O criador, a máquina e o artífice

Com a Revolução Industrial, foi possível pela primeira vez sistematizar a produção de artefactos de índole cultural e utilitária para o consumo geral — um processo automatizado sediado na fábrica, capaz de reproduzir milhares de instâncias do mesmo objeto que a nível formal correspondem a um conjunto de standards que asseguram “qualidade” e “perfeição.” Nos últimos anos, com a exponencial proliferação da tecnologia digital, é normalizada uma cultura de produção suportada pela máquina enquanto um meio técnico horizontal e estandardizado. Este desenvolvimento permitiu à máquina executar uma função que seria até então exclusiva do ser humano — o papel de criação.

Consideremos a última constatação à luz do presente estado tecnológico da sociedade, e dos modos com que o cidadão se relaciona com este novo sistema na produção de matéria cultural. Joseph Grima, no seu artigo Adhocracy (2012) considera a revolução da máquina enquanto produtora em diálogo com a poética e missão do ato de criar dentro da atividade do designer e do artista como agentes ativos na transformação da sociedade. O autor apresenta a posição do criador face à industrialização como uma atividade política, que deve exercer um pensamento crítico sobre o sistema que esta instaura e que repercussões causa no cidadão. No entanto, este papel político tende a ser completamente nulificado pela necessidade do mercado e tende a ser absorvido no grandioso sistema de produção maquinizado. Nas práticas de produção, desenhar e criar, são sinónimos também de agir e questionar, tendo em conta que qualquer área científica de conhecimento que aplique a tecnologia como ferramenta prática é sempre suportada por um corpo investigatório que considera os contextos social, cultural, político. Criar algo pressupõe o exercício de “interrogar-se sobre o que é a definição de trabalho, o valor de propriedade intelectual, as éticas de consumo, e ainda, as possibilidades inerentes a novos processos produtivos.” [1] Grima define aqui o termo de adhocracia [2] — uma prática que pretende “interligar uma miríade de rizomas de ideias, objetos e fenómenos, interrogando-os, problematizando-os e interpretando-os” [3] sempre com o intuito de impactar o quotidiano.

Uma prática como a adhocracia permite posicionar o designer/artista dentro da sociedade com um papel de extrema relevância no desenvolvimento humanitário da mesma, visto que o seu conjunto de práticas se insere naturalmente nos processos de produção de artefactos culturais. No entanto, tal como referido anteriormente, o criador encontra-se numa posição sensível face a esta industrialização sistematizada, onde em grande parte a poética e missão do mesmo entra em conflito com o progressivismo tecnológico dominado pela economia e pelo consumo. E isto parte da consequência de a máquina ter sido isolada numa estrutura capital de progresso pela missão de progresso. Posto isto, a máquina não será alvo de demonização face a estas problemáticas. Afinal de contas, as práticas das artes e do design beneficiam da tecnologia como ferramenta, em qualquer momento histórico e social em que se situam. A máquina é uma ferramenta; uma que poderá desbloquear um potencial enorme na permeação dos diálogos críticos do designer e emancipar a sua produção de um sistema industrial — a “nova e sofisticada máquina atribui poder ao indivíduo.” [4]

Quando o designer produz segundo esta linha de pensamento, encontramo-nos não perante um produto, mas sim um artífice. Para compreender melhor este tipo de produção, introduzimos o termo de artífice e recontextualizamos os métodos de produção do criador na máquina independente. Richard Sennet — cujo trabalho incide na influência dos sistemas político-sociais sobre o cidadão, e na forma de que como este se relaciona com eles na sua atividade profissional — introduz o termo de artífice na sua obra The Craftsman (2008) e estuda-o em relação a uma cultura material. Segundo o autor, o “artesão representa a especial condição humana de participação.” [5] Do mesmo modo que o trabalho do produtor insere-se dentro de uma sociedade moderna, o trabalho do artesão também se insere dentro dos métodos que a tecnologia promove no ato de criar. No entanto, estas motivações que surgem do estatuto que o sujeito criador possui no corrente estado tecnológico das áreas científicas e artísticas de produção são subjacentes a um “princípio moral de executar para a comunidade.” [6]

A máquina evoluída, ubíqua e produtora abre novas portas ao designer/artista durante a atividade criativa: apesar de existir um domínio económico e capitalista dos processos de produção e da circunscrição da máquina numa estrutura de poder, a máquina pode atuar com todas as suas potencialidades técnicas sobre a comunidade desde que o criador que a opera aponte a sua ação para um resultado independente e individual. O criador que age segundo estas motivações torna-se participante no processo de produção por si mesmo e por extensão, na sociedade com que os artefactos resultantes deste processo atuam. O criador “pode controlar as suas próprias ações durante a sua atividade; a técnica molda-se no seio do processo de trabalho; o trabalho encontra-se ligado à liberdade de experimentação […] e a política é medida pelos standards de satisfação individual e do artifíce.” [7] A máquina moldada por um discurso crítico e independente aproveita todas as capacidades de reprodução, sistematização e produção da fábrica enquanto preserva a identidade e ação transformadora do designer nos artefactos produzidos para a comunidade.

 

— Carlos Silva

 

Palavras-chave: máquina, industrialização, produto, adhocracia, artifíce.

 

Notas:

[1] “To make something […] is to interrogate oneself as to the definition of labour, the value of intellectual property, the ethics of consumption, and, for sure, the possibilities inherent in new productive processes.” (Grima 2012)

[2] “adhocracy” (Grima 2012)

[3]  “… to weave a critical thread through this rhizomatic multitude of ideas, objects and phenomena; it seeks to interrogate them, problematise them and interpret them.” (Grima 2012)

[4] “New, sophisticated machines empower individuals…” (Grima 2012)

[5] “The craftsman represents the special human condition of being engaged.” (Sennett 2008, pp. 20)

[6] “… the moral imperative to do work for the sake of the community.” (Sennett 2008, pp. 28)

[7] “… the worker can control his or her own actions at work; skill develops within the work process; work is connected to the freedom to experiment […] and politics are measured by the standards of inner satisfaction, co-herence, and experiment in craft labor.” (Sennett 2008, pp. 27)

 

Bibliografia:

Grima, J. (2012). Adhocracy. Em M+ Matters.

Sennett, R. (2008). The craftsman. New Haven: Yale University Press. pp. 19-28.

 

O design ativista como vetor de mudança social

A necessidade por inovação, advinda da revolução tecnológica e da globalização, provocou uma ruptura no modo de produção, consumo e organização social. Quem consome necessita agora de produtos e serviços que atendam às necessidades, cada vez mais específicas e personalizadas, do século XXI. Em muitos casos, para atendê-las, transforma-se em maker e cria seu próprio ecossistema. Esta “inovação disruptiva”, termo trazido por Justin McGuirk [1], também afeta o lado de quem produz. Especificamente, no campo do design, há uma crescente necessidade pela reinvenção da disciplina, atribuindo novas funções além da criação de novos bens de consumo. A este novo cenário, tem-se a ascensão do design social, ou “design para os outros 90%”.

Através de uma mudança de paradigma, o designer assume um papel ativo na construção da realidade. O design social tornou-se um meio para expressar ideias, levantar questões provocativas e abordar as ansiedades sociais e individuais [2]. Entende-se que a ideia de romper com o passado para inaugurar uma nova era não é novidade para o design. Contudo, a diferença hoje é que o design transformou-se em uma área em que há possibilidade de desenvolvimento em distintos campos da sociedade. Aparentemente, não existe mais nada que não se encaixe no âmbito do design [1]. Além disso, através da configuração da sociedade em redes digitais, é possível armar forças-tarefa interconectadas que questionam estruturas políticas e sociais dominantes [3]. Problematiza-se, dessa forma, que contributos o design, enquanto disciplina cultural, pode oferecer frente aos desafios sociais contemporâneos?

Num período em que vimos alguns países terem sua democracia ameaçada, políticos de extrema-direita serem eleitos e uma tensão política agravar-se globalmente, muitos designers viram-se na obrigação de utilizar suas ferramentas como forma de expressão e ativismo. Como expoente, pode-se citar o projeto Me & EU, dos britânicos Nathan Smith e Sam T. Smith, que após o resultado da votação do Brexit, desenvolveram um projeto de cartões postais, com intuito de evocar um senso de união e de manter os europeus conectados. Em um contexto de gênero e tecnologia, temos o coletivo Feminist Internet, idealizado por estudantes e docentes da University of the Arts London, que pretende desenhar as bases de como pode ser uma internet feminista e, a partir disso, desenvolver iniciativas que contemplem estas diretrizes.

Um expoente brasileiro da prática do design social é o Design Ativista, idealizado pela Ideia Fixa e pela Mídia Ninja, que atualmente conta com uma rede de 4 mil designers atuantes. O projeto surgiu durante a eleição presidencial de 2018, que resultou na vitória do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. De acordo com os idealizadores, a intenção é usar o design como ferramenta de ativismo social, traduzindo para uma linguagem visual acessível diversas demandas políticas do país. Ademais, a troca de experiências e capacitação são incentivadas através de encontros, palestras e debates com estudantes e profissionais da área. A inciativa ainda contempla a mediação de um grupo fechado de designers no Facebook, que desenvolve e divulga posters digitais – de acordo com a agenda da semana – para serem compartilhados online, e a alimentação de um perfil na rede social Instagram com esses objetos de comunicação. 

Imagens compartilhadas no perfil do Instagram @designativista

Essas iniciativas são apenas algumas amostras do potencial que o design, como ferramenta social, pode assumir. Acredita-se que o contributo do designer, como ator social, não deve ser somente ferramental, através de técnicas, como também intelectual e crítico. De modo mais amplo, entende-se que a disciplina não precisa ser ou uma construtora de negócios e produtos ou uma disseminadora de ideias. Muitas vezes, é preciso assumir múltiplas funções e compreender que é papel do designer contemporâneo, também, atender a demandas sociais urgentes.

[1] McGuirk, Justin. (2014). Dreaming of Year Zero. In Sacchetti, Vera e Jan Boelen. (eds.) Designing Everyday Life. Ljubljana: Park Books. Disponível em: http://www.justinmcguirk.com/dreaming-year-zero

[2] Walker, Rob. (2014). “A Golden Age for Design”. New York Time. Em anexo neste documento. Disponível em: http://www.tmagazine.blogs.nytimes.com/2014/09/22/design-golden-age/

[3] Grima, Joseph (2012). Adhocracy. In M+ Matters. Disponível em: http://www.mplusmatters.hk/asian-design/paper_topic3.php.

Solicitações não autorizadas [Comentário]

Já não é novidade que empresas compartilham dados sensíveis de usuários com terceiros, a fim da comercialização de dados da publicidade, assim como para fins governamentais de segurança. E para quais fins nossos dados são comercializados?

São questionamentos sobre a nossa privacidade que abrimos sobre à crítica ao Big Brother, segundo o artigo “Todos Somos Dados” publicado no Expresso, escrito por David Samuels, onde vemos que o Estado não se envolve apenas em um jogo comercial sobre a tecnologia, mas em um jogo que pode ferir a democracia e a segurança pública.

Um dado interessante, segundo a revista Época, é que o governo brasileiro pede o acesso de aproximadamente 600 dados de celulars iOS da Apple a cada semestre, em média 2.324 identificadores envolvidos, e mesmo com todo relatório de transparência e proteção ao usuário que a empresa americana tem, cerca de 85% das solitações são atendidos. Mas e os nossos termos de privacidade, aonde ficam?!

Vemos cada dia mais, nós usuários e compartilhadores de dados, inseridos num jogo capitalista em que nós mesmos criamos, sobre o nosso sistema, contra nós mesmo a teia onde a tecnologia constrói seu reinado sobre os nossos próprios dados, com os nosso concentimento, dia mais dia. Ou seria sem nossos concentimentos?!

Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, Expresso. Fevereiro, 2019.

 

 

 

 

 

We Value Your Privacy

Os data breaches que recentemente expuseram os dados pessoais de milhões de indivíduos – nomeadamente os casos envolvendo a Cambridge Analytica e a rede Marriott – foram suficientes para aumentar nossa preocupação com privacidade, mas não para gerar mudanças efetivas na forma como nos comportamos on-line. Isso acontece, em parte, porque tais vazamentos raramente são acompanhados de consequências diretas, capazes de afetar nossa vida quotidiana.  

Mantivemos nossas contas no Facebook em funcionamento mesmo depois de sabermos que a empresa havia sido implicada em investigações acerca da interferência estrangeira nas últimas eleições presidenciais norte-americanas. Nessa mesma direção, acredita-se que companhias como a Cambridge Analytica tenham “minado” informações privadas de milhões de perfis como parte de um projeto amplo, que colaborou com a implementação de agendas conservadoras em governos do mundo todo. 

Apesar do fato de muitos, incluindo Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, demonstrarem suas preocupações com a privacidade cobrindo as câmeras embutidas em seus laptops com um pedaço de fita, está cada vez mais claro que nossos dispositivos eletrônicos também estão nos “ouvindo”. Conversar com um amigo sobre a intenção de fazer um mestrado, certamente fará com que nossas mídias sociais sejam inundadas com anúncios universitários.

David Samuels, em seu artigo “Is Big Tech Merging with Big Brother? Kinda Looks Like It”,  aponta para o fato de que a recolha de dados por parte das gigantes do Vale do Silício, antes associada a simples estratégias de marketing, parece, agora, ter se transformado em uma potente ferramenta de vigilância e manipulação, capaz de gerar impactos muito reais em nossa sociedade.             

Caio Guedes

Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, WIRED. Fevereiro, 2019.

 

THINKING MACHINES

O artigo “Todos Somos Dados” publicado no Expresso, originalmente escrito por David Samuels, discute a utilização de dados recolhidos de utilizadores por aqueles no poder.

O mercado à volta do tratamento de dados pessoais recolhidos através das “novas tecnologias” está em grande desenvolvimento. As empresas privadas deste ramo têm cada vez mais poder na sociedade devido ao interesse por parte dos governos. O Estado beneficia do conhecimento de dados privados dos seus cidadãos, ajuda na vigilância e no controlo da sociedade, mas põe em causa a democracia. O artigo menciona a tendência para o aumento da integração da inteligência artificial neste negócio, dando cada vez mais controlo da “máquina” sobre nós.

São questionadas as diferenças entre o controlo de humanos feito por humanos e feito por máquinas. Será o futuro da sociedade o controlo através de máquinas automatizadas? Estarão estas máquinas programadas com ideais humanos e se sim, quais ideais são considerados os certos? Ou estarão as máquinas numa fase de pensamento próprio que poderão fazer decisões sobre os comportamentos aceitáveis na sociedade?

O que se toma como inevitável é a comercialização e controlo da informação privada de utilizadores, da sua utilização por aqueles no poder.

 

Ana Serra

Escolha a vida!

«Escolha a vida, escolha um emprego, escolha uma carreira, escolha uma família. Escolha uma grande TV … »

Lembre-se de Trainspotting? O filme nos cativou com um discurso transgressivo; nos convidou a abraçar o niilismo, a busca do prazer imediato e a autodestruição como a única alternativa a um sistema voraz que consumia nossas existências mundanas.

20 anos depois, como se fosse um software, a sequela desse mesmo filme nos ofereceu uma versão atualizada do mesmo discurso:

«Escolha a vida. Escolha o Facebook, Twitter, Instagram e reze para que alguém em algum lugar se importe … »

E isso é certamente verdade, há alguém em algum lugar que se importa e muito.

O Samsara, (ciclo de reencarnações budistas) já é história; Agora você não precisa esperar pela sua próxima vida para reunir os frutos que você semeia durante a sua existência.

Seja gentil, cumprimente seus vizinhos, seja educado, e com um pouco de sorte você terá um Green Channel que lhe permite viajar, um bom serviço sanitário e um ótimo trabalho.

Existem várias referências que podem orbitar em perfeita harmonia com a iniciativa distópica que o governo chinês pretende realizar.

Foucault na sua biopolítica, falou de que as novas formas de poder impõem normas a nós sem que tenhamos consciência disso, cuja intenção não é mais subtrair a vida, mas produzi-la, regulá-la, torná-la eficiente.

O Panóptico Digital de Byung Chul Han usa a mesma ideia, dando-lhe a estrutura arquetípica da arquitetura da prisão.

Os irmãos Wachowski; já em 1999 previam o futuro da existência humana como mera fonte de energia a serviço das supra estruturas de um sistema hiper-tecnológico.

Longe da visão orwelliana, em que o sistema parecia obedecer às ordens de uma elite maquiavélica desprovida de escrúpulos e sedenta de poder, o que propomos aqui está mais próximo da ideia de um demiurgo sem cabeça. Um organismo vivo que vagueia pelas ruas das nossas cidades e que pouco a pouco acabará sendo instalado em cada uma de nossas cabeças.

Será que o hedonismo autodestrutivo e a lisergia imediata (como Mark Renton, Sick Boy, Spud e Tommy propõem) são a solução mais sensata?

 

O ressurgimiento do Big Brother

Hoje estamos diante do ressurgimento do grande irmão, de uma autocracia capaz de censurar e subjugar seus cidadãos. Dos casos de vigilância massiva e integração de tecnologias de detecção facial e processamento de grandes quantidades de dados, observamos como essa distopia Orwelliana ameaça se tornar uma realidade.

O autor do artigo “Todos somos dados” consegue expor esse fenômeno a partir de processos sócio-políticos que estão moldando essa distopia: a colaboração da Big Tech com o governo dos Estados Unidos, cujos efeitos colaterais são coercitivos socialmente (PENNY, 2016) e sistemas de pontuação usados pelo governo de Xi Jinping para moldar a moral e os comportamentos do povo chinês.

PENNY, Jon “Chilling Effects: Online Surveillance and Wikipedia Use“. Berkeley Technology Law Journal, Vol. 31, No. 1, p. 117, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.15779/Z38SS13

 

Big data, big techs e big brother.

Não há nada de novo sob o sol. Plataformas digitais fazem parte de nossas rotinas, e diariamente permitimos que nossos rastros digitais seja trocados por experiências que já não sabemos se conseguimos viver sem. Por outro lado, a aproximação dos governos com as gigantes da tecnologia colocam em cheque questões fundamentais sobre liberdade e controle. Até que ponto nossa submissão ao Big Brother seria uma realidade sustentável? O monopólio da informação estaria a serviço de um constante reajuste democrático das sociedades ou tudo figura apenas como a atualização da soberania dos interesses políticos e econômicos sob a humanidade?

Debates a parte, a história nos mostra que o bem geral, quando controlado e mediado por uma elite dominante, não nos oferece prognósticos de uma realidade mais livre e mais justa. Muito pelo contrário, no ritmo acelerado em que os algoritmos nos assistem, nos entendem e nos controlam, fica o desafio de saber como a humanidade despertará desse suposto sonho de um mundo ideal como uma resposta a equação de nossa existência.

Fabio De Almeida

Comentário ao artigo do Expresso “Somo todos Dados? Texto: David Samuels, WIRED. Fevereiro, 2019.

Big data, vigilância e censura na Internet

Atualmente, existe na China um sistema de crédito social, no qual os indivíduos são monitorizados através das suas ações online – um Big Brother do século XXI, que pune ou recompensa os cidadãos consoante as suas ações.

Apesar de não existir um sistema semelhante no Ocidente, várias empresas privadas trabalham com big datarecolhem, analisam  e até vendem os dados dos utilizadores. O Facebook esteve, em dezembro de 2018, envolvido numa polémica relativa à recolha de dados sem o consentimento dos utilizadores.

Numa perspetiva mais negativa, esta recolha de dados por estas empresas, a utilização de algoritmos e IA e mesmo de sistemas como o Echo, da Amazon, significam uma maior vigilância sobre os utilizadores, tanto pelas empresas como pelos próprios governos.

Por outro lado, o artigo apresenta uma perspetiva mais positiva, utópica mesmo, na qual os algoritmos bons poderiam ajudar a criar uma Internet mais “limpa”, com menos discursos de ódio e ajudar a combater racismo, sexismo, xenofobia, entre outros problemas sociais.

No entanto, os algoritmos não podem substituir nunca a responsabilidade humana, visto que o que estes podem errar.  Para além disso, o que é considerado discurso de ódio ou violência para alguém pode não o ser para outra pessoa – o que também enviesa as decisões dos bots sobre censurar ou não algum conteúdo.

Este texto constitui um comentário ao artigo “Todos Somos Dados”, escrito por David Samuels e publicado na edição 2415 da revista E, do semanário Expresso.

Falhar ao sistema

COMENTÁRIO A PARTIR DO TEXTO DO DAVID SAMUELS/WIRED* [1]

 

Quando pensamos num mundo controlado por grandes associações, onde os nossos pensamentos, ações e decisões são tomadas por uma terceira frente, acreditamos ingenuamente que é remota a nós; mas na realidade o que estamos vivendo agora é um fato ao que poucas pessoas escapam.

 

Essa imagem “manipuladora” da mídia de massa invadiu-nos até o núcleo. Fazemos tentativas regularmente fúteis para passar de incógnito, e sem perceber como estamos a cair nas armadilhas, que os nossos comportamentos são expostas e estão à venda pela melhor oferta.

 

Esta é uma imagem cada vez mais frequente, e esses mitos que vieram-nos falar sobre quedas, agora cercam- nos na vida cotidiana. As primeiras histórias sobre “algo maior” que ele nos observou tinham um toque de misticismo, assim como no livro quase apocalíptico do George Orwells – 19884, no entanto, hoje ele já tem nome e rosto; são marcas, aplicativos e pessoas que permitimos entrar em nossas casas e gerenciar as nossas vidas. Talvez devêssemos ser mais objetivos do que confiar que o que produzem em nós é um tipo de segurança e estabilidade para a sociedade e de nós mesmos, mas a realidade é que nós deparamos com a mesma, produzindo o oposto, ansiedade e insegurança. Porque não podemos pensar e criar histórias em nossas cabeças do que achamos que é a consequência de ter agido e respondido desta ou daquela maneira falhando assim ao sistema, por isso aceitamos a ideia de não merecer as promessas vendidas e estar sempre ao serviço e as demandas dele.

_

[1] https://leitor.expresso.pt/semanario/SEMANARIO2415/html/revista-e/-e-1/Todos-somos-dados

 

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