Barreiras Democráticas

Uma sociedade humana mediada por máquinas inteligentes – foi o que a ficção científica nos prometeu explicar. Hoje, em 2019, podemos imaginar um futuro próximo daquilo que foi pensado nestes livros. As relações já estabelecidas entre empresas como a Amazon, Facebook, são perigosas. As grandes big tech armazenam os nossos dados e cabe-nos a nós entender  quais as implicações de uma sociedade tecnocrática onde as empresas de big data valem milhões. Calha bem às empresas terem lucro e os governos e agências oficiais também ganham em investir em tecnologia cada vez mais inteligente para ajudar em casos específicos.

A grande questão é, qual será a barreira? Até onde é que é a democracia pode aceitar este jogo entre as empresas de big data e os governos/ agências oficiais? O artigo do Expresso menciona o caso da Amazon, que já foi pressionada por juízes para entregar gravações de aparelhos Echo que foram realizadas sem o conhecimento dos utilizadores.  Neste caso a Amazon decidiu não ceder informação. Esta é uma empresa que vende câmeras e microfones. Em que condições é que a Amazon permitiria usar o seu vasto leque de tecnologia como rede de vigilância?

Se formos positivos, podemos imaginar que todas estas tecnologias vão evoluir em função do bem, onde os sistemas inteligentes ajudam a analisar informação para identificar potenciais assassinos, ou a filtrar até notícias falsas. Nesta visão, as máquinas ajudariam-nos a sermos melhores seres-humanos. Podemos optar por esta posição optimista, no entanto, deixo uma citação que achei relevante e que vai contra esse positivismo:  ” Uma rede nacional ou global de vigilância que use algoritmos beneficentes para reconfigurar os pensamentos e ações humanas sob formas que as elites acreditem ser justas e benéficas para toda a humanidade dificilmente será o caminho para um novo Éden. É o caminho para um campo prisional”.

Estado de vigilância

Numa era em que é tecnicamente possível criar e implementar um sistema de vigilância na sociedade será a democracia suficiente para não o por em prática ou será a República Popular da China a primeira a chegar a um futuro inevitável?

Numa entrevista a Tim O’Brien (director geral e programas de Inteligencia Artifical da Microsoft) o Jornal Económico questionou que regras deveriam ser criadas para garantir a segurança dos cidadãos num mundo em que é tecnicamente possível o Governo seguir todos os passos de um invidio. O’Brien responde que acredita que a privacidade é um direito humano elementar, mas que a utilização das tecnologias varia de fronteira para fronteira, dependendo da Constituição e do que é legal em cada país.

À partida países democráticos estariam livres desse sistema de vigilância. Mas, se pensarmos em países como os EUA em que as empresas de big data já se começam a fundir com agências de segurança em negócios bastante favoráveis para os dois lados questionamos se esse não é começo de um sistema de vigilância à semelhança do ficcional Big Brother.

Rita Franco Barroso

Comentário ao artigo “Todos somos dados”, da autoria de David Samuel no Seminário Expresso.

A linguagem dos zeros e uns

O texto que se segue visa comentar o artigo “Todos somos dados”, da autoria de David Samuel, publicado no Semanário da Revista Expresso a 9 de Fevereiro de 2019.

Um mecanismo de inteligência artificial implementado na génese da organização de uma sociedade, que distinga perfeitamente o certo do errado e que omita da equação o erro do humano enviesado pela sua experiência pessoal faz querer que se instituiria num futuro utópico. Mas quando essa realidade é imposta aos cidadãos por parte do estado, como é o caso do relato com que se inicia o artigo, soa, por oposição, a uma realidade distópica.

Sendo que os aparelhos electrónicos que possuímos são cada vez mais omnipresentes, produzimos constantemente dados acerca das nossas vidas, ou por outra, os mais variados aspectos das nossas vidas são registados como 0 e 1 e capitalizados pelas empresas de big data. Se num futuro utópico os “monopólios de informação poderiam ser instrumentos poderosos para reajustar sociedades deformadas pelo racismo, o sexismo e a transfobia” [1], no presente distópico que, por enquanto, já se vive na República Popular da China esses monopólios conduzem o estado a classificar os actos dos seus cidadãos como “aprovadores” ou “desaprovadores”.

A partir do momento em que nos tornarmos indivíduos passíveis de serem reeducados à luz de uma imagem fabricada pelo estado então a democracia pode estar, de facto, em risco.

 – Ana Teresa Morais


[1] Samuels, D. (2019). Todos somos dados. Expresso. Disponível em: https://leitor.expresso.pt/semanario/SEMANARIO2415/html/revista-e/-e-1/Todos-somos-dados

O domínio das tecnologias

Tendo como exemplo a situação de pressão caracterizada pelo domínio por parte do estado Chinês do comportamento da sua população, o autor do artigo realça a relação existente entre o meio tecnológico e os domínios económicos.

Através do mapeamento da evolução desta relação e destacando os pontos de ligação existentes entre estas duas potências, o autor demonstra a atual contaminação do meio tecnológico, caracterizada por interesses económicos e prestações de serviços em prol da divulgação de informação.

A posição do consumidor torna-se deste modo um “combate” contra as tecnologias dominantes, entrando num estado de conflito entre o que reconhecia como confiável e o receio de se encaminhar numa rota sem retorno.

Maria Fraga

Comentário ao artigo “Todos somos dados”, da autoria de David Samuel no Seminário Expresso.

Vigilância e resistência

A criação de um amplo sistema de vigilância formado pela cooperação entre as gigantes de big data e o Estado não pertence mais ao terreno da ficção científica. Passamos do ponto de especular se isso vai acontecer e chegamos ao momento de tentar entender quando um sistema com esse fim irá se estabelecer abertamente de vez.

Refletir sobre a inevitabilidade desse cenário, como sociedade civil, pode nos ajudar a estruturar possíveis formas de resistência (se é que elas existem). Até porque o momento de instabilidade democrática vivido em alguns países do ocidente (Estados Unidos, Brasil, França, UK…) mostra que o perigo autoritário pode não se limitar à distante China.

Comentário acerca do texto “Todos somos dados” do Semanário #2415 da Revista Expresso.

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