Punk rock design

Abelhas-robôs, lentes que gravam a visualização humana, memórias cerebrais públicas,  mortos ressuscitados em máquinas e até a construção de paraísos artificiais, Black Mirror é um das mais bem sucedidas séries de TV que aborda a forma com que invenções tecnológicas avançadas, inseridas em realidades alternativas, impactam a sociedade. Os artefatos apresentados na série, ainda longe de serem acessíveis para a humanidade, são factíveis e facilmente absorvidos pelo espectador, pois além de se conectarem de maneira mais estreita com os desejos e medos do humano pós-moderno, revelam também todo o potencial do exercício especulativo em testar e articular realidades alternativas.

A dupla de designers, Anthony Dunne e Fiona Raby, definem que o design especulativo se apoia na concepção de futuros possíveis com base em fracos sinais do presente, o que acaba por colocar em cheque toda e qualquer especulação que se materialize em artefatos oriundos de frágeis tendências emergentes, inseridas em contextos pré-existentes, e que representam de maneira mais ou menos clara, fortes interesses comerciais. Dessa forma, o exercício especulativo só seria eficiente se sua prática estiver focada na re-imaginação de futuros possíveis.

No cenário de problemas globais eminentes, como crises financeiras, super-populações e grandes mudanças climáticas, frutos de uma total saturação do modelo capitalista do século XX, Dunne e Raby postulam que ao se tomar a real dimensão desses desafios e verificar a inviabilidade de continuarmos no mesmo curso, não devemos transformar sonhos em meras esperanças de um futuro melhor, e sim, devemos explorar alternativas que se apoiam em ressignificar valores, materializando propostas que se apresentam como alternativas positivas, ou até negativas, ao que se pretende criticar. Ao instigar a reflexão e debate em favor de um pensamento mais ideológico, que confronta sobre como e onde nossos desejos estão centrados e sobre como gostaríamos que a vida fosse conduzida, o design especulativo encontra então terreno mais fértil para se desenvolver como disciplina, pois utiliza alternativas legítimas a partir daquilo que está fora do sistema vigente.

É notório que os sonhos modernistas do passado gradualmente se mostraram inviáveis face às crises e transformações globais atuais. A comunhão desses fatores com o crescente potencial de compartilhamento de informação e a democratização das tecnologias, faz com que diferentes abordagens possam ser aplicadas na busca por caminhos alternativos. É nesse contexto que o design crítico ganha ainda maior relevância, pois além de confrontar o status quo, permite a desconstrução da ideia do design centrado na satisfação do usuário pré-condicionado e pré-conformado com suas realidades de consumo pré-existentes.

Nesse sentido, Vinca Kruk e Daniel van der Velden do studio Metahaven, postulam que o design especulativo empreende buscas por conhecimentos “avançados”, onde a prática só pode ser conduzida em espaços geradores de debate políticos e sociais profundos, distantes de causas emergentes que colocam designers como verdadeiros bombeiros de crises e/ou guardiões de boas moralidades. Moralidades essas que a dupla aponta como repleta de contradições, fruto de visões viciadas e ultrapassadas do designer como um agente eficiente do “bem” comum. Assim, a dupla afirma que o design crítico não deveria gerar reações ao contra-estabelecido, e sim propor algo novo como contra-cultura, ao exemplo do que foi o punk rock enquanto gênero que realmente trouxe espaços inovadores para o rock e para a própria música.

Um bom exemplo é o que o studio apresenta em The Sprawl – propaganda about propaganda (2015): uma instalação multi-canais que revela as maneiras pelas quais uma fantasia pode ser projetada de modo a parecer ou ser sentida como uma verdade. Nesse projeto existe a clara intenção de fazer a política progressista re-imaginar sua própria estrutra de atuação como ponto de partida para uma possível mudança. E isso, sem juízo de valor, se trata também de repensar a própria propaganda política em si.

 

SONIC ACTS FESTIVAL 2017 Metahaven – Recent Hystory (The Sprawl Continues)

 

Assim, a proposta do design especulativo não é gerar mais uma utopia tecnocrata, e sim propor uma contra-cultura imaginativa, consciente de suas armadilhas, e que procurar criar profecias vivas para os tempos que vivemos. É nesse contexto que o sonhar e o fazer dos músicos se afirma como poderosa atitude possível para os designers, pois dentro das palavras de Patti Smith: “I don’t fuck much with the past but I fuck plenty with the future.”

_Fabio De Almeida

Referências Bibliográficas

[1] Metahaven. (2011). “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa. pp. 257-271. https://tinyurl.com/SpeculativeDesign

[2] Van der Velden, Daniel. (2006). “Research & Destroy – A Plea for Design as Research” Metropolis M #2. Disponível em: http://bit.ly/YLIRx1

[3] “AutoReply: Modernism: A conversation with Experimental Jetset” Print, Outubro 2011. Disponível em: http://bit.ly/oDuDwn

[4] The Relationship between design and populist politics. 2009. By Gabrielle Kennedy. http://design.nl/item/the_relationship_between_design_and_populist_politics

 

Imagem: Black-Mirror TV Serie, 2018. Bandersnatch episode. 

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