Dark Patterns e os Labirintos da Desinformação

Segundo John Brownlee  (Fast Co. Design)Dark Patterns são decisões deliberadas de UI / UX  que procuram explorar a psicologia humana para fazer com que os usuários tomem decisões baseadas em armadilhas, imprevistos ou desinformação. Cunhado por Harry Brignull em 2010, o termo surge em um contexto marcado pelo boom das indústrias de comércio eletrônico. Visando aumentar o volume de vendas, obter assinaturas, coletar informações pessoais e etc., empresas associaram-se a designers para criar interfaces com o objetivo expresso de manipular os usuários de suas plataformas online.

Em termos gerais, este artigo pretende examinar tais “padrões escuros” de modo a destacar os problemas e questões éticas que acompanham a prática, bem como defender o papel do designers como agente facilitador e criador de transparência, e não de opacidade e manipulação.

Quando usamos a internet, normalmente não lemos cada palavra em cada página. Ao invés disso, fazemos leituras rápidas e assumimos resultados baseados em experiências prévias. Sabendo deste padrão, empresas aproveitam-se de convenções gerais para criar páginas, janelas e formulários que parecem indicar algo, enquanto na verdade nos levam a um caminho inesperado, ou ainda tornar mais difíceis – ou quase impossíveis – a tomada de decisões que não se alinhem aos seus interesses – como deletar uma conta ou cancelar um serviço.

Brignull, enumera em seu site as diferentes estratégias empregadas por uma enorme quantidade de empresas, incluindo gigantes como Microsoft, Facebook e Amazon. Estas técnicas incluem propagandas disfarçadas, botões que não levam ao destino previsto pelo usuário, percursos labirínticos, entre outros. A lista aponta estratégias como Bait and Switch, Forced Continuity, Hidden Costs, Misdirection, Price Comparison Prevention, Privacy Zuckering, Trick Questions e etc..

Grandes companhias fazem uso destes padrões sabendo que estão agindo no limite da ética e da legalidade. Em certos ocasiões, no entanto, essa fronteira é ultrapassada – como pudemos observar no caso de 2015 envolvendo o Linkedin. Através de uma sequência de páginas que faziam uso de Dark Patterns, a empresa obtinha acesso aos contatos de email do usuário e conseguia enviar diversas mensagens em nome dessas pessoas, com convites para se unir ao site. Este era o procedimento padrão da empresa, que passou a enviar ainda várias mensagens de follow up para aqueles que não aceitavam os convites. Muitos sentiram-se prejudicadas já que a enxurrada de emails enviadas em seu nome incomodavam os recipientes causando danos a suas reputações profissionais. A plataforma foi processada legalmente e, mesmo negando ter cometido qualquer erro, fechou um acordo de 13 milhões de dólares – o que não resultou em mais do que dez dólares para cada usuário.

Também pudemos notar uma aumento significativo no uso de Dark Patterns após a implementação de novas regulamentações referentes ao uso de cookies e acesso a informações pessoais. Atualmente, as plataformas online devem por lei pedir a autorização do usuário para que se acessem suas informações. Porém, a vasta maioria dos sites facilita apenas uma opção: aceitar integralmente a política previamente determinada, mesmo que o usuário sequer saiba o que isso significa. Se perguntados de forma direta e objetiva se gostariam de compartilhar suas informações, muitas pessoas certamente negariam, mas os banners e formulários que incluem as opções de privacidade são desenhados de forma que seja sempre mais fácil e mais intuitivo optar pela política mais invasiva – que mais beneficia as empresas. Os banners tomam conta da tela obrigando o utilizador a clicar em “aceitar” ou gastar tempo e energia buscando mais informações, ao invés de cumprir seu real objetivo ao acessar o site. Os botões e links para opções menos invasivas estão sempre escondidos, ou chamam menos atenção do que os para simplesmente aceitar. É quase certo que o usuário não vai entrar no labirinto em busca de garantir sua privacidade, e esta é uma escolha premeditada.

É importante estarmos cientes destes subterfúgios do design, tanto como usuários quanto como profissionais da área. Estes padrões vão contra princípios celebrados no design, que buscam desenvolver experiências fluidas e agradáveis, pensando no melhor aproveitamento do usuário. É preciso ter em mente que estamos interagindo com pessoas, e buscar relações humanas e éticas. Como usuários, precisamos estar atentos, denunciar empresas que usam o design de forma desonesta, e exigir que medidas sejam tomadas. Como designers, precisamos mostrar nosso desacordo e deixar de contribuir com a produção desse tipos de relação. Afinal, o design é também um lugar político.

Caio Guedes

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