Finders Keepers, Losers Weepers: A apropriação na produção de objetos culturais contemporâneos

Noções de originalidade (estar na origem de) e até mesmo de criação (fazer algo do partindo do nada) dissolvem-se lentamente nesta nova paisagem cultural marcada pelas figuras gêmeas do DJ e do programador, ambos os quais têm a tarefa de selecionar objetos culturais e os inserindo em novos contextos.

— Nicolas Bourriaud (2005:6)

 

Resumo

A apropriação, procedimento pivotal de movimentos artísticos do século XX, adquire novos contornos na contemporaneidade, marcada pela total saturação do espaço cultural pela imagem, seja pela ação do marketing, dos meios de comunicação ou do ciberespaço (Krauss, 1999). Neste contexto, artistas e designers têm a sua disposição um enorme acervo de conteúdos – protegidos ou não por direitos autorais – que podem ser acessados e processados através de plataformas online. O trabalho aqui apresentado busca identificar algumas das principais maneiras como este repertório é utilizado na produção de objetos culturais impressos na contemporaneidade.

Palavras-chave

Domínio público, apropriação, reprodução, pós-produção

Introdução

A maioria de nós conhece alguma versão da rima finders keepers, losers weepers – no Brasil, ela aproxima-se de achado não é roubado, quem perdeu foi relaxado. Apesar de ser comumente repetido por crianças ainda hoje, há registros escritos de variações desta expressão que remontam a 200 a.C.

Os primeiros registros em língua inglesa aparecem no século XVI. Na obra de A. Cooke, Country Errors In Harley, publicada em 1595, podemos encontrar a frase findings keepings. Nos anos de 1800 a expressão começa a aparecer como a conhecemos hoje. D.M. Moir, em 1824, refere-se ao que chama de “antigo provérbio escocês”: aquele que encontra, possui, e aquele que perde, procura.

A ideia de que aquele que encontra algo que foi perdido tem o direito de mantê-lo como seu não é nova, tendo aparecido em diversos textos legais ao longo dos séculos. Nos Estados Unidos, o Homestead Act permitia que as pessoas reivindicassem terras, desde que as mesmas fossem ocupadas e cultivadas pelo reclamante e não possuíssem um proprietário original. Tanto no Brasil, como em Portugal existe a figura jurídica do usucapião, definida pela aquisição de uma propriedade com fundamento na posse de longa duração.

Atualmente o conceito de achado não é roubado adquire significados ainda mais expressivos. Na era da abundância de informação, nunca foi tão fácil perder, encontrar e apropriar.

I

O termo  apropriação é empregado pela história e pela crítica de arte para indicar a incorporação de objetos extra-artísticos, e algumas vezes de outras obras, nos trabalhos de arte. O procedimento remete às colagens cubistas e às construções de Pablo Picasso e Georges Braque, realizadas a partir de 1912. Desde esse momento, a técnica é largamente empregada em diferentes escolas e movimentos artísticos, com sentidos muito variados. É interessante notar, no entanto, que apesar de não ser uma novidade, desempenhando um papel fundamental no trabalho de artistas célebres como Andy Warhol e Marcel Duchamp, a prática da apropriação e, consequentemente, as questões da autoria adquirem novos contornos na era das mídia sociais.   

A drástica democratização da internet e dos dispositivos móveis, acompanhada da proliferação das mídia sociais, criaram novos paradigmas de produção, comércio e disseminação de trabalhos artísticos e acirraram ainda mais a saturação do espaço cultural pela imagem, descrita por Fredric Jameson e referida por Krauss ao caracterizar a pós-modernidade:

Fredric Jameson caracteriza a pós-modernidade como a saturação total do espaço cultural pela imagem, seja nas mãos da publicidade, dos meios de comunicação ou do ciberespaço. Essa completa permeação da vida social e cotidiana pela imagem significa, segundo ele, que a experiência estética está agora desconcertada, em toda parte, em uma expansão da cultura que não apenas tornou a noção de uma obra de arte individual totalmente problemática, mas também esvaziou muito conceito de autonomia estética. (Jameson, 1991, apud Krauss, 1999: 56)

Lethem, por sua vez, afirma que à medida que exemplos históricos se acumulam – a música de Igor Stravinsky e de Daniel Johnston, a pintura de Francis Bacon e Henry Darger, os romances do grupo Oulipo e de Hannah Crafts, assim como os textos essenciais, que se tornaram problemáticos para seus admiradores após a descoberta de elementos ‘plagiados’, como os romances de Richard Condon ou o sermões de Martin Luther King Jr. – fica evidente que a apropriação, a imitação, a citação, a alusão e a colaboração sublimada consistem em uma espécie de condição sine qua non do ato criativo, permeando todas as formas e gêneros no campo da produção cultural. (Lethem, 2007)

Neste sentido, a apropriação na arte contemporânea relaciona-se diretamente ao conceito de pós-produção como abordado por Bourriaud em Culture as Screenplay: How Art Reprograms the World. No texto publicado em  2005, o autor afirma que desde o início dos anos noventa, um número crescente de obras de arte é criado com base em trabalhos preexistentes e cada vez mais artistas interpretam, reproduzem, reexibem ou reusam trabalhos feitos por outros. Essa arte da pós-produção parece responder ao caos crescente da cultura global na era da informação, que seria caracterizada por um aumento na oferta de obras e na anexação de formas ignoradas ou desprezadas pelo mundo da arte até agora. Ainda segundo o autor “Esses artistas, que inserem seu próprio trabalho no de outros, contribuem para a erradicação da distinção tradicional entre produção e consumo, criação e cópia, trabalho pronto e original.” (Bourriaud, 2005: 13)

É exatamente aí – num caldeirão cultural no qual os limites da autoria e da originalidade perdem definição – onde se inserem os trabalhos de importantes criativos contemporâneos. A produção de artistas como Barbara Kruger, Jeff Koons, e Richard Prince, e de designers como Paul Solelis, Kenneth Goldsmith e Eike König encontra, com frequência, seu ponto de partida na apropriação e recontextualização de conteúdos provenientes da imprensa, de campanhas de marketing, ícones da cultura pop e redes sociais. A seguir, um pequeno estudo de caso acerca da obra do controverso artista norte americano Richard Prince lança luz a algumas das facetas adquiridas pela apropriação na arte contemporânea.  

II

Nascido em 1949 na Zona do Canal do Panamá, então um território dos Estados Unidos da América, Prince mudou-se para um subúrbio de Boston, em 1954. Em 1973, após ter sua candidatura rejeitada pelo Instituto de Arte de São Francisco, mudou-se para Nova York, onde familiarizou-se com a arte conceitual. Trabalhando no Time-Life Building como preparador de clippings – recortes de revistas-, tomou conhecimento das possibilidades oferecidas pela utilização da publicidade como elemento de sua produção artística. Os primeiros trabalhos, como Untitled (Cigarettes, 1978) and Untitled (three women looking in the same direction, 1980), consistem em imagens publicitárias encontradas, re-fotografadas e justapostas umas às outras pelo artista.


Durante o início dos anos 80, Prince desenvolveu o processo que gerou os “grids” de imagens justapostas que ele chamou de Gangs. Em trabalhos como Entertainers (1982–83), o artista juntou vários slides de 35 mm de imagens de anúncios e revistas para formar um negativo maior, a partir do qual a impressão final era feita. Cada “gangue” se concentrava em um motivo específico de desejo da cultura pop, incluindo carros, motociclistas, pornografia, vaqueiros e pores do sol.

O processo de produção das Gangs foi descrito por Prince nos seguintes termos:

O “grid” de minha filha no Tumblr me lembrou das “Gangs” que fiz em 1985. . . onde organizei um conjunto de nove imagens em uma única folha de papel fotográfico e ampliei o papel para 86 x 48. As “gangues” eram uma forma de lidar com estilos de vida marginal que eu precisava ver em uma parede, mas não na parede inteira. Cada “gangue” era sua própria exposição. Namoradas, bandas de heavy metal, ondas gigantes, caminhões, Pé Grande, sexo, guerra, desenhos animados, letras. . . Todos eram refotografados. Quando retornava da revelação, o filme era rearranjado e movido em uma caixa de luz personalizada até que as nove melhores imagens eram selecionadas. O conjunto era então unido com fita-cola e as nove lâminas eram enviadas para um laboratório onde a foto final era ampliada. (Prince, 2015)

Nesse mesmo período, o artista começou a exibir os primeiros exemplares de seus Cowboys, nos quais reproduzia anúncios de cigarro da marca Marlboro. Aproveitando-se da estereotipada imagem do cowboy (pináculo da masculinidade norte americana da época), completa com cavalo, laço e um plano de fundo onde se viam as paisagens do oeste americano, Prince simplesmente re-fotografou os anúncios do cigarro, reenquadrando a composição e removendo o logótipo da marca. A série Cowboys, que veio a fazer parte do acervo do Museu Guggenheim, tornou-se célebre tanto por seu sucesso comercial, quanto por desencadear processos judiciais e debates inflamados envolvendo as questões da autoria, dos limites da apropriação e do próprio estatuto da arte.

Todas estas questões seriam trazidas novamente à tona com o lançamento de New Portraits, série apresentada pela primeira vez, em 2014, na sede nova iorquina da Galeria Gagosian. Ao entrar no espaço expositivo, os visitantes se deparavam com ampliações de imagens publicadas originalmente em perfis públicos do Instagram. Obtidas utilizando a funcionalidade de captura de ecrã, as imagens impressas em 167 × 123,8 cm mostravam as informações do perfil do usuário original, seguida da imagem principal – em sua maioria selfies de mulheres – e um comentário publicado pelo próprio artista.         

Podemos argumentar que a elaboração de New Portraits parte do mesmo pressuposto das re-fotografias de Cowboys: a reutilização de uma imagem criada por outrem na elaboração de um objeto que alcança a condição de obra de arte. O que os difere porém, é a dimensão conferida à operação pela utilização de uma mídia social como repositório de imagens. Os usuários que primeiro publicaram as fotos em suas redes sociais nunca foram notificados pelo artista ou pela galeria. Muitos só tomariam conhecimento do novo status adquirido por suas publicações através dos registros divulgadas pela imprensa ou por desconhecidos em suas próprias redes. O trabalho, neste caso, extrapola a fisicalidade de seu suporte e os limites da galeria. Os retratos continuam online nos feeds onde primeiro apareceram; foram re-fotografados e re-publicados inúmeras vezes por quem visitou as exposições; foram incansavelmente reproduzidos nas plataformas de jornais, galerias, feiras de arte e etc., e até reimpressos e comercializados por seus autores originais por uma fração do valor alcançado pelas ampliações de Prince. New Portraits formaliza-se também na interação online com a imagem apropriada e na ressignificação do espaço “público” virtual. Suas repercussões transbordam para além de sua materialidade e seu ecos somam-se a – e de alguma maneira criticam – à “saturação do espaço cultural pela imagem” definida por Jameson.    

III

O campo do design editorial, por sua vez, encontrou na apropriação um terreno fértil para o desenvolvimento de projetos que investigam as áreas de intersecção entre mídias digitais e analógicas. Os processos de transição que ao longo das últimas décadas prometeram revolucionar as lógicas do mercado editorial tradicional – nomeadamente a “morte” do livro – provaram-se mais complexos do que se poderia prever e acabaram por possibilitar a articulação entre a cultura que emana da web e uma gama de artefatos impressos.

A combinação estratégica entre a grande quantidade de conteúdo gratuito disponível na internet – ao qual nos referimos popularmente como big data – e a proliferação de gráficas print on demand capazes de imprimir pequenas tiragens a valores razoáveis, favoreceu a emergência de toda uma geração de artistas e designers. Conteúdo coletado em grandes bancos de dados pode ser agora retrabalhado e adquirir a tradicional forma do livro. A prática de reunir tweets em volumes impressos, por exemplo, já configura um sub-gênero na cultura da publicação pós-digital. Entre os muitos títulos que exploram esta vertente está McNugget, obra de Chris Alexander que consiste num índice massivo de tweets publicados na plataforma por centenas de usuários entre fevereiro e março de 2012 contendo a palavra McNugget.

Paul Soulellis, designer e pesquisador norte americano, descreveu as estratégias envolvidas na impressão de dados coletados na web utilizando os termos “pesquisar, compilar e publicar”. A coleção Library of the Printed Web, hoje pertencente ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, consiste em um conjunto de obras agrupadas por Soulellis sob um mesmo chapéu por terem sido produzidas segundo um dos três principais métodos envolvidos na produção deste tipo de publicação: Grabbing – agarrar ou pegar – Hunting  – caçar ou vasculhar – e Performing – performar (Soulellis, 2013).

Na categoria Grabbing, Soulellis inclui artistas que realizam buscas na web e, em seguida, publicam os resultados. Eles geralmente estão interessados ​​em como os mecanismos de pesquisa interpretam a ideia inicial expressa por meio da consulta. Um exemplo interessante deste tipo de publicação é o projeto 56 Broken Kindle Screens de Silvio Lorusso e Sebastian Schmieg, em que os dois artistas coletaram screenshots de e-readers com telas danificadas e os combinaram em uma pequena publicação conceitual e arquivística. Outro subgênero específico é baseado na seleção e extração de conteúdos  da Wikipedia. Alguns exemplos incluem: The Iraq War: A History of Wikipedia Changelogs (2010), de James Bridle, um registro impresso de todas as alterações pelas quais o artigo da Wikipedia The Iraq War passou desde a sua criação em dezembro de 2004, até novembro de 2009; e The Wiki Truth (2012), de Kyra Van Ineveld, que consiste em cinco grandes volumes contendo as cem entradas mais longas da Wikipedia.  

Para Soulellis, Hunting refere-se a operação de coletar capturas de ecrã específicas com o objetivo de embasar uma ideia. Os artistas que trabalham com essa abordagem geralmente ignoram a maioria dos resultados de uma busca porque estão procurando por “exceções”. Apesar de muitos livros de fotografia serem criados valendo-se de estratégias similares,  asoue, um acrônimo para A Series of Unfortunate Events, de Michael Wolf, ganhou notoriedade nesta categoria por apresentar uma série de screen shots mostrando cenas quotidianas retiradas do Google Street View.

Performing é o termo escolhido pelo autor para descrever a categoria que inclui artistas que usam uma metodologia processual ou performativa que se materializa em algum lugar entre a web e a impressão. Seu principal exemplo é American Psycho, de Jason Huff e Mimi Cabell, uma versão do romance original de Brett Easton Ellis, em que todo o texto (impresso em branco sobre branco e, portanto, “invisível”) é pontuado por anúncios contextuais obtidos graças ao envio do mesmo texto, página por página, através do Gmail. Esta publicação é um exemplo do que pode ser mais amplamente definido como “publicação processual”, já que o materialização do trabalho coincide com o processo de edição.

Conclusão

Os livros experimentais mais interessantes estão repletos de materiais que, por diversas razões, não foram concebidos para serem impressos. Neste sentido, imprimir conteúdo apropriado da web é também um gesto de subversão. Kenneth Goldsmith, fundador da UbuWeb, explora esse aspecto em várias de suas obras. Em uma ação radical e simbólica, Aaron Schwartz fez o download e compartilhou 2,7 milhões de publicações acadêmicas protegidas por direitos autorais da plataforma JSTOR. Como resultado, ele foi preso e ameaçado com uma possível multa de um milhão de dólares, além de vários anos de prisão. Em 2013, Aaron cometeu suicídio, aos 26 anos. Um dos mais importantes trabalhos de Goldsmith – inspirado por Schwartz – chamou-se Printing out the Internet. Para realizá-lo, o artista criou um open call convidando o público a imprimir qualquer parte da web e lhe enviar esse material pelo correio. As toneladas de papel recebidas foram organizadas em grandes pilhas e exibidas durante um mês na galeria LABOR, na Cidade do México.

Neste contexto, a impressão de materiais encontrados na web extrapola a simples transposição de conteúdo do âmbito virtual ao físico. O processo deliberado de compilação, seleção, edição e distribuição transforma o material original e agrega novas cargas simbólicas. A curadoria de conteúdos online se tornou uma ferramenta de trabalho de designers e artistas contemporâneos, que coletam e alteram páginas, fotografias, vídeos e textos, criando novas narrativas e estéticas. Muitos desses conteúdos fazem parte de uma unidade visual que é reconhecível universalmente graças à onipresença da vida online em geral e são essenciais para o estabelecimento de práticas críticas no campo do design e das artes visuais.

Imagens

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Richard Prince, Untitled (portrait), 2015, Inkjet on canvas, 65 ¾ × 48 ¾ inches (167 × 123.8 cm)
Photo by Rob McKeever

 

Paul Soulellis, Library of the Printed Web, installation view, 2013
Resultado de imagem para Printing out the Internet
Kenneth Goldsmith, Printing Out the Internet, Installation view, 2013

Bibliografia

BOURRIAUD, Nicolas. (2005). Culture as screenplay: how art reprograms the world. 2ª edição, Lukas & Sternberg, Nova Iorque.

KRAUSS, Rosalind. (1999). Voyage on the North Sea: Art in the age of the post/medium condition. 1ª edição, Thames and Hudson. Nova Iorque.

LETHAM, Jonathan. (2007). The Ecstasy of Influence. [Consult. 13 Mar. 2019]. Disponível em: https://harpers.org/archive/2007/02/the-ecstasy-of-influence/

LUDOVICO, Alessandro. (2012). Post-Digital Print – The Mutation of Publishing since 1894.1ª edição, Onomatopee, Eindhoven. [Em linha]. [Consult. 17 Mar. 2019]. Disponível em https://monoskop.org/images/a/a6/Ludovico,_Alessandro_-_Post-Digital_Print._The_Mutation_of_Publishing_Since_1894.pdf

PRINCE, Richard. (2015). Press Release New Portraits, Gagosian Gallery. [Em linha]. [Consult. 20 Mar. 2019]. Disponível em https://gagosian.com/exhibitions/2015/richard-prince-new-portraits/

SOULELLIS, Paul. (2013). Search, compile, publish [Em linha]. [Consult. 05 Dez. 2018]. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1ERBNnfo-doh-dRhn3oEuzfw14ZipRndtYwfF–mvLhg/edit

 

Finders Keepers

starwars
Martina Vacheva, Star Wars, 2015, tinta acrílica sobre papel, 18 × 25.5 cm

“Notions of originality (being at the origin of) and even of creation (making something from nothing) are slowly blurred in this new cultural landscape marked by the twin figures of the DJ and the programmer, both of whom have the task of selecting cultural objects and inserting them into new contexts.”
— Nicolas Bourriaud

A apropriação, procedimento pivotal de movimentos artísticos do século XX, adquire novos contornos na contemporaneidade, marcada pela total saturação do espaço cultural pela imagem, seja pela ação do marketing, dos meios de comunicação ou do ciberespaço [1]. Neste contexto, artistas e designers têm a sua disposição um enorme acervo de conteúdos – protegidos ou não por direitos autorais – que podem ser acessados e processados através de plataformas online. O trabalho aqui apresentado busca analisar a produção de artistas e designers contemporâneos cujas obras explorem os limites da apropriação, identificando algumas das principais maneiras como este repertório é utilizado na produção de objetos culturais contemporâneos. 

— Caio Guedes

BOURRIAUD, Nicolas. (2005). Culture as screenplay: how art reprograms the world. 2ª edição, Lukas & Sternberg, Nova Iorque.

[1] KRAUSS, Rosalind. (1999). Voyage on the North Sea: Art in the age of the post/medium condition. 1ª edição, Thames and Hudson. Nova Iorque.

 

 

 

 

Apropriação e a Arte da Cópia

A drástica democratização da internet e dos dispositivos móveis, acompanhada da proliferação das mídias sociais, criaram novos paradigmas de produção, comércio e disseminação de trabalhos artísticos e acirraram ainda mais a saturação do espaço cultural pela imagem – seja pela ação do marketing, dos meios de comunicação ou do ciberespaço. Segundo Fredric Jameson, a completa permeação da vida cotidiana pela imagem significa que a experiência estética encontra-se agora fragmentada, em uma expansão da cultura que não apenas tornou a noção de individualidade de uma obra de arte totalmente problemática, mas também esvaziou muito o conceito de autonomia estética. (Krauss, 1999). Em um contexto altamente conectado, artistas e designers têm a sua disposição um enorme acervo de mídias que podem ser acessadas e processados através de plataformas online.

O termo apropriação é empregado pela história e pela crítica de arte para indicar a incorporação de objetos extra-artísticos, e algumas vezes de outras obras, nos trabalhos de arte. O procedimento remete às colagens cubistas e às construções de Pablo Picasso e Georges Braque, realizadas a partir de 1912. Desse momento em diante, colagens visuais, sonoras e textuais tornaram-se o epicentro de uma série de movimentos no século XX: futurismo, cubismo, dadaísmo, música concreta, situacionismo, pop art e o apropriacionismo.

Segundo Jonathan Lethem, à medida que os exemplos se acumulam – a música de Igor Stravinsky e de Daniel Johnston, a pintura de Francis Bacon e Henry Darger, os romances do grupo Oulipo e de Hannah Crafts, assim como os textos favoritos, que se tornaram problemáticos para seus admiradores após a descoberta de elementos ‘plagiados’, como os romances de Richard Condon ou o Sermões de Martin Luther King Jr. – fica evidente que a apropriação, a imitação, a citação, a alusão e a colaboração sublimada consistem em uma espécie de condição sine qua non do ato criativo, permeando todas as formas e gêneros no campo da produção cultural.

Tom Sachs, Hermés Value Meal, 1997, papel cartão e cola quente15.35″ x 7.87″ x 7.87″

Neste sentido, a apropriação na arte contemporânea relaciona-se diretamente ao conceito de pós-produção como abordado por Nicolas Bourriaud em Culture as Screenplay: How Art Reprograms the World. No texto publicado em 2005, o autor descreve um aumento constante na produção de trabalhos artísticos com base em obras preexistentes, notadamente a partir do início da década de 90. A arte da pós-produção teria surgido, então, como resposta ao caos crescente da cultura global na era da informação, caracterizado por um aumento vertiginoso na oferta de imagens e na anexação de formas antes ignoradas ou desprezadas pelo mundo da arte. Ainda de acordo com Bourriaud:

Noções de originalidade (estar na origem de) e até mesmo de criação (fazer algo do nada) dissolvem-se lentamente nesta nova paisagem cultural marcada pelas figuras gêmeas do DJ e do programador, ambos os quais têm a tarefa de selecionar objetos culturais e inserindo-os em novos contextos. (Bourriaud, 2005)

A produção de artistas contemporâneos como Barbara Kruger, Jeff Koons, Tom Sachs e Richard Prince, encontra na recontextualização de materiais provenientes da imprensa, campanhas de marketing, redes sociais e etc., seu ponto de partida. Em Patterns of Desire, publicação que inclui um pequeno ensaio da historiadora de arte feminista Linda Nochlin, Joyce Kozloff apresenta uma série de desenhos que recombinam obras de épocas e culturas distintas, incluindo vasos gregos, shungas japonesas, miniaturas eróticas indianas, rococós franceses, pinturas religiosas européias e o cubismo de Picasso. Kozloff, como mulher copiando essas obras originalmente feitas por e para homens, força a reconsideração do significado de mulheres nuas e de encontros sexuais, reposicionando-as de um lugar de passividade e objetivação para um lugar de poder.

O panorama apresentado acima  tem por objetivo apontar a apropriação como fator essencial à produção crítica em arte e design na contemporaneidade. Ainda que a discussão acerca dos direito de autor – em um ambiente cultural marcado pela facilidade com que falsificações e cópias não autorizadas circulam pela web – seja essencial, é preciso salientar a importância do livre acesso à informação online. Se aprovada, a reforma nas leis de copyright que atualmente transita no Parlamento da União Europeia, irá reformular as estruturas de funcionamento da internet, ameaçando a existência de de uma vasta gama de conteúdos que engloba de enciclopédias a memes.

– Caio Guedes


Referências Bibliográficas

BOURRIAUD, Nicolas. (2005). Culture as screenplay: how art reprograms the world. 2ª edição, Lukas & Sternberg, Nova Iorque.

LETHAM, Jonathan. (2007). The Ecstasy of Influence. [Consult. 13 Mar. 2019]. Disponível em: https://harpers.org/archive/2007/02/the-ecstasy-of-influence/

SCHRIJVER, Eric. (2005). Copy this Book: An Artist’s Guide to Copyright. 1ª edição, Onomatopee, Eindhoven.  

GOLDSMITH, Kenneth. (2011). It’s Not Plagiarism. In the Digital Age, It’s Repurposing [Em linha]. [Consult. 05 Dez. 2018]. Disponível em http://chronicle.com/article/Uncreative-Writing/128908/   

KRAUSS, Rosalind. (1999). Voyage on the North Sea: Art in the age of the post/medium condition. 1ª edição, Thames and Hudson. Nova Iorque.

  

Dark Patterns e os Labirintos da Desinformação

Segundo John Brownlee  (Fast Co. Design)Dark Patterns são decisões deliberadas de UI / UX  que procuram explorar a psicologia humana para fazer com que os usuários tomem decisões baseadas em armadilhas, imprevistos ou desinformação. Cunhado por Harry Brignull em 2010, o termo surge em um contexto marcado pelo boom das indústrias de comércio eletrônico. Visando aumentar o volume de vendas, obter assinaturas, coletar informações pessoais e etc., empresas associaram-se a designers para criar interfaces com o objetivo expresso de manipular os usuários de suas plataformas online.

Em termos gerais, este artigo pretende examinar tais “padrões escuros” de modo a destacar os problemas e questões éticas que acompanham a prática, bem como defender o papel do designers como agente facilitador e criador de transparência, e não de opacidade e manipulação.

Quando usamos a internet, normalmente não lemos cada palavra em cada página. Ao invés disso, fazemos leituras rápidas e assumimos resultados baseados em experiências prévias. Sabendo deste padrão, empresas aproveitam-se de convenções gerais para criar páginas, janelas e formulários que parecem indicar algo, enquanto na verdade nos levam a um caminho inesperado, ou ainda tornar mais difíceis – ou quase impossíveis – a tomada de decisões que não se alinhem aos seus interesses – como deletar uma conta ou cancelar um serviço.

Brignull, enumera em seu site as diferentes estratégias empregadas por uma enorme quantidade de empresas, incluindo gigantes como Microsoft, Facebook e Amazon. Estas técnicas incluem propagandas disfarçadas, botões que não levam ao destino previsto pelo usuário, percursos labirínticos, entre outros. A lista aponta estratégias como Bait and Switch, Forced Continuity, Hidden Costs, Misdirection, Price Comparison Prevention, Privacy Zuckering, Trick Questions e etc..

Grandes companhias fazem uso destes padrões sabendo que estão agindo no limite da ética e da legalidade. Em certos ocasiões, no entanto, essa fronteira é ultrapassada – como pudemos observar no caso de 2015 envolvendo o Linkedin. Através de uma sequência de páginas que faziam uso de Dark Patterns, a empresa obtinha acesso aos contatos de email do usuário e conseguia enviar diversas mensagens em nome dessas pessoas, com convites para se unir ao site. Este era o procedimento padrão da empresa, que passou a enviar ainda várias mensagens de follow up para aqueles que não aceitavam os convites. Muitos sentiram-se prejudicadas já que a enxurrada de emails enviadas em seu nome incomodavam os recipientes causando danos a suas reputações profissionais. A plataforma foi processada legalmente e, mesmo negando ter cometido qualquer erro, fechou um acordo de 13 milhões de dólares – o que não resultou em mais do que dez dólares para cada usuário.

Também pudemos notar uma aumento significativo no uso de Dark Patterns após a implementação de novas regulamentações referentes ao uso de cookies e acesso a informações pessoais. Atualmente, as plataformas online devem por lei pedir a autorização do usuário para que se acessem suas informações. Porém, a vasta maioria dos sites facilita apenas uma opção: aceitar integralmente a política previamente determinada, mesmo que o usuário sequer saiba o que isso significa. Se perguntados de forma direta e objetiva se gostariam de compartilhar suas informações, muitas pessoas certamente negariam, mas os banners e formulários que incluem as opções de privacidade são desenhados de forma que seja sempre mais fácil e mais intuitivo optar pela política mais invasiva – que mais beneficia as empresas. Os banners tomam conta da tela obrigando o utilizador a clicar em “aceitar” ou gastar tempo e energia buscando mais informações, ao invés de cumprir seu real objetivo ao acessar o site. Os botões e links para opções menos invasivas estão sempre escondidos, ou chamam menos atenção do que os para simplesmente aceitar. É quase certo que o usuário não vai entrar no labirinto em busca de garantir sua privacidade, e esta é uma escolha premeditada.

É importante estarmos cientes destes subterfúgios do design, tanto como usuários quanto como profissionais da área. Estes padrões vão contra princípios celebrados no design, que buscam desenvolver experiências fluidas e agradáveis, pensando no melhor aproveitamento do usuário. É preciso ter em mente que estamos interagindo com pessoas, e buscar relações humanas e éticas. Como usuários, precisamos estar atentos, denunciar empresas que usam o design de forma desonesta, e exigir que medidas sejam tomadas. Como designers, precisamos mostrar nosso desacordo e deixar de contribuir com a produção desse tipos de relação. Afinal, o design é também um lugar político.

Caio Guedes

We Value Your Privacy

Os data breaches que recentemente expuseram os dados pessoais de milhões de indivíduos – nomeadamente os casos envolvendo a Cambridge Analytica e a rede Marriott – foram suficientes para aumentar nossa preocupação com privacidade, mas não para gerar mudanças efetivas na forma como nos comportamos on-line. Isso acontece, em parte, porque tais vazamentos raramente são acompanhados de consequências diretas, capazes de afetar nossa vida quotidiana.  

Mantivemos nossas contas no Facebook em funcionamento mesmo depois de sabermos que a empresa havia sido implicada em investigações acerca da interferência estrangeira nas últimas eleições presidenciais norte-americanas. Nessa mesma direção, acredita-se que companhias como a Cambridge Analytica tenham “minado” informações privadas de milhões de perfis como parte de um projeto amplo, que colaborou com a implementação de agendas conservadoras em governos do mundo todo. 

Apesar do fato de muitos, incluindo Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, demonstrarem suas preocupações com a privacidade cobrindo as câmeras embutidas em seus laptops com um pedaço de fita, está cada vez mais claro que nossos dispositivos eletrônicos também estão nos “ouvindo”. Conversar com um amigo sobre a intenção de fazer um mestrado, certamente fará com que nossas mídias sociais sejam inundadas com anúncios universitários.

David Samuels, em seu artigo “Is Big Tech Merging with Big Brother? Kinda Looks Like It”,  aponta para o fato de que a recolha de dados por parte das gigantes do Vale do Silício, antes associada a simples estratégias de marketing, parece, agora, ter se transformado em uma potente ferramenta de vigilância e manipulação, capaz de gerar impactos muito reais em nossa sociedade.             

Caio Guedes

Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, WIRED. Fevereiro, 2019.

 

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