Por um design (auto) crítico e especulativo

A compreensão do design sob uma perspectiva crítica articula uma série de complexos desafios teóricos e práticos. Embora seja uma disciplina que por décadas foi trabalhada a partir de um viés majotariamente técnico [1], trata-se de um campo do conhecimento que, cada vez mais, abre-se para suas implicações sociais, políticas e culturais, orientando seu desenvolvimento nessas direções. Essa vertente crítica do design, em oposição a um design afirmativo, empenha-se em problematizar, propor alternativas e imaginar futuros mais harmônicos através do design. É o pensamento crítico traduzido em materialidade [2].

Esses novos vetores de expansão, naturalmente, não surgiram no vácuo. Trata-se de um movimento que vem ganhando força desde a década de 90 e que tem como principais expoentes, Anthony Dunne e Fiona Raby, da Royal College of Arts, em Londres. A dupla inglesa cunhou o termo Speculative Critical Design (SCD), conceito que atualmente centraliza as discussões de acadêmicos e profissionais da área. No panorama do SCD, entende-se o design como meio, não como processo. O objetivo é provocar nossa compreensão sobre como será o futuro, explorando livremente nossa imaginação e de certa forma nos ajudando a efetivamente a moldar esse futuro.

Uma parte considerável dos projetos desenvolvidos no terreno do SCD trabalham articulando visões distópicas de futuros – sim, no plural. Para Stuart Candy, futurologista importante no trabalho de Dunne & Raby, não há futuro, mas futuros possíveis, futuros prováveis e futuros preferíveis. E é justamente sobre este espaço existente entre a realidade do hoje e as possibilidades do amanhã é que se pode especular através do design, construindo cenários em uma espécie de ficção social conceitual e pedagógica.

Há, todavia, um grande porém acerca das formulações dessa escola crítica especulativa. Responsáveis pelo projeto A Parede, a dupla de designers brasileiros Luiza Prado e Pedro Oliveira levantaram recentemente questionamentos acerca dos privilégios presentes no ambiente do SCD, algo que inevitavelmente acaba por se refletir em muitos projetos. Por vezes, o futuro distópico pensado pelo designer médio (homem, europeu e branco) é na verdade a crua realidade de alguém em outra parte do mundo. Um caso notável envolve o projeto Repubic of Salivation, em que o duo Burton Nitta esboça um futuro definido pelo racionamento de alimentos e a fome – algo que, como é sabido, não aflige milhares de pessoas no mundo atualmente. Algumas distopias soam familiares demais…

Desconsiderar as configurações históricas que nos trouxeram até aqui, seja por pura ignorância ou por conforto, põe verdadeiramente em cheque o caráter crítico do design. Vislumbrar mudança social é louvável, não há dúvidas. Mas será mesmo possível fazê-lo sem pautar essa desejada transformação com perspectivas feministas, antirracistas e anticolonialistas, por exemplo? Eu acredito que não.

O potencial criativo do design crítico especulativo é colossal. Já a forma como esse conceito será empregado nas próximas décadas é que deve definir sua importância prática na construção de um futuro menos distópico. Em uma aplicação diga-se, preferível, o SCD faz uma autocrítica, sai de sua zona de conforto desenvolvida e abre-se totalmente para o implacável domínio dos não privilegiados, situando-se não somente como um campo de conhecimento, mas como importante linha de força para a transformação do mundo.

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Referências:
[1] Mitrović, Ivica (2015). Introduction to Speculative Design Practice. Disponível em: http://speculative.hr/en/introduction-to-speculative-design-practice/

[2] Dunne, Anthony and Fiona Raby (2013). Speculative Everything. Design, Fiction and Social Dreaming. Cambridge: The MIT Press.



Imagem destacada: Dunne & Raby (2009). DESIGNS FOR AN OVERPOPULATED PLANET: FORAGERS. Disponível em: http://www.dunneandraby.co.uk/content/projects/510/0.

Punk rock design

Abelhas-robôs, lentes que gravam a visualização humana, memórias cerebrais públicas,  mortos ressuscitados em máquinas e até a construção de paraísos artificiais, Black Mirror é um das mais bem sucedidas séries de TV que aborda a forma com que invenções tecnológicas avançadas, inseridas em realidades alternativas, impactam a sociedade. Os artefatos apresentados na série, ainda longe de serem acessíveis para a humanidade, são factíveis e facilmente absorvidos pelo espectador, pois além de se conectarem de maneira mais estreita com os desejos e medos do humano pós-moderno, revelam também todo o potencial do exercício especulativo em testar e articular realidades alternativas.

A dupla de designers, Anthony Dunne e Fiona Raby, definem que o design especulativo se apoia na concepção de futuros possíveis com base em fracos sinais do presente, o que acaba por colocar em cheque toda e qualquer especulação que se materialize em artefatos oriundos de frágeis tendências emergentes, inseridas em contextos pré-existentes, e que representam de maneira mais ou menos clara, fortes interesses comerciais. Dessa forma, o exercício especulativo só seria eficiente se sua prática estiver focada na re-imaginação de futuros possíveis.

No cenário de problemas globais eminentes, como crises financeiras, super-populações e grandes mudanças climáticas, frutos de uma total saturação do modelo capitalista do século XX, Dunne e Raby postulam que ao se tomar a real dimensão desses desafios e verificar a inviabilidade de continuarmos no mesmo curso, não devemos transformar sonhos em meras esperanças de um futuro melhor, e sim, devemos explorar alternativas que se apoiam em ressignificar valores, materializando propostas que se apresentam como alternativas positivas, ou até negativas, ao que se pretende criticar. Ao instigar a reflexão e debate em favor de um pensamento mais ideológico, que confronta sobre como e onde nossos desejos estão centrados e sobre como gostaríamos que a vida fosse conduzida, o design especulativo encontra então terreno mais fértil para se desenvolver como disciplina, pois utiliza alternativas legítimas a partir daquilo que está fora do sistema vigente.

É notório que os sonhos modernistas do passado gradualmente se mostraram inviáveis face às crises e transformações globais atuais. A comunhão desses fatores com o crescente potencial de compartilhamento de informação e a democratização das tecnologias, faz com que diferentes abordagens possam ser aplicadas na busca por caminhos alternativos. É nesse contexto que o design crítico ganha ainda maior relevância, pois além de confrontar o status quo, permite a desconstrução da ideia do design centrado na satisfação do usuário pré-condicionado e pré-conformado com suas realidades de consumo pré-existentes.

Nesse sentido, Vinca Kruk e Daniel van der Velden do studio Metahaven, postulam que o design especulativo empreende buscas por conhecimentos “avançados”, onde a prática só pode ser conduzida em espaços geradores de debate políticos e sociais profundos, distantes de causas emergentes que colocam designers como verdadeiros bombeiros de crises e/ou guardiões de boas moralidades. Moralidades essas que a dupla aponta como repleta de contradições, fruto de visões viciadas e ultrapassadas do designer como um agente eficiente do “bem” comum. Assim, a dupla afirma que o design crítico não deveria gerar reações ao contra-estabelecido, e sim propor algo novo como contra-cultura, ao exemplo do que foi o punk rock enquanto gênero que realmente trouxe espaços inovadores para o rock e para a própria música.

Um bom exemplo é o que o studio apresenta em The Sprawl – propaganda about propaganda (2015): uma instalação multi-canais que revela as maneiras pelas quais uma fantasia pode ser projetada de modo a parecer ou ser sentida como uma verdade. Nesse projeto existe a clara intenção de fazer a política progressista re-imaginar sua própria estrutra de atuação como ponto de partida para uma possível mudança. E isso, sem juízo de valor, se trata também de repensar a própria propaganda política em si.

 

SONIC ACTS FESTIVAL 2017 Metahaven – Recent Hystory (The Sprawl Continues)

 

Assim, a proposta do design especulativo não é gerar mais uma utopia tecnocrata, e sim propor uma contra-cultura imaginativa, consciente de suas armadilhas, e que procurar criar profecias vivas para os tempos que vivemos. É nesse contexto que o sonhar e o fazer dos músicos se afirma como poderosa atitude possível para os designers, pois dentro das palavras de Patti Smith: “I don’t fuck much with the past but I fuck plenty with the future.”

_Fabio De Almeida

Referências Bibliográficas

[1] Metahaven. (2011). “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa. pp. 257-271. https://tinyurl.com/SpeculativeDesign

[2] Van der Velden, Daniel. (2006). “Research & Destroy – A Plea for Design as Research” Metropolis M #2. Disponível em: http://bit.ly/YLIRx1

[3] “AutoReply: Modernism: A conversation with Experimental Jetset” Print, Outubro 2011. Disponível em: http://bit.ly/oDuDwn

[4] The Relationship between design and populist politics. 2009. By Gabrielle Kennedy. http://design.nl/item/the_relationship_between_design_and_populist_politics

 

Imagem: Black-Mirror TV Serie, 2018. Bandersnatch episode. 

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