Fixing dreams

Artigo completo submetido a 9 de junho de 2019.

Resumo: 

Inteligência Artificial já não reside nos terrenos da ficção. Não restam dúvidas que cada vez mais os prognósticos feitos em torno de seu impacto nas dinâmicas das sociedades começam a ganhar forma em questões emergentes, uma vez que sua presença em todos os aspectos da vida dos humanos parece inevitável. Face ao cenário que se apresenta, é extremamente oportuna a reflexão de como produtos e serviços que já incorporam sistemas de machine learning estão sendo construídos por códigos carregados de vieses humanos, que para o bem ou para o mal, acabam por colocar programadores e designers no epicentro de desafios turbulentos.

Palavras chave: inteligência artificial, “bias”, género, raça.

We live in a dream world created by the machines / Where we are all connected / And we are all free / Even in love / But the machines brought with them another idea / That we are all components in systems / Nodes in a global network / We dreamed the systems could stabilize themselves / Through feedback / And create a perfect balance / In nature’s ecosystems / And in human society / And in capitalism / Without politics and the old hierarchies of power / But power hasn’t gone away / It never does

Richard Brautigan (1967)

 

Introdução

No século XVII,  o poeta metafísico e pregador John Donne afirma em Meditação 17 que  “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra.” Esse trecho, além de servir de inspiração para o romance de Ernest Hemingway, “Por Quem os Sinos Dobram” (1940), nos convida a uma reflexão sobre a condição humana, não só como uma espécie cuja sociabilidade é inerente a sua sobrevivência, mas sobre a sua origem, transformação e evolução no mundo. Assim, podemos dizer que as conquistas tecnológicas se apresentam como reflexos da relação estreita da humanidade com o ambiente, e mais importante, do humano consigo mesmo e com o divino. Em 1956, John McCarthy, numa conferência de especialistas celebrada em Darmouth Colege, cunhou o termo “inteligência artificial” para definir “a ciência e engenharia de produzir máquinas inteligentes”, que de uma maneira simplista, possuem como objetivo principal executar funções humanas como a capacidade de raciocinar, aprender, reconhecer padrões e fazer inferências.

Alan Turing, considerado o grande desbravador da área, foi um dos primeiros a vislumbrar a realidade de convivermos em sociedade com agentes inteligentes, que assim como os humanos, são capazes de perceber seu ambiente e tomar atitudes que maximizam suas chances de sucesso. Turing foi uma vítima do seu tempo. No início dos anos 50, sua condenação por homossexualismo e seu suicídio aos 41 anos, acabaram por privar a humanidade de possíveis contribuições significativas. Fato interessante é que o autor britânico, Ian McEwan, recentemente em seu livro “Machines Like Me” (2019), cria uma realidade alternativa, onde numa Londres fictícia da década de 80, “humanos-artificiais” se relacionam com a sociedade em suposta harmonia. Só que nessa trama, Turing estaria vivo e sua contribuição favoreceria grandes transformações sociais. Honrarias a parte, é nesse contexto que o autor, ao trabalhar a trama em torno de um possível triângulo amoroso entre Charlie, Miranda e o “humano-artifical” Adam, levanta um questionamento válido e possivelmente assombroso: se máquinas inteligentes conseguissem olhar profundamente para as almas e corações dos humanos, será que elas gostariam, aprovariam ou se afeiçoariam por tudo aquilo que observam?

1. O crescimento exponencial de agentes inteligentes

Em 2017, a internet registrou cerca de 3,8 bilhões de usuários, mostrando que 51,7% da população do planeta está online. 2,8 bilhões estão nas redes sociais e 4,9 bilhões já incorporaram telemóveis em suas vidas. Vivemos uma era de evolução tecnológica sem precedentes na historia. Para se ter uma noção da dimensão dessa transformação, 90% dos dados gerados por toda humanidade aconteceu nos últimos 2 anos e tão logo em 2020, cada indivíduo do planeta gerará cerca de 1,7 megabytes de nova informação por segundo. Esses números são tão expressivos que não é difícil compreender os motivos pelos quais grandes volumes de dados são considerados o novo ouro, o ingrediente central para treinamento dos algoritmos que compõe a essência dos sistemas de inteligência artificial atuais.

Esse expressivo aumento de dados, muitos deles gerados pelo crescimento das plataformas sociais e serviços web, faz com que ferramentas robustas de processamento de dados aliadas a uma série de algoritmos inteligentes, permitem que máquinas aprendam cada vez mais rápido e cada vez melhor sobre interesses e interações humanas. Assim, podemos concluir que os agentes de AI estão cada vez mais familiarizados com os maneirismos humanos, suas opiniões e até seus preconceitos. Se considerarmos que a inteligência artificial se adapta para ajudar indivíduos dentro de seus processos inteligíveis, é lógico concluir que a programação em AI ainda carrega em suas raízes uma gama de construções sociais tradicionais, muitas delas altamente perigosas.

Em “Research Priorities for Robust and Beneficial Artificial Intelligence”, Russell, Dewey e Tegmark (2015) postulam a necessidade de avaliarmos os riscos e as possíveis armadilhas existentes no desenvolvimento da inteligência artificial. É inegável que inúmeras soluções em AI vêm trazendo benefícios inéditos para a humanidade, e que essa expansão faz com que máquinas inteligentes estejam cada vez interligadas com as dinâmicas dos indivíduos em sociedade. Assim, uma agenda vigorosa de pesquisa se torna essencial, não só como garantia de que os impactos futuros sejam benéficos, mas que rotas perigosas sejam evitadas a tempo, uma vez que o crescimento exponencial de agentes inteligentes, gerado por uma grande pressão de mercado, não tende a desacelerar. É como se ao invés de termos que resolver os problemas mecânicos de um avião durante o seu voo de cruzeiro, tivéssemos que consertar um foguete inteiro em propulsão rumo ao espaço.

2. O código carrega os valores de seus criadores.

Em 2014, constatou-se que um dos programas de inteligência artificial mais usados por departamentos policias e judiciais para avaliar os riscos de um criminoso ser reincidente, estava mais propenso a erroneamente considerar réus negros com duas vezes mais chances de reincidirem em crimes, assim com marcar réus brancos com duas vezes menos risco de cometerem novos delitos. Em 2015, o engenheiro de software Jacky Alciné alertou para o fato de que algoritmos de reconhecimento de imagem do Google estavam classificando seus amigos negros como “gorilas”. Isso aconteceu na mesma época em que os algoritmos do Uber começaram a banir motoristas transexuais e o programa inteligente de delivery da Amazon começou eliminar códigos postais de bairros de comunidades negras. Pouco tempo depois, já 2016, um estudo realizado por cientistas da computação da Universidade de Carnegie Mellon, comprovou que anúncios de empregos com altos salários disponíveis no Google ADs eram menos prováveis de serem exibidos para mulheres do que para homens. Interessante observar que esses “deslizes” não foram realizados por startups iniciantes ou investigadores em laboratórios de universidades. São gigantes da tecnologia, cujos investimentos em inovação atingem cifras descomunais, que estão a negligenciar questões sociais importantes e perpetuar conceitos ultrapassados através de seus agentes inteligentes. Esse contexto acaba por colocar programadores e designers no centro de questões sociais relevantes, redefinindo seu papel como agentes sociais coadjuvantes, ativos na correção e evolução das soluções em AI.

3. Inteligência artificial é dominada por homens brancos heterossexuais. 

Essa é conclusão do “Discriminating System Report” (2019) apresentado pelo AI Now Institute de Nova York. O relatório revela que mulheres representam, hoje, apenas 15% dos investigadores em AI do Facebook e somente 10% dos times do Google. De maneira mais drástica, o estudo mostra que a média de empregados negros em tecnologia, incluindo Google, Facebook e Microsoft fica em torno de 2.5 e 4%. Essa predominância do homem branco heterossexual nos cargos de tecnologia e a consequente falta de representatividade de género, identidade sexual e raça nessas áreas, geram um alerta em torno dos vieses sociais discriminatórios inseridos nas soluções de inteligência artificial. Mesmo embora existam alguns esforços por parte das corporações para corrigir esse fenómeno, a falta de diversidade nas equipas de criação e desenvolvimento de produtos afeta de maneira considerável a forma como tecnologias estão a evoluir, principalmente as mais avançadas como armas, nanotecnologia e superinteligência artificial. Meredith Whittaker, co-diretora do AI Now Institute aponta para os perigos dessa condição ao afirmar que “existe uma relação estreita entre os locais de trabalho com práticas discriminatórias e ferramentas discriminatórias. Um ciclo de feedback que está moldando a indústria de AI e suas soluções.” (2019: 9). 

As faíscas que surgem das fricções entre tecnologia e género não são novas. A percentagem de mulheres que atuam com pesquisa nas áreas de robótica para diversos ramos da indústria chega a valores irrisórios de 5%. Essa total falta de representatividade e inclusão fazem com que os sistemas de AI continuem a aprender e reproduzir estereótipos ultrapassados. Seja pelo viés da sexualização da inteligência artificial ou pela desigualdade nas equipas, isso acaba por fazer com que muitas empresas de Silicon Valley consideradas inovadoras, ainda representem um ambiente nada convidativo, porque não dizer hostil, para mulheres, negros e membros das comunidades LGBTQ+. Estudos comprovam que mulheres que exercem funções em tecnologia têm o dobro de chances de saírem de seus empregos se comparado com os homens. Algumas empresas chegam ao ponto de contratar mais mulheres para cargos administrativos apenas para camuflar a disparidade existente nas áreas técnico-criativas.

Nesse sentido, podemos afirmar que enquanto os códigos forem escritos só por homens, AI tende a ser cada vez mais feminina. Siri, Alexa e Cortana são os clássicos exemplos das assistentes superinteligentes, materializadas em chatbots servis. Elas representam o estereótipo da secretária que exerce funções historicamente destinada às mulheres, como montar agenda, procurar informações e outras tarefas fáceis de comunicação. Tudo por um baixo salário. O deficit de mulheres em cargos de liderança, a disparidade salarial e a falta de participação em funções relevantes, fazem como que essas adoráveis assistentes digitais sejam reflexos de uma sociedade que ainda reforça o estereótipo da mulher subjugada. Outro aspecto a ser considerado é o da permissividade indireta ao abuso sexual. 5% das mensagens que Robin Labs, uma assistente que ajuda motoristas em rotas de logísticas, são de cunho sexual explícito. Tay, a versão millennial de chatbot para o Twitter da Microsoft, em seu pouco tempo de atuação, começou rapidamente a adotar linguagens grosseiras de ódio, xenofobia e ofensa sexual. Tudo porque o sistema de machine learning que orienta a personalidade da assistente evolui de acordo com o crescimento das suas interações com os utilizadores. A negligência em torno da previsibilidade desses tipos de outputs por parte de agentes inteligentes, acabam por escancarar a realidade por trás das empresas que atuam na vanguarda das tecnologias em robótica e sistemas de AI avançado.

É nesse cenário que iniciativas sólidas começam a ser feitas. “Partnership for AI”, instituição estabelecida pelo Google, Amazon e IBM além de outras grandes empresas de tecnologia, começam a incorporar essas questões no âmbito comercial do desenvolvimento de produtos. “The AI Now Institute”, uma iniciativa liderada por investigadoras, propõe a ampliação no acesso aos algoritmos comerciais por parte de grupos diversos e autônomos e recomenda que mecanismos envolvendo notificações de utilizadores que interajam com processos de decisões automatizada sejam melhor concebidos para efeitos de reparação e evolução. Atitudes como essa sinalizam o início de mudanças significativas por parte das corporações.

Joy Buolamwini, fundadora do “Algorithmic Justice League”, um coletivo de cidadãos, artistas, investigadores e ativistas, tem como foco de seu trabalho a eliminação dos bias nos códigos através de projetos em design, arte e consultoria. Dentro de iniciativas como “Code4Rights”, Buolamwini explora as inter-relações entre inclusão e tecnologia, mostrando como os bias incorporados em sistemas de AI impedem o desenvolvimento responsável de produtos. Seu projeto “The Aspire Mirror” propõe uma reflexão crítica sobre o racismo existentes nos algoritmos de reconhecimento facial usados em larga escala, ao propor um aparelho que permite ao utilizador alterar seu rosto de acordo com elementos que inspiram e orientam sua própria identidade.

Criada pelo estúdio Virtue Nordic, em conjunto com a Copenhagen Pride e a cientista social Julie Carpenter, Q é considerada a primeira voz sem género criada para sistemas de AI. Desenvolvida como uma voz não-binária, ela oferece um novo spectrum sobre a relação humano-máquina. Segundo Carpenter, “com base no que sabemos sobre tecnologias inseridas nos meios de comunicação, entendemos que a representatividade social – ou sua omissão – é importante para influenciar valores sociais”. Assim, Q além de ser essa nova voz a dialogar com utilizadores, propõe entendimentos mais amplos sobre as questões emergentes de género. Outros esforços como Kai da Mastercard, e Bixby da Samsung, comprovam, aos poucos, que sistemas de AI não precisam de género ou até atitudes humanas para serem bem recebidos pelas pessoas.

Conclusão

Muito ainda precisa de ser feito, e os esforços de Buolamwini e Carpenter fornecem bons exemplos de como designer e programadores podem actuar no front dessa evolução tecnológica sem precedente na historia da humanidade. Seja com um olhar atento ao presente e sobre como o modus operandi do pensar e do fazer precisa ser constantemente revisto; seja com um olhar orientado para futuros próximos, onde questões sociais sugerem novas abordagens, é possível concluir que qualquer que seja a direção, é função do designer actuar como uma espécie de agente coadjuvante na transformação social, que possui as vantagens legítimas de poder estabelecer pontes eficientes que conectam a reflexão crítica com a prática profissional; de realizar o embedding do ativismo em soluções concretas de produtos, e por fim, concertar realidades, para que sonhos até então muito distantes, fiquem mais próximos do despertar.

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REFERÊNCIAS

Berridge, Eric (2017). AI Is The Perfect Partner To Achieve Gender Diversity. HuffPost. Disponível em: https://www.huffingtonpost.co.uk/eric-berridge/ai-gender-diversity_b_15956924.html

Costanza-Chock, Sasha (2018). Design Justice, A.I., and Escape from the Matrix of Domination. Essay Competition Winner. JODS. MIT Press. Disponível em: https://jods.mitpress.mit.edu/pub/costanza-chock

Crawford, Kate (2016). Artificial Intelligence’s White Guy Problem. The New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/2016/06/26/opinion/sunday/artificial-intelligences-white-guy-problem.html

Feldman, Jacqueline (2016). The Bot Politic. The New Yorker. Disponível em: http://www. newyorker.com/tech/elements/the-bot-politic.

Marr, Bernard (2015). Big Data: 20 Mind-Boggling Facts Everyone Must Read. Forbes Magazine. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/bernardmarr/2015/09/30/big-data-20-mind-boggling-facts-everyone-must-read/#30b3f3a817b1

Russell, S., Dewey, D. and Tegmark, M. (2015). Research Priorities for Robust and Beneficial Artificial Intelligence. AI Magazine. Vol 36, Nº 4: Winter 2015.

Schnoebelen, Tyler (2016). The gender of artificial intelligence. Figure Eight. Disponível em: https://www.figure-eight.com/the-gender-of-ai/

Weiss, Hannah (2019). Artificial intelligence is too white and too male, says a new study. Dazed Digital. Disponível em: https://www.dazeddigital.com/science-tech/article/44059/1/artificial-intelligence-is-too-white-and-too-male-says-a-new-study?fbclid=IwAR2yBql8I4xS5dEuNlUYxpbL8dV1XF8zJ75rc92edFkWD4oXGVGyMV_pKPI

West, S.M., Whittaker, M. and Crawford, K. (2019). Discriminating Systems: Gender, Race and Power in AI. AI Now Institute. Disponível em: https://ainowinstitute.org/discriminatingsystems.pdf

Wilson, Mark (2019). The world’s first genderless AI voice is here. Listen now! Fast Company. Disponível em: https://www.fastcompany.com/90321378/the-worlds-first-genderless-ai-voice-is-here-listen-now?fbclid=IwAR3P5OLArjsvhqjbToXpd2kIIxGjgJOvaJQ-hx5rxpVLUNH2D5pMD1hL6IQ

Imagem em destaque: Art: Ryoji Ikeda — audiovisual installation, 2009 | foto: Ryuichi Maruo.

Create, Preserve and Destroy

O símbolo gráfico da famosa estrela de David também está inserido na cultura hindu, onde os ângulos das pontas dos triângulos justapostos representam as divindades Brahma, Vishnu e Shiva em sua interna dança de criação, preservação e destruição. É possível, a partir desse elemento gráfico, especular como designers, inseridos no contexto da imagem e da mensagem em pós-produção, reprodução e circulação, encontram formas de articular um discurso crítico, atuando de maneira paralela como um vetor importante na transformação social. Assim, create, preserve and destroy é o ponto de partida para uma reflexão sobre a prática do design em relação às questões da forma, dos utilizadores e das plataformas, no contexto da produção cultural na era pós-digital, pós-internet.

_ Fabio De Almeida

Referências bibliográficas iniciais:

[1] Bourriaud, Nicolas (2005). “Introduction”, Postproduction. Culture as screenplay: how art reprograms the world.

[2] Steyerl, Hito. 2013. “Cut! Reproduction and Recombination”. In The Wretched of the Screen, pp. 31-45. Sternberg press.

 

[3] ____________ (2015). “Too Much World: Is the Internet Dead?”, The Internet Does Not Exist.

 

[4] Paul Soulellis (2017), Urgent Archives.

[5] Maeda, John. (2019). Design in Tech Report 2019. Link: https://designintech.report/2019/03/09/design-in-tech-report-2019/

 

 

Punk rock design

Abelhas-robôs, lentes que gravam a visualização humana, memórias cerebrais públicas,  mortos ressuscitados em máquinas e até a construção de paraísos artificiais, Black Mirror é um das mais bem sucedidas séries de TV que aborda a forma com que invenções tecnológicas avançadas, inseridas em realidades alternativas, impactam a sociedade. Os artefatos apresentados na série, ainda longe de serem acessíveis para a humanidade, são factíveis e facilmente absorvidos pelo espectador, pois além de se conectarem de maneira mais estreita com os desejos e medos do humano pós-moderno, revelam também todo o potencial do exercício especulativo em testar e articular realidades alternativas.

A dupla de designers, Anthony Dunne e Fiona Raby, definem que o design especulativo se apoia na concepção de futuros possíveis com base em fracos sinais do presente, o que acaba por colocar em cheque toda e qualquer especulação que se materialize em artefatos oriundos de frágeis tendências emergentes, inseridas em contextos pré-existentes, e que representam de maneira mais ou menos clara, fortes interesses comerciais. Dessa forma, o exercício especulativo só seria eficiente se sua prática estiver focada na re-imaginação de futuros possíveis.

No cenário de problemas globais eminentes, como crises financeiras, super-populações e grandes mudanças climáticas, frutos de uma total saturação do modelo capitalista do século XX, Dunne e Raby postulam que ao se tomar a real dimensão desses desafios e verificar a inviabilidade de continuarmos no mesmo curso, não devemos transformar sonhos em meras esperanças de um futuro melhor, e sim, devemos explorar alternativas que se apoiam em ressignificar valores, materializando propostas que se apresentam como alternativas positivas, ou até negativas, ao que se pretende criticar. Ao instigar a reflexão e debate em favor de um pensamento mais ideológico, que confronta sobre como e onde nossos desejos estão centrados e sobre como gostaríamos que a vida fosse conduzida, o design especulativo encontra então terreno mais fértil para se desenvolver como disciplina, pois utiliza alternativas legítimas a partir daquilo que está fora do sistema vigente.

É notório que os sonhos modernistas do passado gradualmente se mostraram inviáveis face às crises e transformações globais atuais. A comunhão desses fatores com o crescente potencial de compartilhamento de informação e a democratização das tecnologias, faz com que diferentes abordagens possam ser aplicadas na busca por caminhos alternativos. É nesse contexto que o design crítico ganha ainda maior relevância, pois além de confrontar o status quo, permite a desconstrução da ideia do design centrado na satisfação do usuário pré-condicionado e pré-conformado com suas realidades de consumo pré-existentes.

Nesse sentido, Vinca Kruk e Daniel van der Velden do studio Metahaven, postulam que o design especulativo empreende buscas por conhecimentos “avançados”, onde a prática só pode ser conduzida em espaços geradores de debate políticos e sociais profundos, distantes de causas emergentes que colocam designers como verdadeiros bombeiros de crises e/ou guardiões de boas moralidades. Moralidades essas que a dupla aponta como repleta de contradições, fruto de visões viciadas e ultrapassadas do designer como um agente eficiente do “bem” comum. Assim, a dupla afirma que o design crítico não deveria gerar reações ao contra-estabelecido, e sim propor algo novo como contra-cultura, ao exemplo do que foi o punk rock enquanto gênero que realmente trouxe espaços inovadores para o rock e para a própria música.

Um bom exemplo é o que o studio apresenta em The Sprawl – propaganda about propaganda (2015): uma instalação multi-canais que revela as maneiras pelas quais uma fantasia pode ser projetada de modo a parecer ou ser sentida como uma verdade. Nesse projeto existe a clara intenção de fazer a política progressista re-imaginar sua própria estrutra de atuação como ponto de partida para uma possível mudança. E isso, sem juízo de valor, se trata também de repensar a própria propaganda política em si.

 

SONIC ACTS FESTIVAL 2017 Metahaven – Recent Hystory (The Sprawl Continues)

 

Assim, a proposta do design especulativo não é gerar mais uma utopia tecnocrata, e sim propor uma contra-cultura imaginativa, consciente de suas armadilhas, e que procurar criar profecias vivas para os tempos que vivemos. É nesse contexto que o sonhar e o fazer dos músicos se afirma como poderosa atitude possível para os designers, pois dentro das palavras de Patti Smith: “I don’t fuck much with the past but I fuck plenty with the future.”

_Fabio De Almeida

Referências Bibliográficas

[1] Metahaven. (2011). “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa. pp. 257-271. https://tinyurl.com/SpeculativeDesign

[2] Van der Velden, Daniel. (2006). “Research & Destroy – A Plea for Design as Research” Metropolis M #2. Disponível em: http://bit.ly/YLIRx1

[3] “AutoReply: Modernism: A conversation with Experimental Jetset” Print, Outubro 2011. Disponível em: http://bit.ly/oDuDwn

[4] The Relationship between design and populist politics. 2009. By Gabrielle Kennedy. http://design.nl/item/the_relationship_between_design_and_populist_politics

 

Imagem: Black-Mirror TV Serie, 2018. Bandersnatch episode. 

Universos paralelos do design

Novas visões criam novos universos. É notável a importância do design crítico como disciplina. Tanto na teoria, como na prática, observarmos uma constante evolução na produção de artefatos como alternativas que refletem ideologias e valores que questionam o status quo, estabelecendo rotas não usuais para se encontrar possíveis respostas para questões emergentes. Entretanto, embora a prática do design como crítica esteja consolidada, seja nas exposições de Dunne & Raby ou até nas novas abordagens de Inteligência Artificial concebida por Philip Agre, o desafio que se apresenta é como fazer com que todas as reflexões geradas pela disciplina possam se converter em ações mais amplas, ou como propõe Simon Bowen, “como uma reflexão crítica pode ser instrumentalizada nos processos atuais de design para que melhores respostas possam ser encontradas”.

Seguindo a ideia de Francisco Laranjo, é oportuno investigar sobre como construir pontes sólidas que conectem a produção crítica atual com um debate político efetivo, que transfira a aura glamourizada da prática já institucionalizada em museus, galerias e revistas segmentadas para territórios onde exista um engajamento social mais amplo e visível. É nesse contexto que o papel do designer vendo sendo desafiado. Num cenário de uma evolução tecnológica sem precedentes na história, que abala consideravelmente estruturas sociais, culturais e políticas, é imperativo que o designer seja cada vez mais um ativista, que possa constantemente hackear a própria disciplina do design crítico, encontrando os meios de escapar de universos paralelos para se aventurar em realidades mais latentes.

_ Fabio De Almeida.

 

Palavras-chave; design crítico, política, engajamento social, tecnologia, ativismo.

Notas:

[1] “My research is also concerned with artefacts that afford critical reflection. However I am interested in how this critical reflection can be used more instrumentally within the design process. How can it be used to produce “better answers?” Bowen, S.J. (2007). Tradução livre e editada.

 

Bibliografia:

[1] Laranjo, Francisco. “Critical Everything”. In Modes of Criticism 1 – Critical, Uncritical, Post-critical. Porto: 2015. Disponível em: https://www.grafik.net/category/feature/critical-everything

[2] Bowen, S.J. (2007). Beyond “Uncritical” Design” position paper for Sint-Lucas Research Training Sessions 2007. Hogeschool voor Wetenschap & Kunst Sint-Lucas, Brussels 14-16 June 2007.

 

Imagem: UMK: LIVES AND LANDSCAPES, 2014. Dunne & Raby. 

Big data, big techs e big brother.

Não há nada de novo sob o sol. Plataformas digitais fazem parte de nossas rotinas, e diariamente permitimos que nossos rastros digitais seja trocados por experiências que já não sabemos se conseguimos viver sem. Por outro lado, a aproximação dos governos com as gigantes da tecnologia colocam em cheque questões fundamentais sobre liberdade e controle. Até que ponto nossa submissão ao Big Brother seria uma realidade sustentável? O monopólio da informação estaria a serviço de um constante reajuste democrático das sociedades ou tudo figura apenas como a atualização da soberania dos interesses políticos e econômicos sob a humanidade?

Debates a parte, a história nos mostra que o bem geral, quando controlado e mediado por uma elite dominante, não nos oferece prognósticos de uma realidade mais livre e mais justa. Muito pelo contrário, no ritmo acelerado em que os algoritmos nos assistem, nos entendem e nos controlam, fica o desafio de saber como a humanidade despertará desse suposto sonho de um mundo ideal como uma resposta a equação de nossa existência.

Fabio De Almeida

Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, WIRED. Fevereiro, 2019.

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