“the historical distinction between the digital and the non-digital becomes increasingly blurred, to the extent that to talk about the digital presupposes an experiential disjuncture that makes less and less sense. ”
– David Berry
Seguindo a tradição do Design Especulativo, o presente ensaio especula em torno ao escopo político e cultural, ligado ao desenvolvimento de uma tecnologia que possibilita a aplicação da hipertextualidade a objetos não digitais. Em particular, procura-se explorar o potencial da sua aplicação em áreas relacionadas à produção de conhecimento.
Para guiar a elaboração deste ensaio, parte-se da premissa de que o componente técnico da comunicação não é politicamente neutro, pois estabelece o quadro de mensagens possíveis. Desta forma, começa-se por fazer uma análise crítica da aplicação do hipertexto hoje e seu contraste com a visão original de seus criadores e também das áreas que se desenvolvem na produção e disseminação do conhecimento. Desta forma, pretende-se projetar os princípios que devem ser incorporados no design da tecnologia especulativa e como estes poderiam influenciar as áreas em questão.
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Referências bibliográficas iniciais
Berry, David M (2014) Post-digital humanities: computation and cultural critique in the arts and humanities. Educause Review. May/june 2014. https://er.educause.edu/~/media/files/ article-downloads/erm1433.pdf
Bunz, M. and Mársico, G. (2012). La revolución silenciosa. 1st ed. Buenos Aires: Cruce
Dunne, A., Raby, F (2013) . Speculate Everything: Design, Fiction and Social Dreaming. Londres
Kitzmann, A. (1996). The melancholic hypertext. Ottawa: National Library of Canada. Bibliothèque nationale du Canada
Tyzlik-Carver, M (2014). Interfacing the commons: Curatorial system as a form of production on the edge, vol. 3, ISSUE 1, Edited by Christian Ulrik Andersen, Geoff Cox and Georgios Papadopoulos. online at:http://www.aprja.net/1037/?pdf=1037 [accessed 29 Apr 2019].
Em um mundo em rápida mudança devido aos avanços científicos e tecnológicos, cheios de complexidades e perplexidades, o designer canaliza a incerteza imposta por esse contexto, em sua prática criativa.
Contentment Design
Cumprindo com as tendências que a indústria exige, como designers assumimos o papel de produtores simples; conhecendo os processos e as fórmulas para chegarmos a resultados bem-sucedidos, ficamos prontos para criar artefatos que resolvam dúvidas e deem respostas às necessidades de um único uso.
O design leva décadas na busca de uma identidade disciplinar delimitada pela natureza de sua prática. Tornar-se uma disciplina que consegue contribuir para a criação de conhecimento no atual contexto acadêmico, deixou em evidência algumas tensões naturais com a tradição epistemológica da academia. Estas tensões são agravadas contra o trabalho domina a aliança: marketing, publicidade e branding, bem como contra o surgimento de expressões grosseiras nascidas da banalização de métodos incorporados no processo criativo do designer
É por este contexto adverso que este post, por um lado, celebra o surgimento de tendências que questionam a visão hegemônica que o Design esta naturalmente ligado a resolução de problemas ou orientado para o mercado, e por outro, visa rever essas correntes contra ameaças de automação que agora emergiram transversalmente das bocas de especialistas internacionais.
O Design Crítico [1], dos autores Anthony Dunne e Fiona Raby, propõe a especulação como método para abordar questões sociais, políticas e culturais imbricadas nos objetos presentes no cotidiano. A experiência, quanto criadores, dos designers nesses objetos, lhes dá uma perspectiva privilegiada para interpretar as diferentes camadas imbricadas em sua criação. Um exemplo que consegue representar graficamente essa experiência, independente dos métodos especulativos do Design Crítico, é o trabalho do grupo de Forensic Architeture. Para estes, as imagens sempre desempenharam um papel significativo no discurso político, particularmente quando os atores políticos as utilizam para alterar narrativas de justiça, direitos ou responsabilidades. A partir desta abordagem, eles têm desenvolvido trabalhos como Nakba Killing Day, que investigou todo o material disponível sobre os assassinatos em Nakbar no “15 May 2014”, a fim de gerar um corpo de evidências que poderiam ser usados para fazer justiça e culpar os verdadeiros perpetradores. No processo, os designers aparecem com um papel de liderança na reconstrução (através do modelagem) das cenas principais do case.
Uma possível leitura do caso é que a expertise do designer sobre a mídia que ele usa diariamente é de grande valor para outros espaços além daqueles ligados ao mercado, e por causa de sua proximidade imediata da realidade, eles conseguem transcender a cultura e os códigos da academia na construção do conhecimento. Designers são confrontados com dados, que se tornam úteis quando adquirem um sentido, em um contexto e com um propósito. Finalmente, sentido e significado são construções técnicas e culturais e o design, como disciplina, acaba sendo crucial em seu desenvolvimento.
Hoje em dia pode-se observar que essas práticas, técnicas e domínio sobre a mídia, embora tenham grande valor, também possuem uma data de validade. A ameaça de ser automatizado é patente. Um exemplo que descreve o acima é o fenômeno que agora acontece na área da animação digital. Assim como os cartunistas da Disney foram substituídos pelos ilustradores 3d, eles agora enfrentam a ameaça de serem substituídos por servidores e as possibilidades que emergem da “Machine Learning”. Essas tecnologias estão ganhando cada vez mais espaço na indústria 3d, ocupando tarefas que pareciam impossíveis de serem desenvolvidas por computadores há alguns anos.
A capacidade de “prever” a partir de grandes bancos de dados abriu as portas para campos que se acreditava serem exclusivos das habilidades humanas e que hoje redefinem como a criatividade é expressa. Tarefas como geração de texturas e modelagem 3D estão sendo as primeiras vítimas, no entanto, a geração de estilos visuais e linguagens complexos também são campos que estan a ser conquistados.
Isto fica bem ilustrado nestes dois artigos. O primeiro, de nome: A Style-Aware Content Loss for Real-time HD Style Transfer [2], é uma investigação cujo resultado é um programa que consegue extrair estilos de diferentes pintores para depois serem usados na reconstrução de fotografias reais com ditos estilos.
A segunda, desenvolvida na Chinese University of Honk Kong [3], está baseada em instruções textuais, que são interpretadas (processadas) para a construção do que elas indicam. O âmbito destas tecnologias nas indústrias criativas são imensas, mais também não só em termos de potenciais ameaças, mas também como ferramentas que podem reconfigurar os processos criativos de estilistas, também expandindo o escopo de suas criações.
Diante do exposto, é possível concluir que o design é capaz de atuar em diferentes áreas além dos limites impostos pelo mercado, uma vez que sua prática lhe deu expertise em uma ampla gama de mídias e, ao mesmo tempo, a necessidade de adaptar-se às novas tecnologias.
Parece que o design como área disciplinar está em constante crise existencial. Muitos são os autores que questionam sua capacidade de contribuir para a construção do conhecimento ou que suas estratégias carecem de identidade disciplinar (isto é arte ou ciência). Pior ainda, há aqueles que apontam que o design está preso nos tentáculos do mercado e que sua gente está destinada a exercer seu ofício nas fábricas de salsichas do mundo. É por isso que correntes como o Criticial Design e o Design Research são tão relevantes. Com um Design em aparante cativeiro, conseguem revitalizar a disciplina ao oferecer alternativas para o seu desenvolvimento e finalmente quebrar a síndrome de Estocolmo que mantém os designers com o mercado.
Na misma linha, este artigo aborda os postulados de Joseph Grima sobre a Adhocracy [1] e em função a eles, busca extrair algumas lições da obra On Design Thinking, Bullshit e Innovation [2], do pesquisador Rodrigo Hernandez-Ramirez.
Em seu artigo “Adhocracy”, Grima propõe uma nova abordagem para os designers e todos aqueles que se desenvolvem na criação do material. Uma abordagem que contém novas ferramentas, propostas estéticas e processos criativos, e que se move em sentido oposto (tanto em objetivo e forma) aos valores representados pela burocracia: centralização, hierarquia e indiferença.
Para Grima, esta abordagem deve posicionar-se como uma condição cultural para os criadores, e não como um framework prático, porque os seus princípios caracterizada por promover transformações sociais (reforma das estruturas de poder, criando novas formas de autoridade e novas anatomias sociais) são, finalmente, aquelas que orientam sua prática e, por sua vez, estão imbricadas diretamente em seus processos criativos, ao contrário de outras abordagens que nas últimas décadas têm sido associadas ao design.
Na busca por um antagonista, o exemplo do Design Thinking (DT) é relevante para expor o anterior. Estrela no mundo da inovação empresarial, o DT é apresentado como um quadro prático para a resolução de problemas, cujo marketing anuncia que é uma representação das estratégias observadas na prática criativa do designer. Isso é estruturalmente diferente do postulado por Grima, já que seu objetivo final estará sempre subordinado ao imperativo comercial de qualquer empresa que o abraça: maximizar os lucros.
Esse contraste é interessante para continuar ampliando a compreensão do design como uma disciplina que possui outras expressões além das comerciais. O artista e pesquisador, Rodrigo Hernández-Ramírez reflete nas criticas em torno ao Design Thinking, e argumenta que os seus principais promotores têm banalizado a disciplina e co-optado o seu potencial para funcionar como um sistema epistêmico capaz de participar na criação de conhecimento prático.
A IDEO-DT sequestrou o significado do design thinking e, como resultado, muitas ideias complexas que sustentam a metodologia de design foram eliminadas, esquecidas ou suplantadas pelo jargão dos negócios. [2]
A partir do trabalho de Hernández-Ramírez, alguns elementos podem ser extraídos que são úteis para revisar os postulados de adhocracia. Ele constrói seu argumento a partir do contexto económico, social e político em que nasce e se espalha o DT, marcada pelo surgimento e crescimento do neoliberalismo, e, consequentemente, a (re) criação de uma nova forma de burocracia. O autor sustenta que, embora esse sistema propõe suprimir o Estado sob o argumento da ineficiência burocrática, ele não o elimina, antes o transforma. Com isso, a burocracia corporativa se posiciona em novas esferas e, assim, sua obsessão pela produtividade y o seu jargão conformado por palavras como inovação e criatividade, dão lugar aos valores que compõem a sociedade.
Do exposto pode-se concluir que a burocracia não desapareceu, mas sofreu uma mutação, e como Grima introduz a noção de Adhocracy em oposição aos valores representados pela burocracia, é enriquecedor complementar esta ideia com a compreensão ampliada da burocracia exposta pelo pesquisador Hernández-Ramírez.
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[1] Grima, Joseph (2012). A Brief History of Adhocracy. In Adhocracy. Istanbul: IKSV.
[2] Hernández-Ramírez, Rodrigo (2018). On Design Thinking, Bullshit, and Innovation . Journal of Science and Technology of the Arts, Volume 10, No. 3
Hoje estamos diante do ressurgimento do grande irmão, de uma autocracia capaz de censurar e subjugar seus cidadãos. Dos casos de vigilância massiva e integração de tecnologias de detecção facial e processamento de grandes quantidades de dados, observamos como essa distopia Orwelliana ameaça se tornar uma realidade.
O autor do artigo “Todos somos dados” consegue expor esse fenômeno a partir de processos sócio-políticos que estão moldando essa distopia: a colaboração da Big Tech com o governo dos Estados Unidos, cujos efeitos colaterais são coercitivos socialmente (PENNY, 2016) e sistemas de pontuação usados pelo governo de Xi Jinping para moldar a moral e os comportamentos do povo chinês.
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PENNY, Jon “Chilling Effects: Online Surveillance and Wikipedia Use“. Berkeley Technology Law Journal, Vol. 31, No. 1, p. 117, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.15779/Z38SS13