc/ros/dia.htm

Encyclopedia Britannica. (2019). Uncertainty Principle. Consultado em URL: 

https://www.britannica.com/science/uncertainty-principle

Garcés, Marina (2018). Ciutat Princesa. Barcelona: Galaxia Gutenberg. ISBN: 9788417088880

Haraway, Donna. (1984) “Manifesto Ciborg” Consultado em URL: https://xenero.webs.uvigo.es/profesorado/beatriz_suarez/ciborg.pdf 

Jones, Roger S. (1992).“Physics for the Rest of Us“. Mc-Graw-Hill. ISBN: 978-0809237166

(160-161).

Kittler, Friedrich. (1999). “Gramophone, Film, Typewriter”. Stanford

Stanford University Press. (p. 1-19)

Lyotard, Jean-François. (2006). “La Condición Postmoderna”. Madrid: Cátedra. ISBN: 9788437604664

Platão. (1982). “República Vll”; 514a-517c y 518b-d. R. Verneaux, Textos de los grandes filósofos. Edad antigua. Barcelona: Herder. (p. 26-30).

Principio de indeterminación de Heisenberg. Consultado em URL: http://www.eis.uva.es/~qgintro/atom/tutorial-10.html 

Virilio, Paul. (1975). ““Véhiculaire”, en Nomades et vagabonds”.10-18, pág. 43: sobre la aparición de la linealidad y las alteraciones de la percepción debidas a la velocidad. 

Virilio, Paul. (1988). “Estética de la desaparición”.Barcelona. Anagrama. ISBN: 84-334-0092-7 

Unamuno, Miguel de. (1912) “Del Sentimiento trágico del a vida”. Consultado em URL: http://portalentretextos.com.br/download/livros-online/unamuno.pdf


Ausências e Trajetórias

“Durante o café da manhã, as ausências são frequentes, e a taça virada sobre a mesa é uma consequência bem conhecida. A ausência dura alguns segundos, começa e termina inesperadamente (…) Como o retorno é tão imediato como a partida, a fala e os gestos parados são retomados onde foram interrompidos, o tempo consciente é automaticamente soldado em uma continuidade sem cortes aparentes, o tempo ausente nunca existiu.[1]”

Paul Virilio. The Aesthetics of Disappearance

Entre cada saída de um lugar e a entrada para outro, o objeto se torna uma mera trajetória; um vetor de movimento que é transportado do ponto A para o ponto B. O que acontece nesse processo, longe de ser um deslocamento linear, torna-se uma oscilação imprevisível sobre a qual intervêm inúmeras variáveis.

Entre cada entrada para um lugar e a saída dele, a ausência aparece. Diante do caráter estático do que nos rodeia, o movimento é transferido para o interior do objeto. É agora que tentamos soldar o tempo consciente retomando a palavra e o gesto onde eles foram parados. Assim começa um processo de adaptação interna através da análise e decodificação do novo ambiente.

Entrar e sair é um estado de movimento constante; uma transição contínua.[2] Uma sucessão de ausências e trajetórias que definem nossa identidade, constituem uma grande parte de nosso processo de aprendizagem e reafirmam nossa existência dentro de um estado de mudança permanente.

Nas palavras de Virilio, o tempo consciente é conformado a uma continuidade sem cortes aparentes, enquanto o tempo ausente nunca existiu.

A ideia de entrar e sair não deixa de ser uma alegoria recorrente. O texto de Garcés poderia ser interpretado como uma nova adaptação pós-moderna [3] do mito da caverna [4].

No nosso caso, não falamos de uma única caverna, se não de muitas. Se tentarmos aplicar este princípio em menor escala e recorrentemente, descobrimos que não existe uma única realidade, mas uma infinidade de pequenos fragmentos dela, nos quais flutuamos constantemente. Nas palavras de Camus; “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.”[5] Nesse processo de negação ou rebelião, surge o movimento; e com ele a libertação.

O que motiva cada uma das nossas ausências e trajetórias? É a incerteza, a rotina, o desconforto, a ignorância, o tédio …?
O que acontece quando estes não são apoiados por nenhum propósito aparente?
Onde, então, reside o propósito desse movimento?

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Referências bibliográficas:

[1] VIRILIO, Paul. (1988) Estética de la desaparición. Barcelona. Editorial Anagrama. 1988. ISBN: 84-334-0092-7

[2] GARCES, Mariana. Tomar la palabra. Entrar y salir.

[3] LYOTARD, Jean-François (1991) La condición posmoderna. Argentina: Cátedra

[4] Platón, República Vll; 514a-517c y 518b-d. (R. Verneaux, Textos de los grandes filósofos. Edad antigua, Herder, Barcelona 1982, p. 26-30).

[5] CAMUS; Albert. (2013) El hombre rebelde. Madrid. Alianza editorial. ISBN: 9788420676562

Do design crítico ao design acelerativo

Vamos contextualizar brevemente. Dunne & Raby crearam o termo Critical Design em meados dos anos 90.

Como o próprio Dunne admite [1] , o design crítico é um conceito que produz reminiscências da teoria crítica da escola de Frankfurt; uma corrente de pensamento construída sobre as bases teóricas de Marx, Hegel e Freud que se popularizaram nos anos 60; Três décadas antes de Dunne a colocar no campo do design.

As abordagens do Critical Design também poderiam nos lembrar da visão situacionista [2] do artista como a pessoa responsável por gerar situações que permitam ao usuário refletir e se tornar consciente, usando a cultura como ferramenta para criar uma consciência crítica. Essa abordagem surgiu no contexto de 68 de maio, ou seja, vinte anos antes de Dunne & Raby nos iluminar com sua ideia de design crítico.

Devemos assumir que o design leva um atraso conceitual de duas ou três décadas em relação às correntes de pensamento?

É verdade que a tradição do design esteve intimamente ligada à dinâmica do mercado, o que nos fez assumir sua dependência. O fato de construir uma tradição independente e uma consciência crítica pode ter sido mais difícil do que em outras disciplinas. [3]

O Critical Design surge com o objetivo de alcançar essa emancipação. Sob a premissa central de usar o design como uma ferramenta para reflexão, análise e especulação em torno de diferentes preocupações sociais, políticas ou culturais. Sua finalidade é questionar ou desafiar o status em vez de reafirmarlo.

Até aí tudo bem. Qual é o problema então? Do meu ponto de vista, a visão do design crítico e de todos os seus derivados é utópica, idealista e até certo ponto ingênua. Por quê? Abaixo estão uma série de pontos que sustentam essa hipótese:

  • O design crítico é baseado na ideia de que a criação de objetos fará com que o usuário reflita até criar uma consciência que ajude ele a fugir da dinâmica negativa do sistema. Isso é difícil, considerando que o escopo desses objetos é pequeno, o que raramente transcende as barreiras do meramente anedótico.
  • O design crítico, como muitas outras disciplinas artísticas, filosóficas e acadêmicas, funciona como um ecossistema relativamente endogâmico e fechado. Como Francisco Laranjo afirma, “há uma tendência de coletar e repetir nomes familiares que moldam um cânon auto-referencial que se valida automaticamente”. [4]
  • O design crítico especula sobre questões sociais, políticas e culturais, produzindo obras que questionam e desafiam a dinâmica do mercado [5] , mas que raramente alteram qualquer de elas.
  • No caso específico do design gráfico ou design de comunicação, esta é uma disciplina que é muitas vezes considerada irrelevante e inócua pelo resto da sociedade. Infelizmente, nosso campo de trabalho não é tão substancial e significativo quanto nos estimamos.

Portanto, e sem querer generalizar, podemos dizer que o design crítico geralmente corre o risco de se tornar uma prática estática e analítica com um escopo limitado. A ideia de analisar, observar e refletir é essencial, mas não é suficiente.

Como aponta Manovich em um de seus textos [6] , hoje há uma saturação excessiva de artigos, pesquisas e estudos que orbitam em torno de temas recorrentes e cuja utilidade é questionável além da mera curiosidade hermenêutica o puramente acadêmica.

Se voltarmos à filosofia como uma estrutura de referência sobre a qual construir uma prática de design mais eficiente, o que é proposto aqui é atualizar as bases e passar de um design crítico para um design acererativo.

O aceleracionismo como corrente de pensamento defende a necessidade de acelerar os processos inerentes ao sistema capitalista, a fim de empurrá-lo além de seus próprios limites.

A principal questão sobre a qual esta ideia gira é: Como tornar as forças produtivas cativas sob a ideologia neoliberal em uma plataforma de lançamento para um futuro pós-capitalista? É possível conceber novos desenvolvimentos tecnológicos, como inteligência artificial, biotecnologia e dinheiro virtual, como algo mais do que meios otimizados para a produção de desempenho econômico? [7]

O design acelerativo visa adaptar-se a essa abordagem. Mudar da idéia de pesquisa e exploração para a de experimentação e prática. Aplicar a toda essa consciência crítica um grau maior de pragmatismo.

O design acelerativo funciona como um hacker cujo vetor de movimento aproveita os recursos que o sistema oferece para reutilizá-los em benefício próprio. Um benefício humano e ético que nos permite recuperar o controle sobre nosso destino como espécie.

Redirecionar o potencial cognitivo individual e afastá-lo das dinâmicas libidinais auto-estimulantes que governam os mecanismos do mercado. Criar objetos que vão além da mera reflexão. Objetos que podem ser integrados no cotidiano.

A conclusão é simples: acelerar e estressar o sistema. Usar as possibilidades do sistema para nosso próprio benefício, e “estressar” todos os processos que consideramos negativos até que entrem em colapso.

É inegável que existe uma visão emancipatória dentro desse processo sócio-tecnológico, agora é nossa tarefa descobrir como alcançá-lo.

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Notas

[1] Puolakka, Anni; Sutela, Jenna. Dreaming Objects. Entrevista a Anthony Dunne. https://mycourses.aalto.fi/pluginfile.php/43798/course/section/52553/ok_do_dreaming_objects.pdf

[2] Debord, Guy. La Sociedad del Espectáculo. Ed. Pre-Textos.

[3] Van der Velden, Daniel. (2006). “Research & Destroy – A Plea for Design as Research” Metropolis M #2

[4] Laranjo, Francisco. Critical of What. April16, 2014 https://designobserver.com/feature/critical-graphic-design-critical-of-what/38416/

[5] Laranjo, Francisco. Critical Everything. August 4, 2015 http://modesofcriticism.org/critical-everything/

[6] [Manovich, Lev. Automating Aesthetics: Artificial Intelligence and Image Culture. http://manovich.net/index.php/projects/automating-aesthetics-artificial-intelligence-and-image-culture

[7] Avanessian , Armen; Reis, Mauro Reis. Aceleracionismo. Estrategias para una transición hacia el postcapitalismo. Caja Negra Editorial.

Kafka was the first Adhocracer

 

¿Adhocracia?

À primeira vista, poderíamos pensar que estamos diante de outro termo abstrato, agenho para a maioria e (a priori) carente de significado.

Um neologismo cuja finalidade principal poderia ser chamar a atenção de um leitor indefeso e inquieto em busca de novos conceitos que o ajudem a entender sua existência insignificante. Ou o que é o mesmo, em busca de sua posição relativa dentro de um sistema de engrenagens perfeitamente articulado em que qualquer tentativa de fuga é impossível.

Em uma das definições que Grima [1] nos mostra em seu texto, é descrita da seguinte forma:

«A adhocracia é uma tentativa de tecer um fio crítico através
dessa multidão rizomática de ideias, objetos e fenómenos; procura
interrogá-los, problematizá-los e interpretá-los. Os seus conteúdos
são amplamente retirados da vida quotidiana, do ar que já respiramos
como cidadãos do século XXI.»

O conceito de Rizoma é recorrente e pode ser familiar quando pensamos no ensaio homônimo de G. Deleuze e F. Guatari [2]. Coincidentemente, nos parágrafos introdutórios deste texto, podemos ler o seguinte:

«Fomos criticados por invocar muito freqüentemente literatos. Mas a única questão, quando se escreve, é saber com que outra máquina a máquina literária pode estar ligada, e deve ser ligada, para funcionar. Kleist e uma louca máquina de guerra, Kafka e uma máquina burocrática inaudita…»

Kafka; a máquina burocrática. Em seu livro “O Processo” [3], o protagonista Joseph K. usa toda a sua energia vital para provar sua inocência diante de uma acusação desconhecida. Encontramos nessa história o análise lúcido e a compreensão milimétrica da dinâmica de um sistema burocrático que funciona como uma extensão de um ser humano estereotipado, padronizado e preso em um emaranhado de movimentos absurdos.

Robert H. Waterman Jr., em seu culto à eficiência corporativa, via a burocracia como inimiga do progresso e da inovação.

J. Grima nos conta que os coletivos de arquitetos e urbanistas após a Segunda Guerra Mundial, também encontraram nessa repetição tipológica a principal causa da padronização dos modelos arquitetônicos e consequentemente do estilo de vida.

Por outro lado, Kafka ofereceu uma imagem da burocracia como um repressor passivo, um inimigo da eficiência individual e da existência humana.

Se, como o texto afirma, nós entendemos a Adhocracia como qualquer forma de organização que cruze as linhas burocráticas para capturar oportunidades, resolver problemas e obter resultados, poderíamos dizer que Kafka conhecia esse lugar com perfeição.

Kafka foi o primeiro Adhocracer. Ele conhecia os cantos mais remotos do sistema e cada um de seus recantos. Ele sabia como se mover e deslizar sutilmente ao ritmo da uma dinâmica lenta e soporífera com o único propósito de sobreviver … se adaptar e sobreviver.

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[1] Grima, Joseph (2012). A Brief History of Adhocracy. In Adhocracy. Istanbul: IKSV.

[2] Delleuze, Gilles; Guattari, Félix. (1977).Introdução: Rizoma . Texto extraído de Mil Platôs (Capitalismo e Esquizofrenia) Vol. 1. Editora 34. Lisboa.

[3] Kafka, Franz. El Proceso. (1980) ISBN 84-7166-475. EDAF Ediciones y Distribuciones S.A. Madrid

 

Escolha a vida!

«Escolha a vida, escolha um emprego, escolha uma carreira, escolha uma família. Escolha uma grande TV … »

Lembre-se de Trainspotting? O filme nos cativou com um discurso transgressivo; nos convidou a abraçar o niilismo, a busca do prazer imediato e a autodestruição como a única alternativa a um sistema voraz que consumia nossas existências mundanas.

20 anos depois, como se fosse um software, a sequela desse mesmo filme nos ofereceu uma versão atualizada do mesmo discurso:

«Escolha a vida. Escolha o Facebook, Twitter, Instagram e reze para que alguém em algum lugar se importe … »

E isso é certamente verdade, há alguém em algum lugar que se importa e muito.

O Samsara, (ciclo de reencarnações budistas) já é história; Agora você não precisa esperar pela sua próxima vida para reunir os frutos que você semeia durante a sua existência.

Seja gentil, cumprimente seus vizinhos, seja educado, e com um pouco de sorte você terá um Green Channel que lhe permite viajar, um bom serviço sanitário e um ótimo trabalho.

Existem várias referências que podem orbitar em perfeita harmonia com a iniciativa distópica que o governo chinês pretende realizar.

Foucault na sua biopolítica, falou de que as novas formas de poder impõem normas a nós sem que tenhamos consciência disso, cuja intenção não é mais subtrair a vida, mas produzi-la, regulá-la, torná-la eficiente.

O Panóptico Digital de Byung Chul Han usa a mesma ideia, dando-lhe a estrutura arquetípica da arquitetura da prisão.

Os irmãos Wachowski; já em 1999 previam o futuro da existência humana como mera fonte de energia a serviço das supra estruturas de um sistema hiper-tecnológico.

Longe da visão orwelliana, em que o sistema parecia obedecer às ordens de uma elite maquiavélica desprovida de escrúpulos e sedenta de poder, o que propomos aqui está mais próximo da ideia de um demiurgo sem cabeça. Um organismo vivo que vagueia pelas ruas das nossas cidades e que pouco a pouco acabará sendo instalado em cada uma de nossas cabeças.

Será que o hedonismo autodestrutivo e a lisergia imediata (como Mark Renton, Sick Boy, Spud e Tommy propõem) são a solução mais sensata?

 

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