Dark Patterns e os Labirintos da Desinformação

Segundo John Brownlee  (Fast Co. Design)Dark Patterns são decisões deliberadas de UI / UX  que procuram explorar a psicologia humana para fazer com que os usuários tomem decisões baseadas em armadilhas, imprevistos ou desinformação. Cunhado por Harry Brignull em 2010, o termo surge em um contexto marcado pelo boom das indústrias de comércio eletrônico. Visando aumentar o volume de vendas, obter assinaturas, coletar informações pessoais e etc., empresas associaram-se a designers para criar interfaces com o objetivo expresso de manipular os usuários de suas plataformas online.

Em termos gerais, este artigo pretende examinar tais “padrões escuros” de modo a destacar os problemas e questões éticas que acompanham a prática, bem como defender o papel do designers como agente facilitador e criador de transparência, e não de opacidade e manipulação.

Quando usamos a internet, normalmente não lemos cada palavra em cada página. Ao invés disso, fazemos leituras rápidas e assumimos resultados baseados em experiências prévias. Sabendo deste padrão, empresas aproveitam-se de convenções gerais para criar páginas, janelas e formulários que parecem indicar algo, enquanto na verdade nos levam a um caminho inesperado, ou ainda tornar mais difíceis – ou quase impossíveis – a tomada de decisões que não se alinhem aos seus interesses – como deletar uma conta ou cancelar um serviço.

Brignull, enumera em seu site as diferentes estratégias empregadas por uma enorme quantidade de empresas, incluindo gigantes como Microsoft, Facebook e Amazon. Estas técnicas incluem propagandas disfarçadas, botões que não levam ao destino previsto pelo usuário, percursos labirínticos, entre outros. A lista aponta estratégias como Bait and Switch, Forced Continuity, Hidden Costs, Misdirection, Price Comparison Prevention, Privacy Zuckering, Trick Questions e etc..

Grandes companhias fazem uso destes padrões sabendo que estão agindo no limite da ética e da legalidade. Em certos ocasiões, no entanto, essa fronteira é ultrapassada – como pudemos observar no caso de 2015 envolvendo o Linkedin. Através de uma sequência de páginas que faziam uso de Dark Patterns, a empresa obtinha acesso aos contatos de email do usuário e conseguia enviar diversas mensagens em nome dessas pessoas, com convites para se unir ao site. Este era o procedimento padrão da empresa, que passou a enviar ainda várias mensagens de follow up para aqueles que não aceitavam os convites. Muitos sentiram-se prejudicadas já que a enxurrada de emails enviadas em seu nome incomodavam os recipientes causando danos a suas reputações profissionais. A plataforma foi processada legalmente e, mesmo negando ter cometido qualquer erro, fechou um acordo de 13 milhões de dólares – o que não resultou em mais do que dez dólares para cada usuário.

Também pudemos notar uma aumento significativo no uso de Dark Patterns após a implementação de novas regulamentações referentes ao uso de cookies e acesso a informações pessoais. Atualmente, as plataformas online devem por lei pedir a autorização do usuário para que se acessem suas informações. Porém, a vasta maioria dos sites facilita apenas uma opção: aceitar integralmente a política previamente determinada, mesmo que o usuário sequer saiba o que isso significa. Se perguntados de forma direta e objetiva se gostariam de compartilhar suas informações, muitas pessoas certamente negariam, mas os banners e formulários que incluem as opções de privacidade são desenhados de forma que seja sempre mais fácil e mais intuitivo optar pela política mais invasiva – que mais beneficia as empresas. Os banners tomam conta da tela obrigando o utilizador a clicar em “aceitar” ou gastar tempo e energia buscando mais informações, ao invés de cumprir seu real objetivo ao acessar o site. Os botões e links para opções menos invasivas estão sempre escondidos, ou chamam menos atenção do que os para simplesmente aceitar. É quase certo que o usuário não vai entrar no labirinto em busca de garantir sua privacidade, e esta é uma escolha premeditada.

É importante estarmos cientes destes subterfúgios do design, tanto como usuários quanto como profissionais da área. Estes padrões vão contra princípios celebrados no design, que buscam desenvolver experiências fluidas e agradáveis, pensando no melhor aproveitamento do usuário. É preciso ter em mente que estamos interagindo com pessoas, e buscar relações humanas e éticas. Como usuários, precisamos estar atentos, denunciar empresas que usam o design de forma desonesta, e exigir que medidas sejam tomadas. Como designers, precisamos mostrar nosso desacordo e deixar de contribuir com a produção desse tipos de relação. Afinal, o design é também um lugar político.

Caio Guedes

Redesigning Design

O design como até agora era definido, está a sofrer uma mudança crítica. Com o emergir das “novas tecnologias” e a automatização, o design associado à produção de um objeto físico, a uma prática de artesão, está a desviar-se para novas definições. O design está a emergir como uma disciplina autónoma, capaz de incitar investigação e gerar conhecimento [1]. Designers têm os meios para ponderar e intelectualizar sobre a sua prática, produzir conhecimento sobre si enquanto criadores e sobre a disciplina. O design pode ser utilizado como ferramenta para construir uma forma excepcional de crítica [2].

Anthony Dunne e Fiona Raby popularizam o termo critical design. O design crítico, consiste na autorreflexão do designer através da crítica da sua própria arte. Mas implica estar igualmente ciente do contexto social, político e cultural da sociedade, criticá-lo, pensá-lo e agir sobre ele. Mazé [2] explica que designers, pessoas ativas, não se preocupam apenas consigo próprios, com os seus pares e colaboradores, mas envolvem-se com questões fora do design. Designers têm uma voz, têm um meio, uma plataforma para começar a conversa sobre conceitos teóricos e para pôr em prática termos ideológicos.

O grupo Metahaven, um estúdio de design fundado por Daniel van der Velden e Vinca Kruk, adere ao conceito de design crítico e opera com base em alguns dos seus princípios. Nas palavras de Velden, entrevistado por William Drenttel, o design serve “como uma ferramenta para questionar, para investigar, para antecipar. Assim como, uma ferramenta para imaginar.” Este estúdio baseia o seu trabalho nestes princípios, procurando colaborar com outros designers e investigadores dependendo do projeto que desenvolvem. O seu trabalho varia entre comissões de clientes, sejam publicações ou identidades; trabalho de investigação, que podem ser experienciados online, em exposição ou em publicações impressas; em ensaios, instalações, estratégias de comunicação, entrevistas, palestras e conferências. Em variados meios que comuniquem o projeto e o seu objetivo.

Menciono Metahaven como exemplo de um grupo que está ativamente a redesenhar o design, a pensar no seu futuro, não subscrevem à ideia de um design que não contesta as ideologias predominantes ou que se conforma com as expectativas culturais, sociais e técnicas [4], pretendem ser disruptivos e vocais sobre assuntos que estão estabelecidos nos sistemas da sociedade.

A partir do design research – que Velden descreve como a investigação através da prática do design, ou investigação que contribua para o design como disciplina [3] – os Metahaven produzem conhecimento que enriquece e autonomiza o design enquanto disciplina académica, desenvolvendo ideais e sistemas de design que se adaptam a um futuro incerto. Desenvolvem o conceito de speculative design e formulam um método de trabalho. Encontram questões que pretendem tratar a partir do que chamam “sinais fracos”, falhas na realidade com potencial para subverter o sistema, a partir do qual trabalho crítico pode ser desenvolvido. Metahaven defendem a necessidade da utilização da imaginação, em considerar um momento fictício ou de fantasia no processo do design, chamam à atenção para a necessidade imperativa de trabalhar com o absurdo, de dar importância à ideia, de imaginar o futuro. Deixando de lado a tendência atual para um design de participação cívica politicamente correta, de agir perante uma emergência. O design especulativo analisa o que poderá ser uma emergência no futuro e age sobre o problema antecipadamente. [1]

The Sprawl, um projeto desenvolvido por Metahaven em 2016, ilustra exatamente o espírito do design crítico. O objetivo é expôr um assunto, investigando-o e criticando-o. Velden acredita que o design é sobre o mundo, sobre outras pessoas, outras coisas, ligadas através do designer, o designer é o filtro. O design é um meio. O design está diretamente ligado com a política. O design está no ato e não na execução, todo o processo do projeto é relevante. Não é apenas reacionário, mas proativo.

Ana Serra

PALAVRAS-CHAVE: Design Crítico, Design Especulativo, Metahaven.

____________________________

[1] Velden, D. v. d. (2006). Research & Destroy: Graphic Design as Investigation. Metropolis M, (2).

[2] Mazé, R. (2009). Critical of What. In M. Ericson, M. Frostner, Z. Kyes, S. Teleman & J. Williamsson (Eds.), Iaspis Forum on Design and Critical Practice – The reader (pp. 389-408). Berlin: Sternberg Press, Iaspis.

[3] Drenttel, W. (2010). A Conversation with Daniel van der Velden of Metahaven. DesignObserver [Em linha]. Disponível em: https://designobserver.com/feature/a-conversation-with-daniel-van-der-velden-of-metahaven/23688 [Consult. 3 de Março 2019]

[4] Bowen, S.J. (2007). Beyond “Uncritical” Design position paper for Sint-Lucas Research Training Sessions 2007. Hogeschool voor Wetenschap & Kunst Sint-Lucas, Brussels 14-16 June 2007.

A mudança pela mão de quem cria

A construção de um mundo melhor através do design não depende apenas de seus processos, mas sim da intenção de quem o cria e das instituições que estão por trás.

O design social hoje tem uma visão otimista sobre a inovação com um propósito, sobre o design com responsabilidade social. É perceptível um idealismo sobre a necessidade de pensar diferente, sobre criar novos começos sobre ideias cruzadas e habilidades multidisciplinares. Esse idealismo vem historicamente de uma evolução de gestões, pensamentos e gerenciamentos de projetos após a terceira revolução industrial junto aos conceitos de adhocracy.

A palavra “Adhocracy” foi disseminada por Alvin Toffler em 1970 com um ideal o oposto ao da burocracia. Onde nasce a ideia de projetos com colaborações multidisciplinares.

A exposição “Adhocracy”, que aconteceu no Istanbul Design Biennial em 2012, reúne a ideia de terceira revolução industrial com a ideia de que qualquer pessoa poder criar novos produtos, fazendo do papel do processo de criação muito mais evidente que a criação visual. O design se torna parte de todo um processo do inicio ao fim, da investigação aos resultados. Deixa-se de lado a busca pela perfeição, abraça a ideia da imperfeição como parte de um processo que está sempre em evolução, onde a ação de fazer é o mais importante.

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Image: 1st Istanbul Design Biennial – Adhocracy – The Archaeology of Now

 

“Adhocracy” é uma tentativa de tecer um fio crítico através da rizomática multidão de idéias, objetos e fenômenos; A adocracia procura interrogá-los, problematizá-los e interpretá-los. Seus conteúdos são amplamente mostrados sobre a vida cotidiana, do ar que respiramos como cidadãos do século XXI.
ADHOCRACY, Joseph Grima.

[Tradução Livre] [1]

Essa evolução de processos construiu todo um novo a partir de transformações significativas para o impacto social. São novas formas de gestão, economias, poderes, estruturas sociais.

Vemos hoje, também, surgir a cada dia mais e mais projetos pelo mundo com esse desejo de transformação e impacto social, vemos projetos sociais e eventos no design com a visão de impacto social significativo, projetos como Design for Social Impact Symposium na Austrália, Dark Matter no Reino Unido, Do Something na Austrália, BlueRidge Labs em Nova York e também vemos projetos disseminados como a IDEO.org e estúdios de design como Greater Good Studio, que realizam projetos com intuíto de fazer a diferença pelo design e apoiar a mudança social.

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Image: © 2019 Greater Good Studio

 

“O design mudou fundamentalmente a maneira como vivenciamos o mundo, da forma como interagimos com os objetos até nossas expectativas sobre como as organizações são estruturadas. É um momento novo e excitante para o design – isto é, até o próximo começar a surgir.”
Rob Walker, A Golden Age of Design

[Tradução Livre] [2]

Por fim, a evolução segue ao dia a dia, seguimos sobre os questionamentos do papel do design sobre a sociedade hoje, sobre a construção de um mundo justo e sobre os caminhos que o design está a tomar, onde por um lado vemos uma forte vertente “human-centered”, por outro, um caminho que segue de interesse ao lucro corporativo. Sabemos onde estamos, mas com a evolução constante das novas tecnologia, da automação, da inteligência artificial, sabemos para onde vamos? Assim voltamos ao questionamento inicial, em que a construção de um mundo melhor não está apenas nos meios, mas nas mãos e na intenção de quem o cria.


Palavras Chave:
Revolução Industrial, Adhocracy, Design, Inovação Social.

[1] Grima, J. (2012). Adhocracy. Em M+ Matters.

[2] Walker, Rob. (2014). “A Golden Age for Design”. New York Time

Ventos de mudança

Com a Revolução Industrial, os processos de produção foram automatizados. A produção dos objetos a serem consumidos por massas passou a ser feita por máquinas que asseguravam um modelo padrão – um standard – produzindo várias cópias perfeitas do mesmo objeto tornando-se a produção também massificada.

De uma forma geral, a máquina veio ocupar o papel do artesão. Numa sociedade extremamente tecnológica com uma grande cultura de consumo, onde os processos de produção visam a produzir o maior número de objetos com a intensão de os vender o mais barato possível, motivando uma necessidade de consumo, começam a surgir várias questões sociais e éticas sobre os impactos desta lógica de produção.

Neste sentido, Joseph Grima explora no seu artigo Adhocracy (2012), uma visão do artesão, ou criador, como um agente político face a estas lógicas de consumo e produção. Contudo, esta visão não é recente. Nas últimas décadas os designers têm-se questionado sobre, não só o seu papel, mas como a sua atividade pode estar ao serviço da sociedade. Os designers têm olhado para a sua prática não apenas como a criação de objetos, mas como sendo crítica perante questões sociais, económicas e políticas.

As rápidas evoluções tecnológicas têm alterado bastante a forma como qualquer profissional trabalha na sua área, sendo atualmente praticamente tudo digital e maquinizado. No entanto, os designers tendem a ver a máquina apenas como uma ferramenta, aliando um sentido crítico e um pensamento teórico que lhes permite através da sua prática colocar questões fulcrais como “a definição de trabalho, o valor da propriedade intelectual, a ética do consumo, e, com certeza, sobre as possibilidades inerentes aos novos processos de produção.”[1]

Este sentido crítico crescente na prática do design apenas reflete o sentido crítico que se tem amplificado em toda a sociedade face às estruturas de poder social e económico. Estas estruturas que se gerem através de estratégias burocráticas, que por sua vez são “indiferentes ao destino do indivíduo”[2].  Grima introduz o termo adhocracia, primeiramente definido pelo escritor futurista Alvin Toffler, como um sistema de oposição à burocracia. A adhocracia é um sistema organizacional flexível e intuitivo que procura resolver problemas e chegar a resultados. No quadro a baixo compreende-se a diferença burocracia e adhocracia.

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Quadro retirado do artigo “Adhocracy for an agile age” de Julian Birkinshaw and Jonas Ridderstråle (2015)

A burocracia privilegia a autoridade, a hierarquia e as regras, algo que se demonstra ser prejudicial quando, perante esta rápida evolução tecnológica e social, as instituições deveriam adaptar-se de modo a sobreviver. Em contrapartida, a adhocracia privilegia o tempo e a oportunidade, o imprevisível, debruçando-se sobre uma temática ou um problema e procurando formas rápidas de o resolver através da experimentação e de tentativa e erro.

Aqui encontramos parecenças entre a adhocracia e o método do processo do Design, onde o designer procura responder a um problema ao defini-lo, apresentando alternativas e validando-as, ou experimentando-as.

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Método do processo do Design, por Bernard E. Bürdek (2010)

Não parece então despropositado que se olhe para a metodologia do design e se a tente incorporar na resolução de problemáticas de uma ordem mais social. Como menciona Justin McGuirck no seu artigo “Dreaming of year zero”(2014), “o design transformou-se numa meta-disciplina que vê aberturas em todos os lugares, vastos campos de influência a seus pés.”[3]. Desta forma parece que tudo pode ser reduzido a um problema de design, quer sejam as estruturas dos governos, das instituições, problemas sociais etc.

Existe cada vez mais um espírito crítico, uma vontade de mudança e de romper com a atual situação, criar uma “anatomia social inteiramente nova”[4]. No entanto, e enquanto que a adhocracia “é uma tentativa de tecer um fio crítico através dessa multidão rizomática de ideias, objetos e fenómenos; procura interrogá-los, problematizá-los e interpretá-los”[5], a mudança não deve surgir simplesmente pela mudança. Como McGuirck alerta no seu artigo, essa vontade pela mudança pode ir demasiado ao encontro dos interesses de empresas tecnológicas que por um lado têm bastante interesse no desaparecimento do governos e das suas regulamentações, e, por outro, têm todo o interesse em trocar as instituições por aplicações tecnológicas que nos libertam dos governos mas nos tornam dependentes dos seus produtos.

 

Palavras-chave: mudança, tecnologia, burocracia, adhocracia, designer

 

Notas

[1] “the definition of labour, the value of intellectual property, the ethics of consumption, and, for sure, the possibilities inherent in new productive processes” (Grima, 2012)

[2] “indifferent to the fate of the individual” (Grima, 2012)

[3] “design has morphed into a meta-discipline that sees openings everywhere, vast fields of influence at its feet.” (McGuirck, 2014)

[4] “an entirely new social anatomy” (Grima, 2012)

[5] “Adhocracy is an attempt to weave a critical thread through this rhizomatic multitude of ideas, objects and phenomena; it seeks to interrogate them, problematise them and interpret them.” (Grima, 2012)

 

Bibliografia

Grima, Joseph (2012). Adhocracy. In M+ Matters www.mplusmatters.hk/asiandesign/
paper_topic3.php.

McGuirk, Justin. (2014). Dreaming of Year Zero. In Sacchetti, Vera e Jan Boelen.
(eds.) Designing Everyday Life. Ljubljana: Park Books. Disponível em: //justinmcguirk.
com/dreaming-year-zero

Máquinas de habitar

Uma revolução industrial dá-se quando os avanços da técnica permitem um processo de grande industrialização de um mecanismo de produção, que passa a integrar a estrutura económica e, consequentemente, social de um país. As engrenagens da primeira revolução industrial arrancaram na Grã-Bretanha, no final do século XVIII, com a mecanização da indústria têxtil. Nos anos que se seguiram, as máquinas usadas para a produção proliferam o mundo. A segunda revolução industrial teve lugar na América, no século XX, com a linha de montagem – com a qual se deu os primeiros passos para a entrada numa era de produção em massa. [1]

Ainda que o termo “revolução” comporte a conotação de imediatidade, de uma mudança súbita, o estabelecimento das tecnologias digitais no seio da sociedade moderna coloca-nos desde já perante uma terceira revolução industrial. A revolução que hoje vivemos vem, em certa parte, recuperar uma identidade outrora perdida em detrimento de objectos que, através da padronização, eram produzidos aos milhares de uma só vez.

É de notar que o termo “identidade” não visa remeter para o reconhecimento de autoria de uma obra, neste contexto, mas antes recai sobre o espaço perdido para a expressão pessoal do indivíduo que não se quer ver reduzido à padronização.

Uma das expressões mais primitivas do sentido de identidade é a arquitectura vernacular, que proveio da necessidade e que lidou de maneira excepcional com o ambiente em seu redor, tirando dele o máximo partido.

Mas, à medida que as máquinas tomavam o seu lugar na sociedade do século XX, também o lar se tornou uma «máquina de habitar», ou assim o fez querer Le Corbusier – protagonista da arquitectura Moderna. O movimento Moderno na arquitectura ocorreu durante a primeira metade do século XX despoletado por um contexto de redefinição cultural catalisado pelas novas tecnologias emergentes no seguimento das guerras mundiais e em resposta a uma crise na habitação.

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Fig. 1 – Casa Dom-Ino, arq. Le Corbusier, 1914. Protótipo de sistema estrutural construído de elementos estandardizados, para ser reproduzido em massa

Neste seguimento, foi convocado, em 1928, na Suíça, o primeiro congresso internacional da arquitectura moderna (CIAM) que reuniu os principais arquitectos internacionais com o fim de discutir e estabelecer os aspectos deste (então) novo movimento para que fosse difundido como um estilo internacionalmente homogéneo. Daí surgiu uma arquitectura de contornos puramente funcionais e racionais que encarava a arquitectura como um instrumento com dimensão política, passível de instaurar um planeamento urbano indubitavelmente correcto. [2]

Os CIAM resultaram, em última instância, num manual de estilo para a construção – facilmente aplicável por qualquer arquitecto em qualquer parte do mundo. Este fenómeno deu-se em grande parte devido à Carta de Atenas, redigida em 1933 por Le Corbusier, como resultado do Congresso de 1931. (Já em 1926, Le Corbusier publicara, na sua revista L’Esprit Nouveau, um artigo onde enunciava Os 5 Pontos da Nova Arquitectura, cujos princípios rapidamente se tornaram cânone da arquitectura moderna). Como consequência, teve origem uma arquitectura indiferente e inadequada à escala humana e ao indivíduo que a habita, inapta a questionar a doutrina Moderna.

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Fig, 2 – Brasília. Cidade projectada por Oscar Niemeyer de acordo com a doutrina Moderna

Apropriando o termo de Alvin Toffler, a adhocracia é qualquer forma de organização que vai contra as linhas burocráticas para, assim, capturar oportunidades, resolver problemas e obter resultados. A adhocracia, vista da perspectiva da arquitectura, é disrupção da linha coesa do modernismo – que descaracteriza o indivíduo a uma massa com necessidades, gostos e quereres comuns, correspondidos através de um “condensador socia”.

Planear uma cidade – da escala do banco de jardim à escala da torre de escritórios – deveria desencadear um processo de questionamento quanto às lógicas em torno das quais se organiza uma sociedade, especialmente durante uma era de tumulto social e tecnológico, tal como reitera Robert H. Waterman Jr., para garantira sua capacidade de adaptação e sobrevivência. [3]  A adhocracia é o título dos movimentos de resistência, que apelam a uma atitude colectiva de advertência perante dogmas como o da arquitectura Moderna.

 

Palavras-chave: revolução industrial; identidade; arquitectura; modernismo; adhocracia

 

– Teresa Morais


 

[1] Autor desconhecido (2012). A third industrial revolution. The Economost (p.3, parágrafo 12)

[2] Mumford, E. (2000). The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960

[3] Grima, J. (2012). Adhocracy. Em M+ Matters.

Fig. destaque – https://www.archdaily.com/150629/ad-classics-robin-hood-gardens-alison-and-peter-smithson

Fig. 1 – http://thecityasaproject.org/2014/03/the-dom-ino-effect/

Fig. 2 – https://www.civitatis.com/pt/brasilia/visita-guiada-brasilia/

 

On Big Tech Merging with Big Brother

The threat of surveillance is one that we recognize, yet seem to ignore when it threatens us directly. Could this be, however, simply because we don’t understand its implications? We have blindly acted as agents of corruption. But is this by design? Big Tech and Big Government, though once estranged, now dine together at the likes of the Alfalfa Club. If this cosy relationship wasn’t problematic enough, these same wealthy private influencers are allowed to finance political campaigns, thereby purchasing sway over policy – policy which is supposed to protect its citizens’ interests, not those of profit-driven corporations. This collusion, though, is even more nefarious, because the trading unit is information – the most precious resource we own. With this unfettered access, corporations are – legally – allowed to aid in government sanctioned discrimination, abetting a kind of modern censorship.

But what if these companies go against their own interests and actually act as a force for good? “What if Google helped the CIA develop a system that helped filter out fake news, say, or a new Facebook algorithm helped the FBI identify potential school shooters before they massacred their classmates?” Well, that would place Google as an arbiter of truth and Facebook as arbiter of justice. Even if thinking machines could be taught to filter out hate speech and falsehoods, that would firmly place them as the purveyors of truth and moral righteousness.

Personally do not subscribe to the notion that machines can think independently. Even AIs. They can learn and develop, yes, but their thought process and logic will always be dependent upon the parameters fed to them by the programmer. But even if we do embrace a “social order monitored and regulated by machines that have been programmed to be free of human prejudice” as a way of attaining a “good society”, this becomes dangerously dependent upon their definition of “good”, as better often does not mean better for all.

 

Comentário ao artigo “Is Big Tech Merging With Big Brother? Kinda Looks Like It”, de David Samuels, publicado na revista WIRED. Janeiro de 2019

For the People?

Technology has always stood at the heart of human ingenuity. Its problem-solving nature has been responsible for remarkable feats that defined eras, each characterised by a shift in how humans interact with each other. Regarding this solutionist aspect, however, Thomas P. Hughes argued that we must then be aware of its complex and varied intricacies in order to use it more efficiently. This was a warning.

As promulgated by Evgeny Morozov, with word of a third and fourth Industrial Revolutions, the premise that technology is easily controllable must be thoroughly questioned. In fact, its intrinsic uncertainty and limitation may yield “unexpected consequences that could eventually cause more damage than the problems they seek to address” (Madrigal, 2013). Within a Darwinist approach to technology, this can be explained simply as the result of evolutionary pressures. Because technological advances are much more significant than human evolution, a fundamental gap appears. One that is simultaneously epistemological and ontological.

Faced with a rift which necessarily lies beyond our comprehension, biology must adapt. Within our human societies, specifically, this creates an evolutionary need for innovation — which Darwin might call adaptability.

One such manifestation could be that of adhocracy. This is a flexible and adaptable organisational method, defined by a lack of formal structure, which fosters decisive and intuitive action. This system places itself mainly in opposition to a bureaucracy, yet a case can be made for its further differentiation from meritocracy as well. “For example, when bureaucracies face a difficult decision, the default is to defer to a senior colleague. In a meritocracy, the default is to collect more data, to debate vigorously, or both. The default in an adhocracy is to experiment—to try a course of action, receive feedback, make changes, and review progress” (McKinsey, 2015). This firmly establishes adhocracy as preferable in an unpredictable environment, such as a techno-social present and, perhaps, future.

The link between the adhocratic values and technological progress becomes, thus, apparent. Furthermore, this urgency of successful improvisation is exacerbated when faced with emerging breakthroughs in technology. Rapid compromise must be made in order to meet the equally rapidly changing demands. An interesting question thereby arises, though. Whose demands are to be met — the People’s, or the Industry’s?

Let us consider the profiles of two American presidents with diverging views — that of Franklin D. Roosevelt, and that of Donald Trump. They have little in common, albeit for one important factor in this discussion: their adoption of adhocracy within their governmental structures.

Amidst a second Industrial Revolution, Roosevelt carried the United States through the Great Depression and World War II into a prosperous future, and, in so doing, redefined the role of the government. His advocacy and expansion of governmental social programs was instrumental in changing the notion of liberalism for coming generations. FDR was also responsible for the monumental New Deal, which established federal responsibility for the welfare of the U.S. economy and the American people. His administrative style, however, is described as utterly chaotic. In fact, “his favourite technique was to keep grants of authority incomplete, jurisdictions uncertain, charters overlapping. The result of this competitive theory of administration was often confusion and exasperation on the operating level” (Dallek, 1995), which accurately describes an adhocratic rule.

I would consider the results of FDR’s administration to be largely positive (with a few caveats). However, considering adhocracy’s fairly recent claim in a seemingly increasingly booming society, “the most significant transformations have only just begun: the struggle to define new power structures, new economic frameworks, new forms of authority, new modalities of being political — an entirely new social anatomy, in other words — is unfolding in front of us at this very moment” (Grima, 2012). A distinctly germane example of that is centred around the figure of Donald Trump, governing under a third (and arguably forth) Industrial Revolution, catalysed by the digital realm anchored on the Internet. As a consequential contemporary figure in the age of information, much is known about Trump. One could denounce several examples of brazen transgressions of numerous ethical and constitutional provisions. One such example is the widely publicised ‘Muslim ban’. That policy decision was not reviewed by all the sectors of the administration. In fact, then-Acting Attorney General Sally Yates first read the promulgation only after the executive order was posted online. After the public backlash, while administration officials tried to argue that the decree was not aimed at Muslims specifically, the president himself contradicted them. This, mounting atop a violation of the emoluments clause, as well as appointing his family members to cabinet positions,  foreign policy decisions and numerous other instances, has put this president in an unprecedented position nurtured in adhocracy.

It is not hard to discern what attracts powerful figures to this kind of organisational structure. This is a system which thoroughly emphasises the power and authority of such people. Though clearly earning its merits as an advantageous choice, this may not even be a conscious one, but rather one which simply flows from the proclivities of the individual and those who surround them. But the dangers of this kind of ‘unstructure’ are abundant and must be considered going forward. When applied to important structures such as government, the choice of People or the Industry has to be made, and the answer must be made apparent. I passionately believe that, especially in a representative democracy, the People’s interests must be firmly protected. Regardless, one must recognise, categorically, that an increase in freedoms must be accompanied by a keen sense of responsibility in their handling.

Think What Design Can Be Other Then What It Is.

INCLUSIVE DESIGN

— AN EMANCIPATION ON THE CONSTRAINS PLACED BY RACE

 

O design deve abranger abertamente os praticantes mais diversificados e retê-los através da inclusão. Uma mudança no Design que conhecemos hoje em dia é necessário. Recordo o título do livro de Robert H. Waterman Jr.[1] Adhocracy: The Power to Change[2]. Embora o termo não tenha começado com a disciplina de Design — a adhocracia — é de meu interesse como licenciada na área e estudante da mesma abordá-los de encontro ao mesmo.  A adhocracia “une indivíduos e corporações, exércitos e artistas, designers e fabricantes, adolescentes e filósofos. Isso definitivamente traz consigo um novo conjunto de instrumentos, artefactos, costumes e até mesmo uma nova estética, mas as transformações mais significativas estão apenas a começar: a luta para definir novas estruturas de poder, novas estruturas económicas, novas formas de autoridade, novas modalidades de ser político – uma anatomia social inteiramente nova, noutras palavras – está a desdobrar-se diante de nós neste exato momento.” (Joseph Grima[3], 2012)
Apesar de haver um grande manifesto acerca do tema á volta de formas de inclusão para um corpo social mais participativo de todas as perspectivas que o formam, com o intuito de criar diversidade de pensamento e por conseguinte, uma maior variedade de resultados.
Como designers é nosso dever manter a persistência de diversidade através de representatividade na criação das mais diversas perspectivas que espelhem a sociedade em que vivemos. Devemos procurar cultivar muitas maneiras diferentes de pensar, ser e projetar, derivadas de diferentes artifícios e visões de mundo, visando atender a muitas necessidades e desejos diferentes.

“Uncover an equally wide array of possible design approaches and solutions.”

Maurice Cherry[4]

O constante questionamento é essencial. A adhocracia procura interrogar, problematizar e interpretar uma multidão rizomática de ideias, objetos e fenómenos. “Os seus conteúdos são amplamente retirados da vida quotidiana, do ar que já respiramos como cidadãos do século XXI.” (Joseph Grima, 2012)
Como designers, se imaginarmos a ampla gama de valores possíveis, podemos descobrir um conjunto igualmente amplo de possíveis abordagens e soluções de design que possam se manifestar e apoiar outras formas de pensar e ser. E há uma grande necessidade de representação racial ainda muito notável. Uma urgência de uma comunidade mais abrangente, diversa, inclusiva de forma a gerarmos uma sociedade em torno de uma justiça social.

“When you begin to ask those questions of what it means as a designer to be a culture maker, you ask harder questions about what kind of culture you’re creating.”

A história da relação entre Negro-Causcasiano chegou a pontos extremistas, quando um se superioriza para com o outro e exige e evidência um conjunto de normas sociais a serem seguidas com solitude. Gera-se uma atitude depreciativa e discriminatória não baseada em critérios científicos em relação a este grupo social (compreendemos então a existência de racismo). Devido a uma história longa de separação racial, o vestígio (que se depara nos dias de hoje) desta relação se mantém na memória e o distanciamento desta realidade torna-se árdua.
O isolamento entre sociedades de raça negra e raça branca (caucasiana) criou uma distância de interesses notável.
Se estas duas identidades não partilham os seus interesses a modo de os tornarem comuns entre si, o auditório permanece o mesmo e cresce dentro do mesmo núcleo, e este ressoa dentro de um grupo que expressará a intenção de continuidade destes mesmos comportamentos como algo natural ou originário do ser humano.

É imprescindível que, diante dos argumentos expostos, todos se conscientizem de que a relação entre o Negro e o Caucasiano seja um tema ainda controverso pelo simples facto de não ter seguido uma linha de tempo parcial para um desenvolvimento análogo ao comportamento social geral, que as restrições impostas ao longo dos tempos provocou um retrocesso naquele que poderia ter sido um triunfo na carência de racismo. Este é um tema a ser pronunciado, não só, por parte do indivíduo que sente inferioridade no resultado dessa codificação comportamental[5], mas pelo indivíduo que se superioriza para com este: deve ser abordado como um assunto de compromisso e consideração social, de forma a progredir e massificar todos os pontos de uma sociedade civilizada.

Reconhecer estes problemas é já um processo, e um progresso para a aproximação de um futuro desejado. Este post não apresenta a receita pronta para a mudança, mas sim vulgarizar, difundir e consciencializar sociedades com a familiarização do tema.

 

 

Notas:

[1] Waterman Jr., Robert. Non-fiction author and expert on business management practices, best known as the co-author (with Tom Peters) of In Search of Excellence.
[2] Waterman Jr., Robert (1990). Adhocracy: The Power to Change. Knoxville, TN: Whittle Direct Books
[3] Autor da citação: Grima, Joseph. British architect, critic, curator and editor. Creative director of Design Academy Eindhoven and co-founder of the design research studio, Space Caviar
[4] Cherry, Maurice. Designer, podcaster and pioneering digital creator in Atlanta, GA. (Currently) head of media at Glitch.
[5] Argumento: Elias, Norbert. (1994). O Processo Civilizador. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor Ltda.

 

 

Palavras-chave:

Representação; Inclusão; Justiça social; Diversidade; Adhocracia;

Universos paralelos do design

Novas visões criam novos universos. É notável a importância do design crítico como disciplina. Tanto na teoria, como na prática, observarmos uma constante evolução na produção de artefatos como alternativas que refletem ideologias e valores que questionam o status quo, estabelecendo rotas não usuais para se encontrar possíveis respostas para questões emergentes. Entretanto, embora a prática do design como crítica esteja consolidada, seja nas exposições de Dunne & Raby ou até nas novas abordagens de Inteligência Artificial concebida por Philip Agre, o desafio que se apresenta é como fazer com que todas as reflexões geradas pela disciplina possam se converter em ações mais amplas, ou como propõe Simon Bowen, “como uma reflexão crítica pode ser instrumentalizada nos processos atuais de design para que melhores respostas possam ser encontradas”.

Seguindo a ideia de Francisco Laranjo, é oportuno investigar sobre como construir pontes sólidas que conectem a produção crítica atual com um debate político efetivo, que transfira a aura glamourizada da prática já institucionalizada em museus, galerias e revistas segmentadas para territórios onde exista um engajamento social mais amplo e visível. É nesse contexto que o papel do designer vendo sendo desafiado. Num cenário de uma evolução tecnológica sem precedentes na história, que abala consideravelmente estruturas sociais, culturais e políticas, é imperativo que o designer seja cada vez mais um ativista, que possa constantemente hackear a própria disciplina do design crítico, encontrando os meios de escapar de universos paralelos para se aventurar em realidades mais latentes.

_ Fabio De Almeida.

 

Palavras-chave; design crítico, política, engajamento social, tecnologia, ativismo.

Notas:

[1] “My research is also concerned with artefacts that afford critical reflection. However I am interested in how this critical reflection can be used more instrumentally within the design process. How can it be used to produce “better answers?” Bowen, S.J. (2007). Tradução livre e editada.

 

Bibliografia:

[1] Laranjo, Francisco. “Critical Everything”. In Modes of Criticism 1 – Critical, Uncritical, Post-critical. Porto: 2015. Disponível em: https://www.grafik.net/category/feature/critical-everything

[2] Bowen, S.J. (2007). Beyond “Uncritical” Design” position paper for Sint-Lucas Research Training Sessions 2007. Hogeschool voor Wetenschap & Kunst Sint-Lucas, Brussels 14-16 June 2007.

 

Imagem: UMK: LIVES AND LANDSCAPES, 2014. Dunne & Raby. 

Futuro, Hoje

Hoje existe a crença de que o design tem à sua disposição dois poderes:

– o poder de elevar uma ideia;

– o poder de ele próprio ser a ideia.

As grandes corporações não ficaram indiferentes e tomaram nota desta faceta do design com a finalidade de aumentarem os seus lucros. Investir em design garante crescimento para estas empresas. Investir num interface bem desenhado simplifica o contacto com o público e melhora a experiência deste com as marcas, elevando a preferência dos consumidores. É certo que o design não acrescenta só valor, também o cria. Se o design é capaz de conceber produtos melhorados, mais funcionais, também conseguirá certamente aperfeiçoar o mundo. [1]

A Crítica e as Transformações

Paula Antonelli acredita que uma das funções mais importantes do design é impulsionar mudança e trabalha diretamente com tecnológicos e designers para chegar a esse fim. O rápido desenvolvimento de vários processos alternativos que levaram a um design multifacetado, é consequência da própria multidisciplinaridade do design. Ao longo do tempo, o design e as suas múltiplas faces têm-se tornado num meio de expressão de ideias, que trás questões provocatórias e de carácter social e político. [1]

Para chegar a um design mais político, social e que tenta aperfeiçoar o mundo, é preciso falar do termo “critical design”.

Dune & Raby explicam que o design crítico utiliza o design especulativo para desafiar suposições, preconceitos e dados sobre o papel que os produtos desempenham na vida quotidiana. É mais uma atitude do que qualquer outra coisa, uma posição em vez de um método, é simplesmente uma maneira útil de tornar o design mais visível e sujeita-o a discussão e debate. Serve para pensar e consciencializar. [4]

Ramia maze, no livro the reader (2009) sugere três formas de crítica no design. A primeira relaciona-se com a atitude crítica sobre a prática. Existe uma reflexão perante o que o designer faz e a razão pela qual o faz. A está ligada ao ensino, à criticidade dentro de uma comunidade de prática ou disciplina. Tenta mudar paradigmas e tradições. Terceiro, Os designers aproximam-se de problemas sociais e da sua discussão, a crítica tem como alvo o fenómeno social e político. [3]

Wodiczko autor do “Critical Vehicles” amplificou o seu trabalho com o Interogative Design Group em 1980, no MIT. Outros designers também contestaram a agenda política antes do termo ser cunhado, sempre aliando o design às belas-artes e às exposições museológicas. Assim Francisco Laranjo aborda a questão: Se as exposições são vistas por outros designers, não se gera um debate púbico, os designers acabam por definir e validar o seu próprio trabalho. Será que o design crítico pode agir desta maneira, ou será que é uma prática redutora que o impede de crescer e de chegar a novas resoluções? É preciso investigar, ser crítico para a disciplina amadurecer e refletir para com a finalidade de evoluir. [2]

Conclusão

“It’s time to publicly discuss the means, effects and especially the quality of the critical design projects, not just to celebrate and retweet them. If that doesn’t happen critical graphic design runs the risk of not being as substancial and meaningful as it could be. Or worse, it will become irrelevant to society. “[2]

Se o design pretende manter-se relevante face às mudanças tecnológicas, políticas, económicas e sociais,  terá de continuar a usar os seus próprios processos e métodos de produção para contribuir para novos conhecimentos nas áreas onde trabalha, acrescentando valor. [2] Será crucial manter um discurso público que englobe outras disciplinas com ligações ao design.

O facto de as empresas apostarem no design para criarem valor torna a disciplina e o próprio designer cada vez mais poderosos, como defende Walker. Cada vez mais os designers também terão de ser multifacetados e multidisciplinares, o trabalho muitas vezes é levado a cabo num ambiente onde a funcionalidade e a engenharia se fundem. [1] Esta será uma boa hipótese para “salvar o mundo”, concentrar os esforços no presente tecnológico, no que é possível e necessário melhorar agora e olhar para estas relações multidisciplinares de uma forma crítica que permitirá o desenvolvimento do design noutras direções que ajudem a melhorar o nosso dia-a-dia, ou que apontem para questões políticas pertinentes. [1]

Mariana Ribeiro

[1] Walker, Rob. (2014). “A Golden Age for Design”. New York Time

[2] Laranjo, Francisco. “Critical Graphic Design: Critical of What?”

[3] Laranjo, Francisco. “Critical Everything”. In Modes of Criticism 1 – Critical, Uncritical, Post-critical. Porto: 2015.

[4] Anthony Dunne and Fiona Raby. “Critical Design FAQ”. Disponivel online em: http://www.dunneandraby.co.uk/content/bydandr/13/0

 

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