Apropriação e a Arte da Cópia

A drástica democratização da internet e dos dispositivos móveis, acompanhada da proliferação das mídias sociais, criaram novos paradigmas de produção, comércio e disseminação de trabalhos artísticos e acirraram ainda mais a saturação do espaço cultural pela imagem – seja pela ação do marketing, dos meios de comunicação ou do ciberespaço. Segundo Fredric Jameson, a completa permeação da vida cotidiana pela imagem significa que a experiência estética encontra-se agora fragmentada, em uma expansão da cultura que não apenas tornou a noção de individualidade de uma obra de arte totalmente problemática, mas também esvaziou muito o conceito de autonomia estética. (Krauss, 1999). Em um contexto altamente conectado, artistas e designers têm a sua disposição um enorme acervo de mídias que podem ser acessadas e processados através de plataformas online.

O termo apropriação é empregado pela história e pela crítica de arte para indicar a incorporação de objetos extra-artísticos, e algumas vezes de outras obras, nos trabalhos de arte. O procedimento remete às colagens cubistas e às construções de Pablo Picasso e Georges Braque, realizadas a partir de 1912. Desse momento em diante, colagens visuais, sonoras e textuais tornaram-se o epicentro de uma série de movimentos no século XX: futurismo, cubismo, dadaísmo, música concreta, situacionismo, pop art e o apropriacionismo.

Segundo Jonathan Lethem, à medida que os exemplos se acumulam – a música de Igor Stravinsky e de Daniel Johnston, a pintura de Francis Bacon e Henry Darger, os romances do grupo Oulipo e de Hannah Crafts, assim como os textos favoritos, que se tornaram problemáticos para seus admiradores após a descoberta de elementos ‘plagiados’, como os romances de Richard Condon ou o Sermões de Martin Luther King Jr. – fica evidente que a apropriação, a imitação, a citação, a alusão e a colaboração sublimada consistem em uma espécie de condição sine qua non do ato criativo, permeando todas as formas e gêneros no campo da produção cultural.

Tom Sachs, Hermés Value Meal, 1997, papel cartão e cola quente15.35″ x 7.87″ x 7.87″

Neste sentido, a apropriação na arte contemporânea relaciona-se diretamente ao conceito de pós-produção como abordado por Nicolas Bourriaud em Culture as Screenplay: How Art Reprograms the World. No texto publicado em 2005, o autor descreve um aumento constante na produção de trabalhos artísticos com base em obras preexistentes, notadamente a partir do início da década de 90. A arte da pós-produção teria surgido, então, como resposta ao caos crescente da cultura global na era da informação, caracterizado por um aumento vertiginoso na oferta de imagens e na anexação de formas antes ignoradas ou desprezadas pelo mundo da arte. Ainda de acordo com Bourriaud:

Noções de originalidade (estar na origem de) e até mesmo de criação (fazer algo do nada) dissolvem-se lentamente nesta nova paisagem cultural marcada pelas figuras gêmeas do DJ e do programador, ambos os quais têm a tarefa de selecionar objetos culturais e inserindo-os em novos contextos. (Bourriaud, 2005)

A produção de artistas contemporâneos como Barbara Kruger, Jeff Koons, Tom Sachs e Richard Prince, encontra na recontextualização de materiais provenientes da imprensa, campanhas de marketing, redes sociais e etc., seu ponto de partida. Em Patterns of Desire, publicação que inclui um pequeno ensaio da historiadora de arte feminista Linda Nochlin, Joyce Kozloff apresenta uma série de desenhos que recombinam obras de épocas e culturas distintas, incluindo vasos gregos, shungas japonesas, miniaturas eróticas indianas, rococós franceses, pinturas religiosas européias e o cubismo de Picasso. Kozloff, como mulher copiando essas obras originalmente feitas por e para homens, força a reconsideração do significado de mulheres nuas e de encontros sexuais, reposicionando-as de um lugar de passividade e objetivação para um lugar de poder.

O panorama apresentado acima  tem por objetivo apontar a apropriação como fator essencial à produção crítica em arte e design na contemporaneidade. Ainda que a discussão acerca dos direito de autor – em um ambiente cultural marcado pela facilidade com que falsificações e cópias não autorizadas circulam pela web – seja essencial, é preciso salientar a importância do livre acesso à informação online. Se aprovada, a reforma nas leis de copyright que atualmente transita no Parlamento da União Europeia, irá reformular as estruturas de funcionamento da internet, ameaçando a existência de de uma vasta gama de conteúdos que engloba de enciclopédias a memes.

– Caio Guedes


Referências Bibliográficas

BOURRIAUD, Nicolas. (2005). Culture as screenplay: how art reprograms the world. 2ª edição, Lukas & Sternberg, Nova Iorque.

LETHAM, Jonathan. (2007). The Ecstasy of Influence. [Consult. 13 Mar. 2019]. Disponível em: https://harpers.org/archive/2007/02/the-ecstasy-of-influence/

SCHRIJVER, Eric. (2005). Copy this Book: An Artist’s Guide to Copyright. 1ª edição, Onomatopee, Eindhoven.  

GOLDSMITH, Kenneth. (2011). It’s Not Plagiarism. In the Digital Age, It’s Repurposing [Em linha]. [Consult. 05 Dez. 2018]. Disponível em http://chronicle.com/article/Uncreative-Writing/128908/   

KRAUSS, Rosalind. (1999). Voyage on the North Sea: Art in the age of the post/medium condition. 1ª edição, Thames and Hudson. Nova Iorque.

  

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